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Foto: Elvina Lessa

Foto: Elvina Lessa

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Una veredita alegre
con luz de luna o de sol
Tendida como una cinta con sus lados de arreból
Arreból de los geranios y sonrisas con rubor
Arreból de los claveles y las mejillas en flor

Perfumada de magnolia rociada de mañanita
La veredita sonrie cuando tu piel acaricia
Y la populi se ríe y la ventana se agita
Cuándo por esa vereda tu fina estampa pasea

(Caetano Veloso – extrato de Fina Estampa)

Editorial

O número 24 de Stylete Lacaniano nos brinda com oito trabalhos de psicanalistas de diferentes Fóruns do Brasil. Neles há uma diversidade de temas que não se resumem a um único ponto de convergência, a não ser o fato de expressarem isso que a revista se propõe: ser um recorte, um lugar de traços e (e)stylos de cada um. São belas as apresentações aqui expostas que, como os versos de Caetano, nos conduzem a veredas alegres e iluminadas seja com a luz do sol seja com a luz da lua. Ainda que iluminadas, essas veredas nos equivocam, nos escondem e projetam magnólias, cravos e mejillas como que de surpresa. E são por essas veredas que passeiam os autores aqui reunidos com suas mais finas estampas.

Em Especulações psicanalíticas sobre o choro a partir da obra de Dorival Caymmi, Eduardo Pascottini garimpa belos significantes nas letras do compositor baiano para nos chamar a atenção de que “há em toda fala um choro escamoteado como ato em resposta à entrada do sujeito na linguagem”.

Elena Pérez Alonso resgata a personagem Ofélia da bela obra de Shakespeare e reflete sobre a maneira de morrer das heroínas na Grécia antiga. Ela chama a atenção que, sejam elas “femininas ou viris”, há um modo de morrer que as mantém plenamente mulheres. É o que nos sorri em O suicídio de Ofélia e o desejo de morte.

Stylete Lacaniano também apresenta a música. Em Um pouco de música e psicanálise, Glauco Machado apresenta reflexões a partir da experiência do Coletivo Música e Psicanálise. Proximidade e distância parecem fronteiras tênues de cujas veredas brotam histórias e habilidades de onde flui, insistentemente, a pulsão. De brinde, o autor oferece sua estreia acompanhando a canção Cajuína.

Letícia Godim, em O amor nas psicoses ou sobre o que é o amor nos adverte que, apesar de se apresentar de muitas formas diferentes, o amor exige pacto “ora se assumindo no interior ora no exterior da linguagem.

Nada mais jocoso e engraçado, mas às vezes constrangedor, do que os chistes. É sobre eles que Margarida Eugenia Marques realiza uma leitura de Freud e Lacan em Os chistes, palavra que lateja. Só com olhar enviesado, meio de lado, se esclarece o inconsciente.  Sandra Belchiolina nos presenteia com um belo poema, Terceira margem das águas e uma bela imagem em vereda de mar.

Sheila Skitnevsky Finger, a partir de estudo em cartel vem a luz com os caminhos da lógica e topologia lacanianas falando sobre os seus efeitos na clínica. Wildicleia Oliveira Lopes em O feminino nas entrelinhas: o não-todo no corpo e no texto traz no arrebol, inspirada em Elizabeth da Rocha Miranda, as mulheres e as artes para tratar do quanto vivemos nas margens e profundezas, “no entre, ou, nas entrelinhas”.

Na galeria de arte, ah, esta galeria... apresenta os belos trabalhos fotográficos da artista Elvina Lessa, essa mineira de coração carioca. Ali, onde o céu se dobra - título também de sua exposição  no Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2023 - nos conduz a veredas da contraditória e impactante, mas maravilhosa cidade do Rio de Janeiro. Com seus encantos, a cidade fornece cantos reconhecidos por todos e sensivelmente capturados pelas lentes de Elvina Mergulhem e emocionem-se!!!

Kátia Sento Sé Mello

Psicanalista membro do FCL Rio de Janeiro

Especulações psicanalíticas sobre o choro a partir da obra de Dorival Caymmi​

Eduardo Pascottini

Psicanalista membro do FCL Rio de Janeiro

“Vamos chamar o vento”.

