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Obra: Natali Tubenchlak

Obra: Natali Tubenchlak

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A maior riqueza do homem é a sua incompletude
Nesse ponto sou abastado
Palavras que me aceitam como sou
– eu não aceito
Não aguento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra o pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros
Eu penso renovar o homem usando borboletas

(Manoel de Barros – poema de Retrato do artista quando coisa)

Editorial

Para não sucumbir é preciso transgredir.

Os trabalhos reunidos neste número da Revista Stylete são potentes e impactantes pela força e beleza da poesia que carregam e o convite à transgressão. Alexandre Marzullo nos surpreende com a sua tradução do soneto de Lacan, Hiatus Irrationnalis ou Panta Rei, escrito em 1929. Mais do que uma tradução literal o autor brinca com as palavras e as rimas que se enredam em filosofia e psicanálise. Como ele diz, diante da razão, trata-se da descoberta de um lugar onde não se pensa... Bárbara Guatimosim e Ricardo Augusto Souza nos tiram do lugar. Em Traumatismo, corpo e segregação: o trabalho com a imagem de Peter chicoteado, os autores trazem esta imagem e suas marcas/queloides que são traumatizantes. Ao mesmo tempo, quanta subversão e força para crermos que é possível transgredir e não sucumbir. Ou melhor, para não sucumbir é preciso transgredir.

Em Condansação, Miriam Ximenes Pinho-Fuse entrelaça criativamente a ideia de Poesia em Ezra Pound à condensação como estrutura do sonho em Freud, destacando que este fez da condensação – e do deslocamento – ‘os dois mestres artesãos’ do funcionamento inconsciente.

Tallita Araújo Vieira Barros parece nos levar a um repente entre a sustentação de um cartel – ou sua queda – e a dissolução da Escola de Lacan, decidindo perseverar e, assim como Lacan, diante do aparente fracasso, reforça é por isso que dissolvo. Esta é a reflexão em Sobre transferência de trabalho ou quando o cartel caiu.

O Outro sou eu? Diz-me com quem andas que te direi quem és... é a poesia de Vanisa Moret Santos advertindo que o Outro é o diretor da cena, é o próprio inconsciente que opera nas nossas escolhas. A par disso podemos reconhecer melhor os mecanismos que compõem nossas escolhas inconscientes para podermos mudar o rumo dessa história escrita em nós e por nós.

A galeria de arte deste número apresenta belos trabalhos da artista plástica niteroiense, Natali Tubenchlak, fundadora do “Barracão Maravilha – Arte Contemporânea”. Seus trabalhos se constituem de uma pegada ecofeminista e pornopolítica, provocando no espectador um deslocamento da sua zona de conforto.

Kátia Sento Sé Mello

Psicanalista membro FCL Rio de Janeiro

Hiatus Irrationnalis
(Panta Rei)

Jacques Lacan, 1929
Tradução Alexandre Marzullo

Psicanalista membro FCL Rio de Janeiro

Choses que coule en vous la sueur ou la sève,
Formes, que vous naissiez de la forge ou du sang,
Votre torrent n’est pas plus dense que mon rêve,
Et si je ne vous bats d’un désir incessant,

Je traverse votre eau, je tombe vers la grève
Où m’attire le poids de mon démon pensant;
Seul il heurte au sol dur sur quoi l’être s’élève,
Le mal aveugle et sourd, le dieu privé de sens.

Mais, sitôt que tout verbe a péri dans ma gorge,
Choses qui jaillissez du sang ou de la forge,
Nature, je me perds au flux d’un élément:

Celui qui couve en moi, le même vous soulève,
Formes que coule en vous la sueur ou la sève,
C’est le feu qui me fait votre immortel amant.

***

Coisas que correm à tua seiva ou suor,
Formas que à forja ou sangue nascem em ti,
Tua tormenta é menos densa que meu sonho,
E se não te abate meu desejo incessante,

Tua água atravesso, e desabo em tua sebe
Sob o empuxo de meu demônio pensante;
Só, no piso duro sobre o qual a letra s’eleva,
O mal cego e surdo, o deus que nada sabe.

Mas se todo verbo à minha glote se exangue,
Coisas que à forja ou sangue nascem em ti,
Natureza - perco-me num fluxo radiante:

Aquilo que se acova em mim, a ti soergue;
Formas que à tua seiva ou suor ascendem,
É o fogo que me faz teu imortal amante.


