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Obra: Fava da Silva

Obra: Fava da Silva

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Há algum tempo, apesar de sempre pensar a partir de onde estou – à beira desse rio –, quando disparo minha visão sobre outros lugares da Terra, as cartografias sonhadas que vejo incluem aquela imagem fantástica do astronauta que, olhando do céu, exclamou: “A terra é azul!”. O planeta é mesmo maravilhoso e é abraçado, em várias tradições de povos ameríndios – da Terra do Fogo ao Alasca –, por uma poética permeada de sentido maternal.

(Ailton Krenak – Futuro Ancestral, 2022)

Acho que vocês deveriam sonhar a terra, pois ela tem coração e respira.

(Davi Kopenawa – A queda do céu: palavras de um xamã yanomami, 2015)

Editorial

O mundo como o conhecemos sob o peito do céu parece em ruínas. Este ano de 2024, somente no Brasil, para além das violências e desigualdades existentes nas cidades e campos, nos fez experimentar situações catastróficas decorrentes do que denominamos “crise climática”. Muitos morreram, perderam suas casas, seus trabalhos, suas escolas, seus mundos. Esta própria forma de nomearmos como “crise do meio ambiente” as enchentes, os incêndios e outras formas que agridem e exterminam nós humanos, parece evidenciar uma epistemologia dual que provoca fissuras, para além dos furos que nos constituem como sujeitos.

Ao trazer para este editorial as palavras de duas lideranças indígenas brasileiras, evocamos o clamor dos povos ameríndios para a coimplicação na construção do nosso destino. Não se trata de meio ambiente de um lado, como as coisas da natureza não humana e, de outro, nós humanos, já tão ontologicamente diversos, mas da urgência de nossa época em frear o mito de uma civilização que vem se constituindo pela ideia do Estado Nacional, do Um, que generaliza, segrega, assujeita e extermina a diversidade.

Com estas palavras, deixamos aqui também o nosso clamor em direção a uma Escola de Psicanálise que tem buscado esta coimplicação. Ao mesmo tempo, nos despedimos, por ora, da função que conduzimos na Revista Stylete no último biênio. Uma publicação que nos implica de diversos modos na psicanálise, na arte, na filosofia e na política.

Os trabalhos apresentados neste número refletem, cada um com seu e(stylo), reflexões sobre memórias, o infantil, o ignoródio, a borda, a neurose. Em O sebo e o divã, André Falcão nos brinda com a reflexão sobre a busca de algum tipo de verdade escondida. Claudia Saldanha recorda, em A não-toda se escreve na margem, o ensinamento de Lacan sobre a impossibilidade da relação sexual e que o efeito feminizante que aproxima a carta/letra do feminino é uma pista do laço entre a letra e a não-toda que estaria por vir. Na bela indagação sobre a recriação de uma lembrança infantil, Georgina Cerquise traz Uma criação poética na qual elabora a estrutura metafórica em Lacan e a força criadora do sujeito.

Outra bela obra poética é escrita por Isloany Machado em Obsessísifo e as pedras no meio do caminho. Margarida Eugenia, em Escritura freudiana do sonho: uma leitura, apresenta a escrita como caminho da manutenção da singularidade que atravessa o desejo e estabelece laços. A partir de sua inquietação a respeito das manifestações de rua em 2013 no Brasil, em O que anima o fascismo?, Maria Paula Teperino indaga sobre os traços de identificação entre aqueles que compuseram uma massa raivosa, heterogênea, que clamava pelo retorno de um “regime de exceção”. Baseada em reflexões de Freud e outros autores contemporâneos, ela propõe a hipótese do ressentimento e da fascinação.