Um assoviar melódico põe em prática a proposta que inaugura “O Vento”, canção de Dorival Caymmi. Sabe-se que, no assovio, o ar interno que sopra para mobilizar o ar de fora, juntando-se a este, não produz sons através das cordas vocais, mas em contato com os lábios. Ecoando uma crença popular, este ato de chamar o vento com o folego dos pulmões e a graça dos pássaro possivelmente era realizado pelos pescadores nos quais Caymmi tanto se inspirou.​

Em seguida, a mesma cadeia significante estrutura as duas estrofes principais da canção: vento/vela/barco/gente/peixe/dinheiro.

Entretanto, a segunda estrofe sofre uma leve alteração em relação à primeira, emulando o tipo de equivocidade por meio da qual, segundo a teoria psicanalítica, o inconsciente se revela. Os versos iniciais passam de “Vento que dá na vela / Vela que leva o barco” para “Vento que dá na vela / Vento que vira o barco”. Do vento ao dinheiro, o resultado é o mesmo e, que haja obstáculos no intento de um sujeito em se lançar a seus objetos de desejo, é mais do que esperado. Cabe apenas nos perguntarmos desde logo por que Caymmi inclui esse aspecto – e de maneira tão sub-reptícia – na fantasia que sua canção expressa?

Abordemos esta questão a partir de uma hipótese. Percalços a parte, a conexão entre “vento” e “dinheiro” permite correlacionar o primeiro à noção de pulsão de vida. A fantasia faz a ponte entre o real e o simbólico-imaginário de forma que discursivamente o vento é esta força que, entoada de dentro para fora, pode aproximar o sujeito / pescador de seus objetos de satisfação, permitindo uma descarga libidinal.

Mas quem faz a proposta inaugural (chamar o vento)? Quem realiza o ato proposto (assovio)? Em si mesmas, tais perguntas indicam que ainda não se percebe nítida a representação de um “Eu” que entoa o discurso. Qual é a máscara que canaliza o sopro deste personagem? Logo, podemos substituir esse alguém indefinido e fracionado, que se coletiviza ao propor “vamos (nós) chamar o vento”, pelo significante “gente”, presente na canção. Com isso, temos a ampliação da cadeia a partir do início:

gente/vento/vela/barco/gente/peixe/dinheiro.

Com toda carga de satisfação delirante, o ato fantasioso de chamar o vento supostamente produz efeitos na realidade quando este alguém não-unificado sopra vento interno emitindo uma melodia sem semântica, como já destacamos, um ato expressivo anterior à fala simbólica. Isto é, temos uma conexão delirante com a realidade vivenciada por um eu fragmentado, que produz um ato expressivo da ordem do som sem fala, da ordem, portanto, do choro!

Se a satisfação é sinônimo de uma descarga libidinal que alivia a tensão em ato, o vento equivale aqui ao ato expressivo motivado pela libido ainda mal dominada por um Eu em formação: o choro. Assim sendo, o que a representação do vento na obra de Caymmi pode dizer sobre a relação entre choro e pulsão de vida?

Avançando atentos aos aspectos formais que caracterizam as formações do inconsciente, podemos pensar não apenas no vento como a representação do choro na fantasia inconsciente de Caymmi, mas no peixe, alimento retirado do corpo do mar (!), como objeto causa de desejo. Perceba que o percurso sai de “gente” em choro (vento) e retorna a “gente” em satisfação (dinheiro), contornando o peixe, de forma a desempenhar o curso circular da pulsão, que Lacan apresenta no seminário 11 para caracterizar a aparição do sujeito no campo do outro.

Mas um obstáculo parece desacreditar nossa hipótese, pois, em outros momentos, o mesmo vento aqui relacionado à pulsão de vida, é descrito por Caymmi como ameaçador e mortífero. Ademais não nos esqueçamos que, por meio de um “equívoco calculado”, a segunda parte de “O Vento” já apontava para algo semelhante, de maneira que, ao permitir criativamente que o elemento ao mesmo tempo “leve” e “vire” o barco, o compositor está paradoxalmente igualando o registro da ação à sua própria negação: “o vento virou o barco que leva a gente, que leva o peixe, que dá dinheiro.” Como não notar nesta possibilidade impossível de capturar o peixe após a agência do vento uma representação da posição do sujeito frente ao desejo na neurose obsessiva?

Mas permanece a dúvida: como algo que aponta para a função integrativa e aproximativa da pulsão de vida (primeira parte de “O Vento” e, acrescento, segunda parte de “Saudade de Itapoã”) pode remeter ao perigo de desfragmentação que há na pulsão de morte (“Temporal”, “Noite de Temporal” e “A Jangada Voltou Só”)?