Há uma intrincada rede de alusões filosóficas envolvendo o soneto do jovem Jacques Lacan. Escrito em 1929, o poema foi inicialmente nomeado “Panta Rei” (“tudo flui”), título que alude à filosofia de Heráclito de Éfeso (séc V a.C.), e que reforça a imagem de fluxo que o leitor encontra em seus versos. Eventualmente, o soneto foi publicado em 1933 na revista surrealista Cahiers d’Art, sendo rebatizado como “Hiatus Irrationnalis” (“hiato irracional”), título que por sua vez também tem matriz filosófica: hiatus irrationnalis é uma expressão oriunda da filosofia idealista de Fichte (1804), e designa a evidência de um “abismo transcendental” entre as condições de inteligibilidade da razão e a experiência da contingencialidade fática do sujeito1: uma espécie de vão intrespassável entre pensamento e realidade. Significa dizer: diante da razão, trata-se da descoberta de um lugar onde não se pensa; logo, um lugar onde não se concebe consciência. A possibilidade de uma correlação, sutil ou explícita, entre o “Hiatus Irrationnalis” de Fichte e o Inconsciente na psicanálise lacaniana já foi sugerida por autores como Ingrid Porto de Figueiredo e Christian Dunker.2

A respeito da tradução que ofereço, o leitor poderá notar que não se trata de uma tradução pautada unicamente pela transposição semântica. Antes, posicionando-me mais próximo de uma “transcriação” a la Haroldo de Campos, objetivei uma tradução preocupada com a literalidade da letra3 poética no original, no sentido mesmo em que Antoine Berman, filósofo e pensador da tradução, propõe para o termo. Para Berman (um rigoroso leitor de Lacan, aliás) a “letra” de um texto é o efeito do jogo de significantes que foram ali dispostos, tal qual formalmente reunidos, conjugados e apresentados pelo seu autor (Cf.  A tradução e a letra ou o albergue do longínquo, 2012, p. 21). De tal modo, para a consideração da “letra” de um texto, para sua elucidação, temos que observar os significantes que ali a evocam, na totalidade de seu impacto semântico, linguístico, poético, estético. Qual seja: a letra de um texto é a resultante, ou o efeito, das possibilidades de relacionamento entre seus significantes.

A partir daí, podemos compreender como o tradutor procede na angústia de seu ato (tradutório) em busca da letra, ingressando em um ir-e-vir circulante, reflexivo, insistente diante do texto original: ele observa, analisa, interpreta o texto, e então reconsidera; procura captar - e capturar -, no texto, pelo texto, e para o texto, o jogo fonético, rítmico e semântico oferecido pelo longínquo autor em seu trabalho de linguagem originário.

Na mesma toada, podemos compreender também que o sentido do texto a ser traduzido - o paradigma de toda tradução convencional - é apenas, na realidade, uma parte de sua experiência. E se o sentido não pode ser abandonado, é apenas porque aferra-se, obstinadamente, àquilo que em seu conjunto produz; isto é, “a tradução descobre [...] que letra e sentido são, ao mesmo tempo, dissociáveis e indissociáveis” (Berman, 2012, p. 55). Razão pela qual Antoine Berman cunhou o axioma de que “traduzir é traduzir-a-letra”, um axioma ao qual alinho-me, à minha própria maneira.4

Para traduzir o soneto do jovem Lacan, abdiquei da métrica fixa e das rimas alternadas. No entanto, busquei manter a sonoridade dos versos, aproximando os vocábulos franceses aos portugueses sempre que possível, criando um jogo toante e especular com o original. Esse jogo, melhor experimentado pela declamação do poema do que por sua leitura silenciosa, se torna (pela declamação) um claro índice de uma das imagens mais enfáticas utilizadas pelo poeta Lacan em seu poema: a ideia de fluxo. Com isto, quero dizer que o leitor se vê caudalosamente guiado pelo som e pelas imagens evocadas pelo poema até o destino fatal do texto: a descoberta do fogo no último verso, fogo que celebra o protagonista lírico do poema como imortal amante.

Para efetivar tal situação em minha tradução, por quatro vezes tomei escolhas assumidamente heterodoxas em relação ao original, mas unicamente para preservar sua violência, sua estrangeiridade à recepção (tanto em língua francesa, quanto enquanto tradução). Gostaria de comentá-las a seguir.

1) No verso 3 da primeira estrofe, traduzi torrent por “tormenta”, ignorando a possibilidade mais evidente de tradução (“torrente”). Primeiro, porque em língua portuguesa “tormenta” me parece mais sugestivo de uma violência pluvial ou aquática, tal como a construção do verso lacaniano parece apontar; e depois porque sua tonicidade silábica, em comparação com a palavra “torrente”, comunica-se melhor com os vocábulos seguintes (talvez seja sutil a diferença, mas ainda assim persista; como via de prova, peço que o leitor declame em voz alta: “sua tormenta é menos densa”, e compare com a alternativa “sua torrente é menos densa”, considerando a enunciação das vogais);