Em nossa galeria apresentamos Fava da Silva. Carioca do Conjunto de Favelas da Maré, em seu trabalho explora questões relacionadas ao contexto político-social brasileiro a partir de sua vivência como mulher, artista e residente da favela. Tem uma longa trajetória nacional no estudo de artes desde o Parque Lage, Galeria SESC de Duque de Caxias e outras galerias, bem como internacional, passando pela Galeria Camarones e Lanzallamas em Buenos Aires, Nova York, entre outras. Em junho deste ano inaugurou a exposição individual “Maré dos Sonhos Intranquilos”, da qual algumas de suas obras foram generosamente autorizadas para compor este número da Stylete. Premiada por edital publico de incentivo à cultura, realizou residências artísticas em Portugal e na Argentina. Atualmente é bacharel e mestre em cinema e artista da Escola Livre de Artes do Galpão Bela Maré. Inclui no seu percurso o mestrado em andamento no PPGArtes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Kátia Sento Sé Mello

Psicanalista membro do FCL Rio de Janeiro

1 Na língua Yanomami significa o firmamento, a parte visível do céu, para além da qual habitam os espíritos (Kopenawa, D. e Albert, B. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. 1ª edição, São Paulo, Companhia das Letras, 2015).

O sebo e o divã

André Falcão de Melo Filho

Psicanalista membro FCL Alagoas

Há anos atrás, eu tinha uma prática semanal e solitária. Ia para algum sebo e ficava procurando livros antigos e, de preferência, que já estivessem esgotados. Parecia que eu estava buscando algum tipo de verdade escondida, que já não poderia ser veiculada nas grandes livrarias. Achava que a maioria dos livros de autoconhecimento e autoajuda procurados pelo grande público não guardariam uma relação com as verdades íntimas de cada um. Apenas fala vazia e blá-blá-blá…

Voltando aos sebos, parecia que era naquele lugar — calorento, com cheiro desagradável de mofo e tanta poeira que me causava alergia — que residia algo que eu pudesse ler de diferente. Acredito que a psicanálise também tenha me fisgado por isso; falar e ouvir coisas diferentes do que já haviam me dito.

Recentemente, quando estava viajando, passei por um sebo e não senti a menor vontade de entrar. Estranhei, divaguei por um tempo… até que percebi que, na realidade, eu não precisava mais. Continuo lendo histórias — antigas, exclusivas e esgotadas — quase todos os dias, daquelas que as endereçam a mim, e por mais que às vezes visitemos lugares fedorentos e desagradáveis, há um estranho contágio que se adquire, um desejo de saber de si. E para alguns, dos outros.

A não-toda se escreve na margem

Claudia Saldanha

Psicanalista membro FCL Salvador

Entre uma vírgula e dois pontos, o filme O Livro dos Prazeres, de Marcela Lordy, e o livro Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de Clarice Lispector, são obras abertas à liberdade do desejo. Margear entre as escritas de mulheres que se Ⱥ-riscam entre a solidão e o laço causa desmarginação e (re)escritas que se abrem à não-toda, um elo entre lógica e poesia.

“Sou um monte intransponível no meu próprio caminho”

Lóri silencia e se aturde em (des)encontros sexuais fortuitos nos quais corpos a(mal)gamados tentam fazer Um. “É o cio sem desejo” que tende a se agarrar ao gozo fálico por não conseguir margear o furo da não relação sexual e temer se abismar no ab-senso do gozo Outro. Lóri só sabia estar viva através da dor. Como estar viva através do prazer?

“nada se passara dizível em palavras escritas ou faladas”

Lacan parte rumo à lituraterra, à lógica, à poesia para escrever a sexuação e a impossibilidade da relação sexual. Enuncia que a história da relação sexual gira em torno do escrito e que a psicanálise fez uso dos mitos de Totem e tabu e de Édipo para abordar a sexualidade. Analisa não ter sido indiferente partir do conto A carta roubada de Edgar Allan Poe para tratar sobre o “efeito feminizante” da carta/letra, pois o movimento da trama desvela o fracasso da escrita da relação sexual.

O que a carta/letra transmite como escrita é o não há relação sexual e, a partir de deslocamentos, alcança o destino de marcar o ab-senso e a ilegibilidade da letra, mantendo o enigma pulsante em quem se permite furar. Desse modo, leio que o efeito feminizante que aproxima a carta/letra do feminino é uma pista do laço entre a letra e a não-toda que estaria por vir.