Um início de resposta está em associar o “vento” ao choro do bebê, um ato expressivo que remete a fases iniciais da constituição subjetiva, quando pulsão de vida e pulsão de morte não se distinguem bem diante de um referencial egoico incipiente. Com a alteração de um único verso, algo da ordem do perigo surge no ato, antes benéfico, de chamar / soprar o vento visando o seu auxílio na pesca. O mesmo observa-se no choro, expressão de desprazer sentida pelo sujeito que, uma vez consequente, isto é, capaz de motivar o amparo do cuidador / Outro, se configura como demanda; mas, por outro lado, quando não atendido, conservando assim a tensão orgânica que o Eu em formação não é capaz de dominar e conduzir, gera a angustia do desamparo, equivalente ao trauma de um ataque externo. A resposta a este ato expressivo (o mais próximo possível do real) determina a entrada do sujeito na linguagem. E, se falamos porque pedimos, há em toda fala um choro escamoteado, que revela sua articulação entre os três registros nesta fala especial que é o canto, pois, assim como o inconsciente, a música é uma cadeia de significantes estruturada como linguagem.

Há no repertório de Caymmi outra canção cujo título tem a estrutura de “O Vento”: “O Mar”. O objeto causa do desejo é o mesmo no discurso de ambas: o peixe, que o pescador sai em captura, mas que agora rói o seu corpo inerte após o esforço mal sucedido. Quem realiza o ato não é mais um alguém indefinido (“gente”): é Pedro. Da mesma forma, o desejo que motivou o ato ganha sentido pelo lamento de uma personagem com contornos mais nítidos: Rosinha de Chica.

Mas e quanto ao mar? A partir do que o discurso da canção enuncia e de sua estrutura circular, podemos dizê-lo – em um tipo de construção em análise – indiferente. Diante do fim trágico de Pedro nas ondas do mar, a constatação de que este Outro permanece sempre o mesmo em seu movimento arrasador e, ainda assim, bonito. Aliás, que a descrição do mar articule universos semânticos tão distantes, caracterizando assim uma atividade destrutiva e ruidosa (“quebra na praia”) como atraente e sublime (“bonito”), produz um efeito de soma zero. Nem bom, nem mau, o mar é. Na fantasia de Caymmi, que o pescador morra em contato com o mar é resultado de um desejo do qual este último não toma parte. Enquanto Rosinha de Chica, “bem de terra”, fica na beira da praia a lamentar a morte de Pedro, conferindo, esta sim, sentido ao desejo frustrado do pescador, “o mar é o mar é o mar”.

Significante estratégico, “indiferente” ocorre de forma literal em momentos nos quais Caymmi descreve desejo e angústia de separação, corroborando assim a coincidência entre uma fantasia de castração e uma fantasia de alienação no Outro. “Indiferença” produz que, de um lado, assim como no dicionário, o termo seja encarado como a propriedade de quem não se importa e, de outro, seguindo as condensações e deslocamentos do inconsciente, como o que é o contrário da diferença, portanto, o que é igual, inseparável. No primeiro, temos a percepção da não formação de laço com o Outro, que não amparou (indiferença) a manifestação de vida, o grito de necessidade. No segundo, temos o desejo de voltar a formar “Um com o Outro” (indiferença), necessariamente reprimindo a agressividade, faísca inicial da constituição subjetiva. Eis o choro de Caymmi, tão próximo do gozo, que suas canções expressam.

O suicídio de Ofélia e o desejo de morte

​Elena Pérez Alonso

Psicanalista Membro do FCL Rio de Janeiro

- Peça: “Hamlet” (tragédia) de Willian Shakespeare, (Publicada 1600-1601).

Hamlet, a tragédia do triste príncipe da Dinamarca enredado em intrigas, traições e vinganças, é uma das peças mais conhecidas e apreciadas do Bardo de Avon. Muitos estudiosos se debruçaram sobre esta tragédia que pode ser vista por diferentes perspectivas, tendo sido objeto de estudo para Freud e Lacan.

Sempre que fazemos um trabalho sobre um texto, conto ou monografia, estamos fazendo uma escolha e uma separação daquilo que mais nos tocou. É como se alguma coisa reavivasse um traço nosso e a partir daí surgisse alguma identificação e implicação que nos levasse a valorizar mais um determinado, personagem ou tema. E sem percebermos fazemos um recorte. No caso, a escolha foi direcionada para a personagem de Ofélia, na tentativa de estudar o suicídio feminino, na Grécia Antiga.