2) A segunda alteração é certamente a mais radical: no verso 7, segunda estrofe, traduzi l’être (“ser”) pelo quase homônimo (em língua portuguesa) letra, sabendo perfeitamente que a tradução adequada não é essa. Mas considero justificada minha opção pelo fato de que o sentido do verso não está alterado; muito pelo contrário, sua tessitura metafísica permanece a mesma, e aliás é até mesmo reforçada pelo vocábulo “letra”, pois o poema, de fato, sugere uma dimensão de linguagem entre o psiquismo e a ontologia (vide a estrofe 3), entre o lirismo romântico (e uma ideia de sujeito impelido à ação) e uma ideia espinosista de saber (vide a palavra, que grifei propositadamente, “natureza”). Ademais, utilizar “letra”, ao invés de “ser”, não somente faz um reforço, mais uma vez, à “violência” da escrita no original (em seu empuxo, ao mesmo tempo incendiário e fluvial, à existência) como tem também a serendipidade de comunicar-se com o famoso conceito de “letra” no posterior ensino lacaniano. E aqui, se cometo um delito à tradução filológica, o faço amparado no entendimento de que o poema, como num sonho, conjuga temporalidades, e fala mais alto do que o saber de seu autor. Ora, por acaso competiria a mim impedir a prevalência do poema e de seus saberes sobre o fato histórico, até onde o alcanço? Julgo que não: não cabe a mim impedir ou delimitar o saber poético que vislumbro; compete-me unicamente ouvi-lo, testemunhá-lo e situá-lo, por ética, no campo que ele me pede: no próprio poético que inaugura.

3) Outra alteração dramática: no verso 11, terceira estrofe, inseri a palavra radiante, preferindo-a ao invés do vocábulo “elemento” que substituiria mais literalmente (semanticamente falando) a imagem relativamente fraca e anódina de expressão francesa “d’un élément”. Mas ocorre que o qualificativo “radiante”, adjetivando o substantivo “fluxo”, comunica-se de modo inteiramente eloquente com a imagem do fogo que fecha o soneto (comunicação já pretendida, ressalte-se, com a ideia de um elemental na língua francesa). E conjuga-se, contextual e foneticamente, com a palavra “amante”, último vocábulo do texto, tanto no original quanto na tradução.

4) E por fim, na última estrofe, uma situação dupla: “soergue” e “ascendem” traduzem as palavras “soulève” e “coule”. A relação entre “soergue” e “soulève” (“levanta”, literalmente) é sonora e silabicamente proporcional entre si, e também não há grandes danos semânticos, muito pelo contrário: fica preservado o sentido no contexto pretendido. Mas menos corriqueira é a relação entre “ascendem” e “coule” (“correm”). Cabe no entanto perguntar: de que “correr” se trata? Ou ainda: que “coule” é esse? No verso anterior, vimos que há algo no íntimo da interlocutora do poeta, e esse algo, compartilhado pelo protagonista lírico do soneto, (se) levanta. Ou seja: esse “correr” das formas é um “correr” que está “levantado”, ou seja, que está “soerguido” por aquilo mesmo que queima e flui no íntimo do protagonista e de sua interlocutora: são formas que sobem, via seiva ou suor, donde a escolha pela palavra “ascende”, como em uma “ascese”, mas jogando, claro, com a homofonia de “acende”, acendendo o obscuro do poema. O que perco em rimas, ganho em ênfase (soerguer; ascender). E é assim que, enquanto o poema ascende, o leitor descende até seu final: é o fogo que me faz teu imortal amante.

Aqui encerro meu texto. Sobre as demais alterações que cometi, menos incisivas, tal como num prefácio de Cervantes, “deixo-as à sagacidade do leitor e ao seu bom ou mau julgamento”. Para uma tradução do soneto lacaniano em língua portuguesa, sob outra perspectiva tradutiva, mais amparada na métrica fixa e na disposição formal do soneto, remeto à realizada pelo também psicanalista e tradutor Paulo Sergio de Souza Jr., publicada em seu site Derivas Analíticas: (Link). Caso seja uma opção para o leitor, há uma tradução em língua italiana mais próxima às minhas escolhas (embora eu não a tenha conhecido senão após realizar minha própria tradução do soneto); está no sucinto artigo (em italiano): (Link)

1. Faço remissão ao interessante e recente artigo de G. Anthony Bruno (2021) sobre a recepção do conceito de Fichte na Alemanha pré-heideggeriana: Hiatus Irrationalis: Lask's Fateful Misreading of Fichte. In: European Journal of Philosophy, 1–19. (Link)

2. Cf. Ingrid Porto de Figueiredo, A verdade e a interpretação poética na psicanálise lacaniana. In: Stylus: Revista de Psicanálise Rio de Janeiro, n. 37, pp. 67-79, dezembro de 2018; Christian Ingo Lenz Dunker, Instância da Letra no Inconsciente ou a Razão desde Freud: uma hipótese de leitura – São Paulo: Instituto Langage, 2019.

3. A literalidade da letra não deve ser confundida com a literalidade semântica de um texto. Nas palavras de Berman, “traduzir não é buscar equivalências [semânticas].

4. Atentemos ao fato de que esse pensamento sobre tradução abre uma ferida profunda na ideia de uma Verdade universal. Ora, a ideia de Verdade subjaz, maliciosa, no privilégio que se oferece, via de regra, a um texto original em relação à sua tradução. Não alinho-me a essa perspectiva; ressalto a primazia da traduzibilidade. Não se trata, com isso, de negar a possibilidade de uma verdade, ou de um saber, mas sim de situá-lo dentro de sua própria inteligibilidade, o que não é possível sem a experiência de uma alteridade. Isso é o que chamo de tradução, pura e simplesmente: a inauguração de um saber com efeito de verdade. Notadamente, nos termos em que coloco o conceito, não há tradução sem poesia, bem como não há tradução sem pensamento, e vice-versa.

