as negritudes

Foto: Sérigo Silva
Stylete Lacaniano
Revista de Psicanálise
A Revista Stylete Lacaniano convida a comunidade de psicanalistas da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano Brasil (EPFCL-Brasil) a submeter trabalhos para o seu próximo número, que integra uma sequência de produções que celebram os 10 anos de existência da revista. Para este primeiro volume, a convocação é a de realizar um trabalho em torno de uma temática inédita e especial: as negritudes.
Se as brasilidades nos convidaram a percorrer os muitos modos de existir, criar e habitar este país, as negritudes nos convocam a escutar uma dimensão incontornável e constitutiva dessa história. Falar de negritudes é reconhecer a pluralidade de experiências, saberes, invenções e formas de resistência produzidas pela população negra, que marcaram profundamente a constituição da cultura, da linguagem, da política e dos laços sociais no Brasil e em outros territórios. Trata-se, portanto, de abrir espaço, nesta edição, para acolher a multiplicidade dessas vozes, suas produções singulares e os efeitos que produzem no campo da cultura, das artes e da psicanálise.
Nesse horizonte, a psicanálise é convocada a interrogar os efeitos subjetivos do racismo sem reduzir as negritudes a uma identidade homogênea, tampouco a um campo já sabido. Escutar essas experiências implica reconhecer os modos singulares pelos quais a racialização incide sobre o corpo, a linguagem, o desejo e o laço social, bem como as formas de invenção que daí podem emergir. Ao acolher essa pluralidade de vozes e produções, abre-se espaço para elaborações capazes de fazer avançar o debate entre clínica, cultura e transmissão.
Por isso, abordar o inominável da escravização e da violência da tortura é também um modo de não escamotear o real da luta entre vozes - em especial daquelas que foram silenciadas a ferro e fogo, abrindo campo para que bordas simbólicas sejam tecidas em torno do horror. A psicanálise, como prática do singular, ocupa-se dos modos de sofrimento e de gozo, considerando que ambos se dão em condições historicamente datadas, nas quais os sujeitos são inscritos pela ordem do significante. Portanto, esta é uma chamada e uma aposta de que ainda há muito a dizer sobre isso.
Pensar negritudes, no plural, é, portanto, apostar no registro da multiplicidade das experiências e dos dizeres dos sujeitos, tomados a partir do um a um. Se somos convocados a uma prática que esteja à altura da subjetividade de nossa época, esta temática convida a comunidade a se lançar a um trabalho de elaboração sobre um ponto fundante da estruturação de um povo: um ponto que não é simplesmente atual, mas diuturnamente atualizado.
A cor negra, as negritudes, não são um delito de cor. No entanto, a associação do negro ao animal, ao atraso e ao abjeto, retirando das pessoas negras e indígenas qualquer capacidade de relatar ou narrar sua própria existência, participa de um processo de coisificação dos corpos e das vidas. Como destacou Érico Andrade, trata-se de “tornar o corpo negro a imagem do abjeto”1. E ele acrescenta: “o Brasil que fica para trás com o avanço inexorável da modernidade é aquele que é negro, composto por povos indígenas e por não brancos de modo geral, visto que a eles e, sobretudo ao negro e ao indígena, é imputada a identidade do atraso”2.
Neste décimo aniversário de Stylete Lacaniano, as brasilidades e as negritudes comparecem como aposta de reflexão e de intersecção entre os campos da psicanálise e da arte. Como pensar as experiências raciais no Brasil? O que a psicanálise tem a ver com as negritudes e com a racialização no Brasil? Essas e muitas outras questões constituem, de certo modo, uma convocação ética à comunidade de psicanalistas e artistas: trabalhar com os resíduos, marcas, lacunas, heranças, cores, cheiros, festas e gingas da brasilidade em sua história.
Elza Soares cantou que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”3. Podemos escutar sua voz à luz da advertência de Lacan aos psicanalistas: “teremos que lidar, e sempre de maneira mais premente, com a segregação”4. Não se trata, portanto, de um tema lateral, mas de uma questão que insiste no presente e convoca a psicanálise, a arte e a cultura a responderem por aquilo que, no laço social brasileiro, permanece como marca, ferida e trabalho.
Prazo final para o envio de trabalhos:
10/09/2026
1 Andrade, E. (2023) Negritude sem identidade: sobre as narrativas singulares de pessoas negras. São Paulo, N-1 edições, pg. 73.
2 Idem, pg. 78.
3 A Carne, canção composta em 1998 por Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti. A canção foi regravada em 2002, por Elza Soares, no álbum Do Cóccix até o Pescoço.
4 Lacan, J. (1968) “Alocução sobre as psicoses da criança”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003, pg. 360.
Normas de submissão
1. Sobre a Revista
Stylete Lacaniano é uma revista eletrônica que traz como proposta central a articulação entre as artes e a psicanálise, a partir da publicação de trabalhos que desdobrem essa relação com a clínica, o laço com outras éticas e discursos, bem como as urgências da atualidade. Aposta na poesia, teatro, música, cinema, fotografia, artes visuais, arte têxtil, performance, grafite, cartas, escritos e manuscritos como via de trabalho. São recebidos trabalhos dos psicanalistas da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil ( EPFCL-Brasil) e de artistas convidados.
2. Condições Gerais
• As contribuições devem ser originais e inéditas.
• A seleção dos trabalhos enviados será feita pelo conselho editorial.
• O autor é responsável pela autoria, direitos de imagem e uso de obras de terceiros.
• A submissão é gratuita e não implica qualquer taxa de publicação.
3. Formatos Aceitos
3.1. Escritos
• Extensão sugerida: até 4.000 caracteres com espaços.
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→ Fonte Times New Roman ou Arial, tamanho 12, espaçamento 1,5.
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• As referências e notas, quando necessárias, devem vir ao fim do texto, e não da página. Devem estar na seguinte ordem: autor (sobrenome e nome), livro em itálico (ou artigo entre aspas seguido do livro em itálico), cidade, editora, ano da edição, número da página.
3.2. Vídeos, fotografias ou experimentos sonoros
• Os vídeos devem ter a duração de 3 a 5 minutos em formato .mp4 ou .mov.
• Fotografias: até 10 imagens, em .jpg ou .png em alta resolução (mínimo 1500px de largura), com legendas e créditos.
• Experimentos sonoros: devem ter a duração de 3 a 5 minutos em formato .mp3.
• Vídeos, fotografias e experimentos sonoros devem vir acompanhados de carta de autorização de uso de imagem e exibição pública.
• Vídeos, fotografias e experimentos sonoros devem vir acompanhados de breve texto (até 1.000 caracteres com espaço) contextualizando a obra.
3.3. Textos híbridos (escrito, imagem, vídeos e experimentos sonoros)
• Escritos, vídeos, fotografias e experimentos sonoros devem vir acompanhados de breve texto (até 1.000 caracteres com espaço) contextualizando a obra.
4. Direitos Autorais e Ética
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5. Submissão
Envios devem ser feitos para: styletelacaniano@gmail.com, contendo:
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