- Resumo da peça: Desde o início da peça Ofélia procura o pai para se aconselhar a respeito do assédio de Hamlet. O pai fica muito inseguro com as atitudes do príncipe, o que deixa Ofélia confusa com relação aos sentimentos que o príncipe nutria por ela.

Aconselhada também pelo irmão Laertes, que lembrava a ela que Hamlet era um homem com poder, este lhe disse: Considera, pois, que perda sofreria tua honra, se prestasses crédulo e ouvido às suas loas, ou perdesses o teu coração, ou abrisses o tesouro da tua castidade… Ofélia responde: hei de reter na memoria o sentido dessa boa doutrina.

Hamlet fica muito atormentado com o assassinato do pai e com a atitude da mãe, que se casa com o cunhado, assassino do Rei, um mês depois da morte dele.

Nessa trama de desentendimentos o espectro do pai assassinado começa a aparecer para Hamlet, pedindo para que o mesmo faça justiça. Hamlet fica muito perturbado com essas aparições e os seus sentimentos por Ofélia também ficam confusos.

No meio dessas confusões, Ofélia relata para o pai o que tinha acontecido na noite anterior, dizendo: Estava eu a coser no meu quarto e Hamlet apresentou-se diante de mim com o gibão todo aberto, sem chapéu na cabeça, meias enxovalhadas. ao que Polônio questiona: louco de amor por ti? E ela responde receio que sim.

Hamlet escreve para ela dizendo: Querida Ofélia, não me sinto bem nestes versos…mas acredita eu que te amo muito. Adeus.

Ofélia encontra com a rainha e canta:
Como é que de amores pérfidos. Se distingue o verdadeiro? Tem bordão? usa sandálias? E conchas como um romeiro?

A rainha tenta falar com Ofélia, mas, ela prossegue com seu canto.
Morreu e partiu, examine. Partiu; na cova repousa. Verde relva sobre o crânio. Aos pés a marmoreal lousa.

Entra o Rei e ela continua cantando.
Era um recanto de flores, Orvalhadas por funéreo. Pranto desfeito de dores.

O Rei tenta chamar a atenção dela chamando-a de: encantadora Ofélia, mas ela prosseguia com o seu canto exclamando:
“O Santa caridade! Ó Cristo! Exclamava a infeliz."

Hamlet dizia: Qualquer um no meu lugar faria o que eu te fiz”. “Pois sim; mas prometeste… Com sorriso amoroso Antes de amarrotar a minha virgindade, ser o meu terno esposo”…

Laertes pergunta que rumor é este? (entra Ofélia coroada de flores e palhas) Cantando:
Nem um véu sobre a fronte nobre e altiva! Que lástima! Que pena sem igual! Mas sobre a humilde campa se deriva. Uma fonte de lágrimas caudal. Adeus, meu amor.

Laertes comenta – A tristeza, a aflição, o desespero, o próprio inferno- tudo ela converte em graça e doçura.

Ofélia canta se referindo ao pai, que tinha a barba como linho. A cabeça era um arminho. Partiu, não peço que venha. É melhor não, Deus o tenha. Junto de si bem vizinho.

A rainha narra a morte de Ofélia dizendo: na borda do regato há um salgueiro, cujas folhas prateadas se espalham na vítrea corrente. Ali se achava ela entretecendo fantásticas grinaldas de ranúnculos, urtigas e daquelas grandes flores púrpuras a que os pastores soltos de língua dão mais grosseiro nome , e que as nossas castas donzelas chamam dedos de defuntos: “quando ela trepava para os ramos inclinados para pendurar a sua coroa de ervas agrestes, eis que de pronto quebra uma vergôntea inimiga, e Ofélia cai no ribeiro lacrimoso envolta com seus rústicos troféus. Os vestidos incharam e sustiveram-na por algum tempo ao lume da água, como se fora uma sereia; no entretanto ela cantava pedaços de antigas trovas, como quem não formava ideia do perigo, ou como criatura nascida e criada naquele elemento.. Mas isso não podia durar muito; os vestidos afinal ensopados arrancaram a infeliz ao seu melodioso canto , deram-lhe morte no lodo. E Ofélia afogou-se. balançando no ar, se deixa cair e não tenta se salvar.