O outro sou eu?
Diz-me com quem andas que te direi quem és…

Vanisa Moret Santos

Psicanalista membro FCL Rio de Janeiro

Que verdades sobre nossas escolhas inconscientes esses ditos comportam?

Não somente é preciso nos havermos com o fato de que as pessoas com quem escolhemos conviver é uma escolha de nossa responsabilidade como é preciso reconhecer que só escolhemos tais atores porque eles se engancham em nossas idealizações e cristalizações sintomáticas.

Escolhemos a dedo os atores que melhor consigam representar as cenas que compõem nossas fantasias inconscientes alinhadas a nossos sintomas. Aliás, é justamente por conta da satisfação das pulsões destrutivas que fazem parte desse complexo fantasmático, que é esperado que tais atores performatizem cenas em que o sujeito se sinta humilhado, culpabilizado e que o façam sofrer. Eventualmente, as ações se invertem e o humilhado passa a ser o algoz e assim seguem os intérpretes das cenas, num troca-troca de papéis.

Durante o processo de cura ativa pela reescrita do texto que vai se modificando ao longo de uma análise, conseguimos revisitar e até refazer nossas escolhas, atribuindo aos atores novas funções e papéis.

É importante sabermos que o Outro é nosso próprio inconsciente e que ele opera em nós como um diretor de cena. Sabendo disso, podemos reconhecer melhor os mecanismos que compõem nossas escolhas inconscientes para podermos mudar o rumo dessa história escrita em nós e por nós. Com a revisão dessa escrita em curso, será preciso mudar os personagens, ou designar-lhes novos papéis.

Parece cruel, mas é preciso nos havermos com o sofrimento de que nos queixamos cuja responsabilidade atribuímos aos outros, ou melhor, aos personagens que nós mesmos criamos. Reconhecer isso, talvez nos liberte para enxergarmos que nossos algozes somos nós mesmos. E isso acontece todas as vezes em que algo de nossas verdades particulares escapa. Se resolvemos retirar um personagem da história, ou designar-lhe um novo papel, é porque algo em nossa economia libidinal mudou e aquele personagem ou aquela cena já não faz mais sentido, mas nada garante que tal mudança acontecerá para o “bem” de todos.

Livrar-nos do peso de não sermos nós mesmos pode nos tornar mais solitários e silenciosos, porém mais leves, mais bem acompanhados, melhores leitores e até escritores mais precisos. Saber escolher com quem queremos contracenar o poema que nos tornarmos é um exercício ético diário.

Vanisa Moret Santos e poeta, escritora, psicanalista membro do Fórum de Psicanálise da Escola do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro, professora do Curso de Especialização em Psicologia Clínica da PUC-RJ, mulher, mãe, dona de casa, autora do livro, Mães faltosas crônicas e outras histórias, lançado pela Editora Atos & Divãs em 2021, colunista do Jornal Tribuna de Petrópolis online, membro da Academia Brasileira de Poesia

Traumatismo, corpo e segregação: o trabalho com a imagem de Peter chicoteado

Bárbara Guatimosim

Psicanalista membro do FCL Belo Horizonte

Ricardo Augusto de Souza

Psicanalista membro do FCL Belo Horizonte

“Nosso futuro de mercados comuns encontrará sua balança em uma extensão cada vez mais dura dos processos de segregação.”1

Jacques Lacan

O corpo de quem vem ao mundo sofre no encontro com o Outro marcas traumáticas: a marca da linguagem, marcas do desejo e do gozo do berço que o recebe. Desse encontro alienante nasce o ser falante, doravante votado a se parir constituindo assim seu desejo, seu gozo e seu dizer próprios. Separar-se é fazer nascer o sujeito em sua diferença. Se este devir ético é desconsiderado vemos surgir as várias formas de segregação, preconceitos e racismos que fazem da diferença algo a ser expulso, eliminado, escravizado, violentado.

O campo da separação e o campo da segregação são campos distintos, mas, por vezes, e em nome do poder, podem se misturar. Mas ao convocar o discurso analítico e seu ato visamos operar a distinção no campo que ameaça fazer das diferenças alvo da mais cruel e absurda violência.