“‘eu te amo’ era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça”

Ao afirmar que a relação sexual não se escreve, Lacan sustenta que os significantes homem e mulher são semblantes não complementares, o que desvanece a ilusão do binarismo. Para tanto, constata que a castração pode ser tratada, logicamente, como uma sexuação, desviando-se da lógica clássica aristotélica para inventar “uma nova lógica”. A não-toda entra em cena como uma discordância que abre o conjunto universal para que os elementos sejam contados singular e infinitamente, possibilitando uma escrita que marca o impasse sexual.

Para Lóri, amar é morrer, uma queda no abismo. O encontro com Ulisses é um tempo permeado de hesitações, e a palavra amor não é expressada para não reconhecerem seus contraditórios, o amódio.

“Ela e o mar”

“Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar.” Da orla da morte à orla do mar, do Rio, com o Pão de Açúcar a apreciar os fios de coragem com os quais Lóri borda um novo lugar para se reescrever.

Quando Lóri adentra o mar, “abre as águas do mundo pelo meio. [...] Depois caminha dentro da água de volta à praia [...] a proa da mulher avança [...]. E agora pisa na areia. Sabe que está brilhando de água, e sal e sol. Mesmo que o esqueça, nunca poderá perder tudo isso.” Na margem do litoral, Lóri desmargina os próprios limites e começa a se abrir à não-toda.

Ilha de Boipeba, Bahia, 2023,por Claudia Saldanha
Ilha de Boipeba, Bahia, 2023,
por Claudia Saldanha

Na leitura da paisagem siberiana, Lacan vislumbra que “entre centro e ausência”, a letra é litoral e escreve a margem do furo no saber, separando significante e gozo e unindo-os ao riscar esse encontro. A lógica (da) não-toda ravina uma cartografia poética da lituraterra e do lituramar que aprimora a geografia totêmica e edípica de Freud ao traçar uma sinuosidade móbil das margens e dos litorais.

A expressão é retomada para elaborar que o modo de presença da não-toda é “entre o centro e a ausência”. Considera como o centro a função fálica, na qual a mulher é não-toda escrita, o que implica em possuir um gozo duplo, um mais além do fálico que escapa do significante e a lança também em um gozo Outro que só é abordado pela letra. Para Lacan, a letra é A mulher, a que não existe, pois não há A mulher toda, nem toda mulher; as mulheres se contam uma a uma, o que permite dizer que a letra escreve a inexistência d’A mulher.

Assim, a ausência é escrita pela letra: a ausência da relação sexual, a do sentido e a de um significante que represente A mulher.

Por meio da letra, um grão de areia no litoral, a não-toda se escreve na margem. Margeia o abismo do ab-senso, a imensidão do mar aberto e pode se salvar da queda, pois se ancora não-toda na função fálica, conseguindo alcançar a margem de sentido da palavra. E, encore, mais, ainda, atraversa o litoral-literal, indo e vindo entre centro e ausência, entre palavra e poesia.

A margem costuma ser associada a uma ideia de limite, impedimento e separação. Pode ser o lugar onde vive a pessoa que escapa da norma, da lei; a linha que delimita até onde as letras podem ir ao serem escritas em um papel pautado; o espaço sem palavras que surge quando a frase salta para outra linha da página de um livro; a beira que contorna rios, lagos e lagoas.

A associação entre margem e mar é mais incomum, talvez porque o mar tenha litoral, ainda que a palavra margem comece a se escrever pelo mar. Com essa licença poética, tomo o litoral como uma margem para lê-la como um “entre” que não separa como um limite, e sim como uma linha móbil, sinuosa e porosa que possibilita o encontro contingente entre os diversos: areia e mar, centro e ausência, saber e gozo, fálico e furo. Uma margem que se mantém aberta e fluida às desmarginações e às invenções. Essa escrita da não-toda (La) na margem entre o centro (Φ) e a ausência [S(Ⱥ)] pode ser lida na imagem que Ⱥ-risco esboçar a partir das fórmulas da sexuação de Lacan:

“a grande liberdade de não ter modos nem formas”

Lóri “era apenas uma pequena parte de si mesma. [...] ela era o Mundo. E no entanto vivia o pouco.” De viver um estreitamento que a limitava, Lóri se expande à não-toda. “Seria uma mancha difusa de instintos, doçuras e ferocidades, uma trêmula irradiação de paz e luta” pela liberdade do desejo.

“Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão?”

O amor que é ignorância do desejo não se escreve, mas uma carta/letra de (a)muro que conta que fazer o amor é poesia, um encontro contingente entre dois saberes inconscientes que não fazem Um, pode ser escrita. Pelos fios da solidão que tecem laços, Lóri e Ulisses descobrem que amar é se furar e se posicionar na margem aberta a uma vida nova, não sem encontros com o impossível e o imprevisível. Desvelam que o furo aberto pela escrita da ausência pode ser causa em vez de abismo.

Uma criação poética

Georgina Cerquise

Psicanalista membro do FCL Rio de Janeiro

Para Lacan “a estrutura metafórica indica que é na substituição do significante pelo significante que se produz um efeito de significação, que é da poesia ou de criação, ou em outras palavras, do advento da significação em questão”. É na relação de substituição que reside o recurso criador, a força criadora”. Como recriar uma lembrança infantil, da juventude? Materializar nas palavras a memória do que já se foi? “O sentido, a palavra carrega efeitos, emociona, é rica em significações psicológicas. Acerta em cheio, no momento e nos prende por um talento que beira a criação poética. Mas há uma espécie de avesso que, por sua vez, não é forçosamente percebido de imediato: em virtude de combinações   que poderíamos estender indefinidamente, a palavra formiga com tudo o que pulula de necessidades em torno de um objeto”.

1 Lacan, Jacques. “A instância da Letra ou a razão desde de Freud no inconsciente” In: Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar.1998.p.519.

2 Lacan, Jacques. “ Fátuo Milionário”. In: O Seminário. Livro 5 As formações do Inconsciente. [1957-58] Rio de Janeiro. Jorge Zahar.1999.p.48

Casa de Helena

Georgina Cerquise

Era uma casa de janelas azuis!
Portas com caminho fácil,
Até o mar, verde profundo
Da ilha....
Era uma casa com janelas
Azuis abertas
Para o sol nascente,
Com roseiras miúdas,
Violetas e goiabeiras,
Era uma casa branca e azul,
Na sala mulheres
Com bordados, crochê, tricot,
Livros e histórias,
Fiavam, desfiavam o passado,
Antepassado,

No quintal a churrasqueira
Homens na bebedeira,
Era uma casa verdadeira que,
Acolhia a criançada,
Era a casa da Tia Helena,
Madrinha Helena,
Quando chegavam as mulheres,
As meninas, as tias e primas,
O verão anunciava,
O encontro feliz, das férias começavam,
Era uma casa de janelas azuis,
Abertas para o sol nascente,
Com portas abertas,
Caminho fácil para o mar,
Verde profundo...
Mar de Canasvieiras,
Lembranças da casa azul,
Da tia Helena,
Madrinha Helena

O que anima o fascismo?

Maria Paula Teperino

*Psicanalista membro do FCL Rio de Janeiro

Por acreditar que a Escola de Lacan é uma praça pública, onde podemos arriscar nossos próprios caminhos, um lugar de encontro, mas também de riscos, é que ouso trazer à discussão algo que me inquieta, por misturar uma posição subjetiva do sujeito a uma tomada de posição coletiva. (1).

​Nascemos desamparados, e dessa posição variamos pouco ao longo de nossa existência. A busca por um pai, faz com que busquemos entre outros, a religião ou nos entreguemos alienadamente a seguir um líder.​ Mas que mecanismo, se é que existe, faz com que sigamos por um caminho e não por outro? As dúvidas são muitas.