Hamlet passava pelo local na hora do enterro e sem saber que era Ofélia que ia ser sepultada, comenta: quer dizer que o cadáver que conduzem destruiu sua própria vida com mão desesperada…

O padre confessa: suscitam-se dúvidas sobre a morte dessa senhora, e se uma ordem superior não tivesse despoticamente dominado a lei, ela teria sido alojada em terra profana…e em vez de orações caridosas teria-se lançado sobre o corpo saibro, cascalho e pedras; e todavia, concederam-lhe as coroas de virgem, as flores de donzela, o dobre sino e a sepultura em sagrado.

É pelos homens que as mulheres morrem, é pelos homens que elas se matam, com maior frequência, por um homem e para um homem.

No momento de saltar no vácuo, é a presença ausente do homem que a mulher encontra pela última vez em cada ponto do thálamos.

Na Grécia antiga as heroínas tem uma maneira própria de morrer. Na ópera os personagens cantam para contar a sua morte. Os autores da tragédia grega recitam a morte das mulheres.

É tempo de lembrar que se para a mulher a morte é movimento, somente levantam voo as heroínas extremamente femininas.

Existe na linguagem trágica um parentesco entre o enforcamento e a precipitação. A enforcada se lança no vazio, sem dúvida, mas seu corpo deixa o solo para ficar preso ao alto do teto; a precipitação é, ao contrário uma queda profunda. - O próprio verbo aeiro, significa a elevação e a suspensão, aplica-se a esses dois lançamentos orientados em sentido inverso, para o alto e para baixo, como se o alto tivesse sua profundidade, como se alguém só chegasse embaixo - o solo, mas também as profundezas subterrâneas.

Entretanto sejam elas femininas ou viris, há para as mulheres um modo de morrer segundo o qual elas permanecem plenamente mulheres. É sua maneira fora do teatro, de encenar seu suicídio: encenação minuciosa fora do olhar do espectador, e depois o anúncio de um mensageiro de que ela se matou longe dos olhares. Como Ofélia ela se afasta indo até o rio e se pendurando na árvore como quem quer levantar voo, balança e se deixa cair no rio. Ela se afasta para morrer longe dos olhares.

Referências
SHAKESPEARE, Willian, 1564-1616. Hamlet / Willian Shakespeare. Tradução de José Antonio de Freitas.- São Paulo; Martin Claret, (Coleção a obra prima de cada autor: 39), 2010.
LORAUX, Nicole. Maneiras trágicas de matar uma mulher. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,1995

Terceira margem das águas

Sandra Belchiolina

Psicanalista Membro do FCL Belo Horizonte

Na terceira margem​
O rio​
As águas que correm​
O canto que faz ​

O barco leva o Pai​
As águas cantam​
O filho a olhar​
O silêncio a imperar ​

À margem​
Enraizado - o filho​
Uma resposta virá
​O silêncio transborda​

À margem​
O Pai retorna​
O silêncio reina​
Resposta não há ​

O filho de raízes na terra
​As arranca​
Foge desembestado a galopar​
Para o silêncio... somente a morte

Foto: Elvina Lessa

Ali onde o céu se dobra

Elvina Maciel Lessa

Os Chistes, palavra que lateja

Margarida Eugenia Campos Gomes Marques

Psicanalista Membro do FCL Rio de Janeiro

Mesmo não comportando nenhuma satisfação particular imediata, o chiste consiste em acontecer no Outro alguma coisa que simboliza o que poderíamos chamar de condição necessária de qualquer satisfação. Ou seja, que vocês sejam ouvidos para além do que dizem.

(Lacan, 1999, p.156)

Escrevo aqui o que pude perceber do lugar pulsante dos chistes. O chiste se oferece para um precioso estudo. Tenho muito prazer em   trazer recortes de um estudo tão delicado, do que escapa, do que comparece por trocadilhos, piadas, atos falhos, na sombra enigmática do riso para além da palavra, formações do inconsciente, sonhos recolhidos das andanças pelos escritos de Freud e Lacan.​

Querendo destacar a relação entre o inconsciente e a linguagem, Lacan efetuou uma leitura estrutural da noção freudiana de condensação. Assemelhou a uma metáfora, fazendo do dito espirituoso, uma metáfora, isto é, a marca pela qual surge no discurso, um “rasgo”, de verdade que procuramos mascarar. Roudinesco (1997)​

Importante lembrar que após A interpretação dos sonhos (1900) e a Psicopatologia da vida cotidiana (1901), Os chistes e sua relação com o inconsciente (1905) foi a terceira grande obra de Freud, dedicada a nova teoria do inconsciente. O livro de 1905 foi uma etapa fundamental na elaboração da teoria freudiana do inconsciente. Lacan deu a entender que Freud teria percebido, antes das descobertas da linguística moderna, uma relação entre as leis de funcionamento da linguagem e as do inconsciente.