Em torno da articulação dessas tensões entre campos, entre dimensões conceituais e discursivas, encontramos uma imagem que nos atingiu com um impacto que trouxe a certeza daquilo que não engana: (Whipped Peter- 1863)

Foto: Peter chicoteado
Foto: Peter chicoteado

Entre os séculos XVI e XIX, o continente americano testemunhou a materialização coletiva dos discursos de segregação levada ao paroxismo.​ Da heteronomia imposta às populações africanas à anomia que manteve o tráfico de pessoas escravizadas, no Brasil, à despeito de acordos para inglês ver, são séculos que deixam nefasto legado. Deixam marcas indeléveis. Marcas em corpos personificados, assim como no corpo social.​

A imagem, cuja recepção para alguns é causa de mal-estar que lhes impõe a resposta do desvio do olhar, diz disso. Mas, sendo um objeto semiótico, portanto entrelaçado ao linguageiro, guarda em si, a vicissitude de dizer mais, ao mesmo tempo em que encerra desde sempre a impossibilidade de dizer tudo.​ Revisitemos a imagem, então.​

Do ponto de vista histórico (o studium): estamos em plena guerra da secessão, a devastadora guerra civil estadunidense. Uma conflagração fratricida, na qual o S1 era precisamente a “abolição” a instaurar a cadeia de cacofonia discursiva dos mandatários.​ O sujeito, que na fotografia recebeu o pseudônimo de Peter, fora um afro-americano escravizado. Ele vivera em uma plantação de algodão no estado da Louisiana e, lá, além da indignidade da escravidão, sobreviveu à brutalidade e desumanidade do açoite. Ele escapou do cativeiro em março de 1863.​

O nome do sujeito que fez a escolha de uma travessia em fuga pela liberdade do cativeiro, e em busca da condição, para muitos de nós tão fundamental que perdida em amnésia, do direito de ocupar-se de seu próprio corpo, era Gordon. Travessia esta não menos brutal do que as violências que sofrera na plantação, segundo o que trazem alguns relatos de sua história.​

O caminho para alhures, a jornada para um outro lugar, qualquer lugar, fora também a luta pela sobrevivência à perseguição dos caçadores de escravos. Caminhada e corrida, a pé e descalço, por pântanos e atravessando riachos. Para mascarar o seu cheiro dos cães de caça que o perseguiam, Gordon pegara cebolas da sua plantação, que ele carregava nos bolsos. Depois de cruzar cada riacho ou pântano, ele esfregava seu corpo com cebolas para afastar seu cheiro dos cães. Ele fugiu ao longo de 10 dias ganhando liberdade quando chegou a um acampamento no qual se alistou como soldado no exército antiescravagista. Submetido a um exame médico, Gordon relata o que vivera e, alçando o ato à palavra, despe-se e posa para uma câmera.​

Seu ato não foi revelação de algo desconhecido dos outros negros naquele acampamento. Porém, desse ato houve a emergência de uma marca, de uma mobilização e da ressignificação de uma posição política antiescravagista, pelo reconhecimento da população do norte estadunidense do horror na fotografia que viria a ganhar ampla circulação.​ Um sujeito que se despe e, posando a uma foto, fala. Discurso e ato, efetivamente trazendo-o a um outro lugar. Lugar de fala e de justa acusação. Foto denúncia, tal como testemunhou o cirurgião do Primeiro Regimento da Louisiana, em carta para seu irmão na cidade que incluiu a fotografia. Ele escreveu:

"Envio-lhe a fotografia de um escravo como ele aparece após um chicoteamento. Tenho visto, durante o período em que estive inspecionando homens para meu próprio e outros regimentos, ‘centenas de tais visões’ — de modo que elas não são novas para mim; mas pode ser novidade para vocês. Se souber de alguém que fale da ‘maneira humana’ em que os escravos são tratados, mostre-lhes por favor esta fotografia. É uma palestra em si."2​ Um imagem que, passado um século e meio, continua produzindo efeitos.​

Com Barthes: "A fotografia sempre traz consigo seu referente."3 Não foi possível evitar Roland Barthes em sua "Câmera clara". Qual punctum nos fere ou nos abala nessa fotografia? O que nos anima? Que trabalho impõe? Nossa atenção está no objeto chicoteado ou no sujeito que aí se revela?  Ou seria em ambos?​

Aconteceu que um corpo negro e torturado nos tomou em trauma e pôde dizer da segregação, da involução da civilização, para além da condição escravizada do sujeito. Mas há algo mais que surpreende e que a escuta psicanalítica visa e privilegia, pois visar o desejo é quase um vício da escuta psicanalítica: sua força visível, e uma detalhe importante, que não provém do porte físico, mas que se dá a ver na dignidade da postura, a tomada de uma posição: uma decisão política (um desejo) de sobreviver, de viver. Estamos todos de alguma forma com Peter, nessa imagem.​

Com Achille Mbembee, na esteira de Deleuze: "O devir negro do mundo"4 o filósofo sul africano (autor também da Necropolítica) abre com seu livro, "A Crítica da razão negra", a possibilidade de ampliarmos a condição negra, de modo paradigmático, às diferenças que caem na marginalidade e na subalternalidade a partir das ações e pensamentos normalizantes e universalisantes de todo discurso que colonializa, de todo discurso que se quer dominante.5 " Lembrando com Lacan: "O racismo é um discurso em ação".6