A motivação para essa escrita é antiga, começou em 2013 com as manifestações de rua. Porém, o ápice se deu no fatídico 8 de janeiro de 2023, onde milhares de pessoas invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília, com o objetivo de dar um golpe de estado. O que motivava tanto ódio e irracionalidade? Porque desejar a volta de um regime de exceção, tão conhecido por todos? Afinal, foram 21 anos de uma ditadura sangrenta, com marcas que somos obrigados a conviver até hoje

​Com o correr das investigações sob aquele sinistro dia 8 de janeiro, ficamos sabendo tratar de uma massa bastante heterogênea. A questão a se perguntar, é qual o traço ou os traços de identificação entre eles. Denomino como segundo tempo de um Nazifascismo, o que não só o Brasil, mas também Europa e EUA passaram a conviver a partir do início do Século XXI. A ascensão de uma extrema direita raivosa e vigorosa faz lembrar aos mais velhos os horrores de tempos não tão distantes.​

A possibilidade de estarmos nos aproximando de um reacionarismo mundial, nos lança na seguinte pergunta: Existiria um afeto predominante entre os sujeitos que compõem as massas que apregoam o fascismo? Por que uma ideologia baseada na segregação, ódio e desprezo pelo diferente, consegue angariar tantos adeptos? As reflexões que faço estão baseadas em alguns livros que me serviram de guia, são eles: “Como funciona o fascismo” de James Stanley, Ressentimento de Maria Rita Kehl, Fascismo Brasileiro de Rudá Ricci, e claro, os textos da Cultura de Freud.​

Freud nos deixa uma contribuição importante sobre a origem do fascismo, no Cap. VIII de seu atualíssimo “Psicologia das Massas e Análise do Eu. Na fascinação, diferentemente da Identificação, o Eu se empobrece, colocando o objeto no lugar de sua parte constitutiva mais importante. Neste caso, o objeto permanece conservado e, é superinvestido enquanto tal, às custas do Eu. (2).​

Como nos diz Stanley, numa sociedade fascista, “o líder da nação é análogo ao pai da família patriarcal tradicional. Ao apresentar o passado da nação como uma estrutura familiar patriarcal, a política fascista conecta a nostalgia, a uma estrutura autoritária hierárquica organizadora central, que encontra sua mais pura representação nessas normas”. (3)​

Vimos através de Freud, como o Eu se comporta com relação a fascinação. Entretanto, há algo de singular a mover esses sujeitos em direção a essa utópica sociedade fascista. Minha aposta é que esse sonho mítico, se apoie no ressentimento.​ Freud não tratou diretamente desse afeto, mas para Kehl, há traços muito semelhantes entre o ressentido e o melancólico. Sabemos que na melancolia o aparelho psíquico não é capaz de elaborar a perda. O que se perde diferentemente do luto, é o próprio Eu.​

O ressentido é aquele que na maioria das vezes foi corresponsável por seguir um caminho que mais tarde se apresentou como não satisfatório, mas credita no Outro os resultados nefastos, fruto de suas próprias escolhas. Aquele que renuncia a seu desejo, mas responsabiliza o outro por isso. (4). Como nos diz a autora em outro texto, “uma das condições centrais do ressentimento é que o sujeito estabeleça uma relação de dependência infantil com um outro, supostamente poderoso, a quem caberia protegê-lo”. Ressentimento - Maria Rita Kehl - Brasil 247

A ideologia nazifascista como sabemos, promete o retorno a um passado glorioso. Logo, em momentos de mudanças sociais radicais, de novas configurações familiares, de tentativas de inclusão dos grupos menorizados, “o sentimento atávico de busca por uma autoridade potente é naturalmente acalentado”. (5).​

Para Kehl, “o ressentimento na política se produz na interface entre a lei democrática e as práticas de dominação paternalistas. No Brasil, onde essas duas condições se combinam de maneira frequentemente perversa, os movimentos sociais oscilam entre as proposições ativas de transformações sociais e as manifestações reativas, ressentidas, que expressam insatisfação popular, mas não levam a nenhum resultado efetivo no sentido do aperfeiçoamento dos dispositivos da democracia”. (6). O ressentido não age, ele reage.