Em 1905 Freud começa o dizer dos chistes abrindo as portas para os mal-entendidos, incompreensões e mundo vasto das formações do inconsciente e da interpretação dos sonhos.

O que diferencia um gracejo de um chiste é que o sentido da oração que escapou à crítica não necessita ser válido, novo ou meramente bom; só é preciso que se possa dizer, por mais que seja insólito, supérfluo ou inútil dizê-lo. “Nos gracejos, o que se situa em primeiro plano é a satisfação de tornar possível o que a crítica proíbe” (Freud, 1905/1996, p. 124), podemos pensar os chistes tendo autoria, receptor, leitor e grande Outro. A dimensão do outro precisa cair para a dimensão imaginaria e o leitor estar aberto para receber o texto do autor. Mais do que o sentido da piada, existe a fala, o equívoco, atos falhos, lapsos. O que tem estilo e autoria. Só aquele sujeito poderia dizê lo.

Receber o chiste e sofrer os efeitos dele. O chiste vai demandar uma operação do outro como um lugar vazio Lacan. (1953). Há uma queda da inibição, narcisismo, vaidade... O vaidoso quer interpretar demais e perde a possibilidade de se afetar pelo chiste. Lacan nos disse que o cômico é um riso a dois, enquanto o chiste é um riso a três (Lacan, 1995, p. 302-303). Rimos, na situação cômica, de uma certa queda. Há esse alguém ou esse algo que cai, e há aquele que ri. Um riso a dois. Quanto a essa queda, Lacan nos diz que ela também corresponde a certa separação da imagem (Lacan, 1999, p. 137). A imagem se separa de certo real e sai andando sozinha. É quando ele lembra da imagem do pato sem cabeça andando assim mesmo. Nós, então, até podemos já ver aí uma estrutura triádica, estrutura de três termos, pois há o real quedado ao chão, há a imagem que anda sozinha e há aquele que ri disso.  A dimensão do cômico produz afrouxamento para acontecer os chistes. No humor acontece um espaço onde comparecem os chistes. O riso do Outro ao chiste é um acontecimento, um evento real. Não é uma significação, nem a adição infinita de mais um termo significante: mas também não é uma voz. Os antigos já observaram que o homem é o único animal que ri; não puderam dizer, que é o único que tem voz. O chiste produz mais além dos traços que herdamos do outro, um som a mais. Sonoriza algo... há algo desumano no humano.​

O que são os chistes, transmitidos em uma linguagem cifrada, tal qual lalíngua? É na relação de um significante com um significante que vem gerar-se uma certa relação significante sobre significado. A distinção entre os dois é essencial. Lacan (1957), coloca o significante em cima e o significado abaixo. O inconsciente se interessa muito mais pelo significante do que pelo significado. Ele é constituído por cadeias de significantes, que são os encadeamentos sonoros das palavras.

“Objetivo do chiste, com efeito, é nos reevocar a dimensão pela qual o desejo, se não reconquista, pelo menos aponta tudo aquilo que perdeu ao percorrer esse caminho, ou seja, por um lado, o que deixou de dejetos no nível da cadeia metonímica e, por outro, o que não realizou plenamente no nível da metáfora”. (Lacan, 1998/1999, p. 100)

Chiste é um processo social. Em Psicologia das Massas (Freud,1922) vai dizer que para produzir um chiste é preciso que se forme um laço social com o outro. E o próprio chiste é indutor deste laço de afinidade. O chiste funciona dentro da paroquia. O chiste é paroquial, está em determinada paroquia. O chiste é uma linguagem singular. Em grupo se faz piada machista, racista, corporativa.