Olhando a foto com a psicanálise, não é um corpo dilacerado. Vemos que a força do corpo falante se estende à cicatrização inequívoca do queloide, aquela que não deixa feridas abertas. Essa escrita na pele é aqui o contrário de uma tatuagem: é ela que nos marca, tatua, é ela que nos fere em sua saliência. A carne escrita em relevo grita o que aconteceu... mas fecha o corpo.​

Por fim, diante dessa foto ficamos como Freud frente à estátua de Moisés de Miguelângelo, na qual viu um cálculo da ação ou posição a partir das tensões envolvidas, desde um horizonte de um desejo. Sabemos, Peter está sentado, mas prepara-se para levantar-se energicamente e agir. Se ele se permitir a loucura da explosão e se negar ao laço social, ao discurso, ele vai sucumbir, vai morrer. E é este o devir ético – um devir subversivo – a sustentação de um desejo enlaçado à diferença do outro, em última análise, que nos interessa - devir comunidade.​

Estamos com Peter nessa imagem, sustentando, dia após dia, o discurso analítico. Para além do espelho, esse tempo estrutural, do qual nasce também o narcisismo, o racismo estrutural, no qual também se apoia a ideologia, a superestrutura que o mantém. Para além do narcisismo, povos originários, afrodescendentes, imigrantes, brancos, pardos, amarelos, vermelhos: misturados como latino-americanos que somos, trabalhadores inaposentáveis, juntos, mesmo sendo “por demais desiguais”7: porque nosso tempo exige um amor menos discreto, porque estamos diante dos que se denominam onipotentes e infalíveis: os imbrocháveis.

Referências bibliográficas:

BARTHES, Roland. A Câmara clara. Lisboa: Ed.70, 1981.
LACAN. Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
LACAN. Jacques. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
The liberator : by Garrison, William Lloyd, 1805-1879 ,Yerrinton, James Brown, 1800-1866: Free Download, Borrow, and Streaming : Internet Archive. Acessado em 27/04/2024.
MBEMBE. Achille. Crítica da razão negra. Lisboa: Ed. Antígona, 2014.
Dossier A leitura de Achille Mbembe no Brasil. Leitura de PELBART. Peter Pál.  In Revista Cult , Editora Bregantini nº 240. Novembro/2018.

1. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In Outros escritos, p. 263.
2. «Picture of a Slave». The Liberator. Boston, Massachusetts. 12 de junho de 1863. p. 2. Indicamos a exploração dessa história feita recentemente pelo filme “Emancipation” (2022), dirigido por Will Smith.
3. BARTHES, Roland. A câmara Clara, p. 15.
4. Introdução de seu livro Crítica da razão negra, (2014).
5. " a condição subalterna reservada aos negros, pouco a pouco, se amplia e aponta para o devir-negro do mundo. Uma crítica da razão negra se faz, portanto, necessária, pois o neoliberalismo, como face atual e devastadora do capitalismo, produz desempregados, indivíduos descartáveis, favelados, refugiados, imigrantes… toda uma horda de seres matáveis, expostos à morte. E, nesse recorte, Peter Pál Pelbart destaca o que deve ser exaustivamente relembrado: a política de extermínio revela a sobrevivência da matriz colonial no contexto contemporâneo e, em especial, no Brasil dos dias atuais".  Peter Pál Pelbart. In Revista Cult, nº 240.
6. LACAN, Jacques, O aturdito (1972). In Outros Escritos, p. 463.
7. LACAN, Jacques. A Agressividade em psicanálise (1948). In Escritos p. 126.

Sobre transferência de trabalho ou quando o cartel caiu1

Tallita Araújo Vieira Barros

Psicanalista membro do FCL Fortaleza

Meu primeiro contato com cartel foi numa Jornada de Carteis do Fórum do Campo Lacaniano de Fortaleza. Fui fisgada por esse dispositivo e foi com ele que consegui seguir o “pé teórico” do tripé da formação, quando propus um cartel pelo Fórum de Fortaleza. Uma experiência que marcou meu caminho e abriu as portas para a carta de intenções e o pedido para ser membro desse lugar.​

O primeiro cartel acabou antes do prazo acordado e apesar do susto e uma certa frustração, eu já experimentava os efeitos do trabalho daquele dispositivo antes do fim. Através dos textos e mais ainda nos desafios enfrentados para o cartel continuar apontando para uma transferência de trabalho, algo decolou, descolou e impulsionou o meu percurso.​

Aí me lancei no segundo, no terceiro, no quarto cartel... até que um deles me fez estranhar o mal-estar que eu vivenciava a cada encontro, a cada pós encontro, depois de alguns meses do início. O tema desse cartel era Identificação e teve início em setembro de 2019. Éramos 4 + 1, a “justa medida”. Cinco colegas que se colocavam como decididos, dispostos ao trabalho.​

Fomos por Freud, na Psicologia das massas e análise do Eu, depois no texto D’ecolage, de Lacan; até que decidimos entrar no Seminário da Identificação. Da impossibilidade de continuarmos no Seminário 9, recorremos para textos de comentadores, numa divergência importante de qual caminho seguir. Por fim, continuamos com o texto de Izcovich, “A escolha das identificações”.