Se o fascismo, principalmente o Europeu, tem como mote o medo do imigrante, como aquele que vai tirar direitos da população local, no Brasil o medo é de um pseudo comunismo, entendido por alguns, como ter de renunciar a seus lugares de privilégios, que acreditam ser detentores por direito.​

Segundo Stanley, “na política fascista, mitos de um passado patriarcal, ameaçados pela invasão de ideais liberais, atuam para criar uma sensação de pânico frente à perda do status hierárquico, tanto para homens quanto para a capacidade do grupo dominante de proteger sua pureza e status da invasão estrangeira”. (7).​

Ora, depois de mais de 25 anos de governos sociais-democratas, finalmente, a duras penas, as ditas minorias, passaram a ter acesso às políticas públicas. Consequentemente, a chamada sensação de “pânico frente à perda do status hierárquico”, que nos diz Stanley, lançou as ruas e as redes sociais, milhões de brasileiros, primeiro elegendo Bolsonaro e logo em seu primeiro ano de governo, pedindo intervenção militar.​

Mas de que “comunismo” falam? Com certeza o que chamavam e continuam bradando como ameaça “comunista” é o medo de uma sociedade plural, menos hierarquizada, mais diversa. Como nos diz Ricci, nosso “ovo da serpente” começou a ser gestado a partir da Constituinte de 1987, mas mostrou sua cara a partir de 2013 com os movimentos de rua, depois pela Operação Lava Jato, e finalmente a chegada da extrema direita ao poder em 2018. Engana-se quem acha que somente a direita colocou esse “ovo” para chocar. A esquerda também deu sua contribuição, não conseguindo captar a revolta ainda que de forma menos barulhenta dos movimentos denominados: Comitês da Copa, iniciados a partir dos Mega Eventos Esportivos, que tiveram início em 2007. Por trás dessa “revolta” moral, existe sem dúvida, um sentimento singular que permite a identificação desses sujeitos.​

Para Nominé, a vida em sociedade nos convoca a encontrarmos um lugar, e para definir o próprio lugar na ordem simbólica, é que serve a identificação, “como um processo que se impõe porque temos de encontrar nosso lugar numa relação que não seja dual”. (8).​

Esse texto tenta entender o ódio que arrebatou e ainda arrebata milhões de brasileiros. Para terminar trago uma reflexão de Sun Tzu, em “A arte da guerra”, citado por Bernard Nominé em suas conferências de 2014/2015. “Deve-se deixar uma saída para o inimigo sitiado. Não deixem um inimigo encurralado, os animais selvagens, quando encurralados, batem-se com a coragem do desespero”.​

Sejamos sábios para com as serpentes que gestamos.

1. Fingermann, Dominique – “A (de) formação do psicanalista “– São Paulo – Ed. Escuta – (2016). Pág. 27.

2. Freud, S (1921) – “Psicologia das Massas e Análise do Eu” – Obras Incompletas de Sigmund Freud – Cultura, Sociedade, Religião – O Mal-estar na cultura e outros escritos – Belo Horizonte/São Paulo – Ed. Autêntica - 2020 – Pág. 189.

3. Stanley – J (2018) – “Como funciona o fascismo” – A política dos Nós e Eles – E&PM Editores – 7ª Edição – 2022 – pág. 22.

4. Kehl, M R – “Ressentimento” (2004) – São Paulo – Ed. Boi Tempo – 2020  - p. 16

5. Ricci, R – “Fascismo Brasileiro – E o Brasil gerou seu ovo da serpente” – Curitiba – Kotter Editorial - (2022). Pág. 178.

6. Kehl, M R – “Ressentimento” (2004) – São Paulo – Ed. Boi Tempo – 2020 - Idem, Pág. 15.

7. Stanley – J (2018) – “Como funciona o fascismo – A política dos Nós e Eles” – E&PM Editores – 7ª Edição – 2022 – pág. 27

8. Nominé, B – (2014/2015) – “Sobre identidade e identificações” – São Paulo - Ed. Blucher – 2018 – Pág. 19.

Obsessísifo

Isloany Machado

Psicanalista membro do FCL Mato Grosso do Sul

Encontrei Pedro no caminho, tirei a pedra.
Pedro pôs outra pedra no meio do caminho.
Tu me queres, Pedro? Não.
Tirei a pedra do meio do caminho, Pedro ficou.
No meio do caminho de pedras, perguntei:
Tu me queres, Pedro? Não.
No meio do caminho, Pedro.
Nunca me esquecerei dos seus olhos impressos em minhas retinas já tão fustigadas.
Tu me queres, Pedro? Não.
Pedro pôs a pedra no meio do caminho, e o galo cantou.