Começamos antes da pandemia, então tivemos encontros presenciais com dia e horário pré-estabelecido desde antes do início do cartel e depois passamos para o virtual. Uma cartelizante começou a trabalhar no momento do cartel e mudamos nossa agenda. Os horários ficaram mais difíceis, a presença de todos também. Levamos a questão para discutir e nos interrogamos se a dificuldade tinha relação com o texto. Seguimos. Por fim, estávamos nos encontrando on-line, tarde da noite, com um cansaço que todos expressavam. Mas reiteramos a decisão em continuar. Inclusive eu, pois ainda não era possível admitir para mim, com toda transferência pelo dispositivo do cartel, que queria sair dele.​

Chegamos em janeiro de 2021, dezesseis meses de trabalho, quando a-final eu não queria mais saber de Identificação! Só de Escolha. E, finalmente, informei aos colegas sobre a minha saída. A consequência imediata foi o desenlaçamento do cartel que, como um nó borromeano, não poderia continuar se alguém saísse. Três colegas receberam bem a minha escolha e um ficou muito irritado. Não aceitava o fim do cartel. Recebeu a minha saída como algo que iria impedir o trabalho que ele tinha se planejado. Fiquei embaraçada, constrangida com aquela expressão de raiva, efeito de uma decisão minha. Também senti alívio. Imenso. Mas aquela cena do colega com raiva por eu ter saído me fez questão.​

Sei que é algo do outro, mas tocou em algo meu. Talvez em comum. Havia uma expectativa de um trabalho com o cartel? O efeito é maior quando o cartel se conclui nos dois anos do que quando dissolve antes? Então retorno ao dispositivo base da Escola Lacaniana. É preciso haver um trabalho fruto dessa experiência, qualquer que tenha sido ela. “Nenhum progresso é esperado senão o de uma exposição periódica a céu aberto dos resultados assim como das crises do trabalho.” (Lacan, 1980b).​

Sustentar um cartel pela via do imaginário, sem transferência de trabalho pelo tema é contramão do que propõe Lacan para sua Escola, assim como para o dispositivo. O cartel precisou cair! Foi preciso o ato para a dissolução (Lacan, 1980a). Qual a diferença da dissolução da Escola de Lacan por ele mesmo, em 1980, para uma dissolução de um cartel quando um membro decide que não há ali mais a possibilidade de trabalho?​

“Decido-me porque se não me intrometesse ela funcionaria na contramão daquilo para qual fundei (...). É por isso que dissolvo. E não me queixo dos chamados “membros da Escola Freudiana” – antes lhes agradeço, por haver ensinado onde fracassei – quer dizer, me atrapalhei. Esse ensinamento é precioso para mim. Eu o aproveito. Dizendo de outra maneira, eu persevero (je persévère).” (Lacan, 1980a)​

Foi preciso questionar o cartel, aceitar sua queda para, fazendo esse texto, me dar conta do meu fracasso. Experimento a importância da publicização dos trabalhos, da Jornada de Cartéis, para que cada um possa se haver com as próprias experiências de trabalho no cartel. E aproveitar.

REFERÊNCIAS
IZCOVICH, Luis. A escolha das identificações 2011-2012. Caderno de Stylus n 4. Rio de Janeiro: AFCL, 2016.
LACAN, J. (1980a). Carta de dissolução. Revista da Letra Freudiana: Escola, Psicanálise e Transmissão, Documentos para uma Escola, ano I, n. 0, Rio de Janeiro, s/d.
________(1980b). D'Écolage. Revista da Letra Freudiana: Escola, Psicanálise e Transmissão, Documentos para uma Escola, ano I, n. 0, Rio de Janeiro, s/d.
________(1967-68). O Seminário, livro XV, O ato psicanalítico.
________(1962/63) O Seminário, livro X, A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.
LINS, Tatiana  e  RUDGE, Ana Maria.Ingresso do conceito de passagem ao ato na teoria psicanalítica. Trivium [online]. 2012, vol.4, n.2, pp. 12-23. ISSN 2176-

CONDANSAÇÃO

Miriam Ximenes Pinho-Fuse

Psicanalista membro do FCL São Paulo

Poesia é, nas palavras de Ezra Pound, a forma de expressão verbal mais condensada que existe. Condensar é concentrar, saturar, aglutinar. Freud fez da condensação - e do deslocamento - “os dois mestres artesãos” do funcionamento inconsciente. Aliás, na língua de Freud, a palavra Verdichtung [condensação] tem a graça de ser habitada pela poesia que, em alemão, se diz dichtung.​

O sonho é uma magnífica estrutura condensada. É lacônico. Basta comparar o seu relato - que às vezes ocupa apenas algumas linhas - com a cota incalculável de associações derivadas.​

Para a formação dos sonhos, o trabalho de condensação recorre a vários e curiosos meios. Um deles consiste em criar figuras sobreimpostas, como a Irma que no sonho da Injeção é uma mulher coletiva, um amalgamado de várias mulheres da vida de Freud.​