Escritura Freudiana do sonho uma leitura

Margarida Eugenia Campos Gomes Marques

Psicanalista membro do FCL Rio de Janeiro

“Só sei que há mistérios demais, em torno dos livros e de quem os lê e de quem os escreve; mas convindo principalmente a uns e a outros a humildade. Às vezes, quase sempre, um livro é maior que a gente”

Guimarães Rosa

O caminho desta escrita, mantem minha singularidade, atravessa o meu desejo, me permite estabelecer laços. Enquanto escrevo produzo uma escritura e “Escrever é quebrar este laço que une a palavra a mim mesmo. ” Maurice Blanchot, é o que faço agora.

Contar bem é sermos bem escutados. Chegando a ossatura da palavra, a letra me atravessa e convida a perceber o que me faço sentir com esta experiência. Sou tomada pela leitura ao reconhecer a obra Interpretação dos Sonhos (1900) como uma escritura freudiana. A palavra escritura  vem do  latim scriptūra, sinônimo de escrita, é a ação e o efeito de escrever (representar as palavras ou as ideias com letras ou outros sinais traçados em papel ou noutra superfície) se refere ao documento legal, assinado na presença ou não de testemunhas, pela(s) pessoa(s) que o validam. Quando se escreve com maiúscula inicial (Escritura), o conceito refere-se à Sagrada Escritura. Deve-se partir do texto e como Freud o faz e aconselha, como de um texto sagrado. O autor, o escriba, é apenas um escrevinhador e vem em segundo lugar. Os comentários das Escrituras ficaram irremediavelmente perdidos no dia em que se quis fazer a psicologia de Jeremias, de Isaías, inclusive, a de Jesus Cristo. Da mesma maneira quando se trata de nossos pacientes, peço-lhes que prestem mais atenção ao texto do que à psicologia do autor – é a orientação toda do meu ensino (Lacan, 1954-5/1992, pp. 195)

0 texto freudiano 'Unheimlich ' (1919) diz: É verdade que o escritor cria uma espécie de incerteza em nós, a princípio não nos deixando saber, sem dúvida propositalmente, se nos está conduzindo pelo mundo real ou por um mundo puramente fantástico, de sua própria criação. Ele tem, decerto, o direito de fazer ambas as coisas. (Freud, 1919/1976, p.288).

Freud (1913) declara textualmente: "Se pensarmos que os meios de representação nos sonhos são principalmente imagens visuais e não palavras, veremos que é ainda mais apropriado comparar os sonhos a um sistema de escrita do que a uma linguagem" (p. 212,)

Em Proposição de 09 de outubro de 1967, escutamos de Lacan: "A psicanálise tem consistência pelos textos de Freud, esse é um fato irrefutável. Sabemos que de Shakespeare a Lewis Carroll, os textos contribuem para seu espírito e seus praticantes". Esta acolhida, no entanto, é plenamente justificada. Freud se lançara em um caminho vedado à comunidade científica. Se preocupar com sonhos era para poetas e artistas, escritores. A ciência, por sua vez, saía do tratamento moral da doença mental e entrava no organicismo. Neste contexto, as preocupações e métodos de Freud eram, no mínimo, excêntricas.

O sonho como manifestação do inconsciente provoca uma proliferação de associações do sujeito oferecidas a interpretação.  Ao ter como destinatário um analista, o que busca é saber algo do enigma dos sonhos. Freud se dedica especialmente ao sonho de Irmã, o sonho responsável pela inauguração da Psicanálise, “o sonho dos sonhos” marca para Freud, a descoberta do segredo dos sonhos (Na placa: Aqui 24-07-1895, o segredo do sonho se revelou para Dr. Sigmund Freud)

Lacan (1954 -1956, p.202) se referindo a fórmula no sonho de Irmã diz:  “Tal qual um oráculo não fornece resposta alguma ao que quer que seja. Mas a própria maneira pela qual ela se enuncia, seu caráter enigmático, hermético, é justamente a resposta a questão do sentido do sonho. Pode-se calca-la na fórmula islâmica - Não há outro Deus senão Deus. Não há outra palavra, outra solução ao problema de vocês, se não a palavra. Podemos debruçar sobre a estrutura desta palavra, que aqui se apresenta sob uma forma eminentemente simbólica, já que é constituído por sinais sagrados”. Este sonho nos ensina, portanto, o seguinte – O que está em jogo na função do sonho se acha para além do ego, aquilo que no sujeito é do sujeito e não é do sujeito, isto é o inconsciente. O importante e o sonho nos mostra isto, é que os sintomas analíticos se produzem na corrente de uma fala que tenta passar” (Lacan, 1954-1956, p. 203).

O pensamento freudiano nos prende pelas amarras da sutileza afinada de sua escuta, que da identidade as palavras e a seus significantes pelo som da voz de Freud em seus escritos. Aquele que arrisca a se apresentar pelos parágrafos do texto, é em nome de Freud, colocando algo de si mesmo, sustentado pela transmissão da psicanálise e pelo inconsciente e escuta de cada um. O inconsciente é dito por Freud, como uma outra cena.

A primeira edição de A Interpretação dos Sonhos (1900) Sigmund Freud, foi lançada no final de 1899 (com data de 1900), mais de um século depois se tornou um dos livros mais influentes da época moderna, incontáveis edições em dezenas de línguas. Freud (1900) traz observações e escritas de vários pesquisadores.  No adendo de 1909, ele diz que os pesquisadores nada trouxeram de novo para ele no estudo dos sonhos. Os pesquisadores foram os que menos deram atenção, dando um exemplo perfeito da aversão de aprender algo novo, típico das pessoas científicas e completa, citando Antonele France “estudiosos não são curiosos”.

Freud chega à conclusão de que o sonho é realização disfarçada de um desejo reprimido, muitas vezes de origem infantil, pensamento que perdura com modificações em 1920. Em Interpretação Dos Sonhos (1900), estuda os mecanismos do “trabalho do sonho”. O sonho assegurou uma porta de entrada com a possibilidade de trabalho com histéricas, pesquisa e teoria da sedução. Pensamento que perdura com modificações em 1920.

Após interpretação dos Sonhos (1900), Freud inaugura o inconsciente, fazendo emergir o sujeito do desejo, como sujeito determinado pela linguagem. O sonho é com efeito a sua narrativa, uma associação livre de palavra em palavra que se dá muitas vezes não pelo conteúdo das palavras e sim por sua sonoridade, através da proximidade das imagens acústicas das palavras, nos termos da linguística, nos significantes e cenas dos sonhos.

Um sonho, palavras e texto, como tal se lê. Freud é muito preciso a este respeito, semelhanças das palavras, rebus, analogias, são algumas das expressões de Freud para dar conta de que o sonho quer dizer mais do que um texto.O sonho para Freud é o protagonista, ele concebeu como via regia ao inconsciente, na medida em que dava conta de sua descoberta central, uma mensagem cifrada, atribuindo as leis, deformação, condensação, deslocamento e censura. Tema que interroga no centro de nossa clínica, na medida em que desde de Freud até nossos dias, houve variação a respeito do lugar que é dado aos sonhos na direção da clínica.

Aquele que interpreta ocupa o lugar do leitor, não para ler os sonhos, mas para ler aquilo que eles dizem por terem sonhado. (Marotta).​

LACAN, J.  O Seminário, livro: 2 As formações do inconsciente – 1954/1955 (V. Ribeiro, trad.). Rio de Janeiro

LACAN, J. (1957-58]) O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

LACAN, J. O Seminário, livro 17: A lógica do fantasma1966/1967. Recife:  Centro de estudos Freudianos de Recife. 2017.

ROUDINESCO, E. Dicionário de Psicanalise. 1997. RJ: Zahar

FREUD, S. Interpretação dos sonhos 1900. 2020.Companhia das Letras. SP