Um outro é a criação de uma composição ideogrâmica, isto é, a junção de um conglomerado de ideias que podem compor um neologismo, uma nova palavra, como no sonho de Freud “Autodidasker”, vocábulo que reúne e embaralha os significantes “autor” e “autodidata” com os nomes do escritor alemão Lasker e o do irmão caçula de Freud, Alexander (Alex).​

Os neologismos podem ser espontâneos ou calculados como na arte poética:

Neologismo
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Manuel Bandeira

No poema, os significantes festejam, cantarolam, dançam, como no sonho. E o poeta fabricou o verbo “teadorar” para imprimir no nome da mulher amada o seu próprio eu apaixonado: Te-adoro, Te-odora. E assim procedeu também o Homem dos ratos que gerou, nas barbas do mais rígido processo de defesa, um neologismo sagrad’erótico que unifica em uma inocente fórmula de oração os vocábulos amém  + o nome em anagrama da adorada Gisela + as gotas do seu sêmen (samen em alemão) brotando: Glejisamen, Glejisamen, Glejisamen...​

A deformação propiciada pela condensação permite burlar a censura para alcançar o desejo numa operação metafórica que serve bem para expressar as coisas indizíveis, ao modo de um semi-dizer.​

Um analisante um dia foi surpreendido pelo verbo “trabailar” que lhe saltou no meio de uma queixa sobre o seu trabalho atual, mecânico, desvitalizado. “Trabailar” expressava seu anseio por um ofício artístico que ainda não ousava enunciar.​

“A palavra como ponto nodal de representações múltiplas, é como que predestinada à ambiguidade, e as neuroses (ideias obsessivas, fobias) aproveitam, de modo tão desinibido quanto no sonho, as vantagens que a palavra oferece para a condensação e o disfarce” (Freud, 1900).​

As palavras, segue Freud, podem ser submetidas às mesmas combinações que as representações de coisas, são tratadas como se fossem objetos produzindo novos vocábulos e formas sintáticas artificiais e divertidas encontradas nos sonhos, chistes, alucinação verbal e ainda na arte verbal das crianças que fazem da palavra brinquedo, por puro deleite do som: uni-duni-tê, salamê minguê...Lacan (1966) percebeu que se tratava aí do significante. Se o sonho é um enigma pictórico, um rébus que esconde uma bela e inspiradora frase, deve-se então, sugere Lacan, soletrá-lo ao pé da letra, isto é, no seu valor de significante e não de imagem pura. Inspirado por Jakobson quanto à estrutura bipolar da linguagem (correspondente às operações de seleção por similaridade e combinação por contiguidade), Lacan aproximou, segundo o princípio do dinamismo inconsciente, a condensação e o deslocamento dos polos metafóricos e metonímicos.

A condensação estaria para a metáfora e a metonímia para o deslocamento. Se a estrutura do significante está em ele ser articulado, na metonímia há o deslizamento de palavra em palavra, enquanto na metáfora uma palavra é tomada por outra.​

Haveria na condensação uma concentração ou superposição de significantes em perfeita afinidade com a estrutura da poesia.Indo mais além do inconsciente estruturado como uma linguagem, Lacan (1970) afrouxará esse laço entre condensação e metáfora no salto para o real em jogo no efeito de condensação que, ao partir do recalque, parte de um umbigo, “e traz o reaparecimento do impossível, a ser concebido como o limite pelo qual se instaura, através do simbólico, a categoria do real”. Um assunto que deixo para explorar em outra conversa.​

E finalizo com um poema mínimo de Matsuo Bashô, o mestre da cabana da bananeira [bashô, em japonês], cujo talento produziu um novo estilo de haikai rompendo com o tom brincalhão que antes o caracterizava para elevá-lo à categoria de arte poética. Digo haikai ao modo ocidental, no Japão diz-se haiku para se referir à pequena composição de três versos cuja estrutura sonora básica é de 5-7-5 sílabas.​

Este poema-pintura, aparentemente tão simples sobre uma rã que banha-se na lagoa, é certamente o haiku mais traduzido no mundo; no Brasil recebeu inúmeras versões de poetas famosos. Escolhi a brilhante transcriação de Haroldo de Campos (2010) que, para produzir o efeito de surpresa e frescor do original, fabrica o neologismo “salt’tomba”, atraindo nossos olhos e ouvidos:

Haikai de Matsuo Bashô sobre uma rã que banha-se na lagoa.
Imagem de Matsuo Bashô

Imagem de Matsuo Bashô [1644-1694]
com a transcrição do poema sobre a rã. (Link)

Referências
Campos, H. A arte no horizonte do provável. São Paulo: Perspectiva, 2010.
Freud, S. (1900). A interpretação dos sonhos. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
Lacan, J. (1966). A instância da letra no inconsciente ou a razão desde de Freud”. Trad. Vera Ribeiro. In Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
Lacan, J. (1970). Radiofonia. Trad. Vera Ribeiro. In Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.