Este cruzamento explica a piada pelo efeito que ela causa. Emergência do desejo que está sufocado.  Você me conta, eu conto para o outro que conta para outro. Quando eu conto e o outro ri eu consigo ter um fragmento de gozo, em Lacan. O gozo é sempre do outro. Quando se constrói um chiste, há sempre uma terceira pessoa que é o lugar no inconsciente, o sujeito do inconsciente, que vai estar em curso nesta produção linguística desejante.

Em Freud (1905) o chiste brinca com a deformação da palavra, deformando uma parte da linguagem para produzir determinado efeito. O chiste dá estrutura ao pensamento psicanalítico, em Lacan 1957.  Temos uma demanda e a demanda gera necessidade e começa a construir o outro dentro de mim. O Witz é aquilo que se traduziu por tirada espirituosa, em francês paroles pleines d’esprit, ditos espirituosos, envolve a palavra, o trabalho com a linguagem, formações do inconsciente.

Lacan mostra que a cada gesto de escrita do estilo do autor, há um apagamento da subjetividade deste autor. O autor encontra se presente no texto com o gesto. Há um ponto inconfessável a respeito do autor. Atravessamento. O leitor testemunha a luz opaca do sujeito que irradia uma autoria.

Primeiramente, Lacan nos lembrou que o chiste é um ato de enunciação, um ato de palavra. Isso, por si só, já o destaca do simples cômico: uma situação cômica pode ser produzida na fala, mas uma situação em que ninguém tome a palavra pode já ser cômica. Lacan nos lembra no Seminário 5 (1950) que o chiste, afinal de contas, é uma demanda. Aliás, Lacan tanto acentuou o que o chiste tem em comum com a demanda como também o que ele tem de peculiar, relativamente às demais demandas.

Chegamos à noção de que, no decorrer de um discurso intencional em que o sujeito se apresenta como querendo dizer alguma coisa, produz-se algo que ultrapassa seu querer, que se manifesta como um acidente, um paradoxo, ou até um escândalo (Lacan, 1957).No lugar disso, Lacan nos diz que o máximo que o analista pode fazer, quando ele o pode, é ajudar o sujeito a formular aquela frase que lateja, impronunciada, sob seu sintoma. Então, vejamos: após tanta procura, tanto trabalho, tanto sofrimento, antes e durante uma análise, após tudo isso, uma frase. Uma frase! E pior ainda, que natureza teria esta frase? Em que forma ou sintaxe ela viria? Pergunta pela sintaxe, pois já nem podemos esperar grande coisa de sua semântica; não podemos esperar dela uma significação respondente às interrogações do sujeito, nem mesmo uma significação respondente a sua interrogação essencial. Esta frase, não podemos nem mesmo esperar dela a estrutura de um daqueles períodos longos, com várias orações subordinadas intercaladas, como aqueles períodos de Proust, que constituem por si só um longo parágrafo. Uma frase bem pequena, é o que podemos esperar dela. No para além de todo o trabalho analítico... uma frase, uma pequena frase. Não uma nova personalidade, como nos prometiam, ou melhor, nos exigiam, segundo Lacan (1958), os pós-freudianos. Não. Uma frase. E na verdade, aquela frase de sempre, latente em toda sintomatologia, só que agora nova, pois enunciada pela própria boca do sujeito.

O inconsciente, justamente, só se esclarece e só se entrega quando o olhamos meio de lado. Aí está uma coisa que vocês encontrarão o tempo todo no Witz pois tal é sua própria natureza – vocês olham para ele, e é isto que lhes permite ver o que não está ali. (LACAN, 1958).

Referências:
FREUD, S. (1905). El chiste y su relación con lo inconsciente. In S. Freud, Obras completas (J. L. Etcheverry, trad, Vol. 8). Buenos Aires: Amorrortu. (Trabalho original publicado em 1905
LACAN, J.  O Seminário, livro: 5 As formações do inconsciente – 1957/1958 (V. Ribeiro, trad.). Rio de Janeiro: JZE. (Trabalho original publicado em 1998)
LACAN, J. O Seminário, livro 17: A lógica do fantasma1966/1967. Recife:  Centro de estudos Freudianos de Recife. 2017.
ROUDINESCO, E. Dicionário de Psicanalise. 1997. RJ: Zahar

O feminino nas entrelinhas: o não‑todo no corpo e no texto

Wildicleia Oliveira Lopes

Psicanalista, membro dos Fóruns Aracaju e Alagoas (em formação)

A psicanálise ratifica com intensa frequência seu compromisso com a verdade do sujeito. Os psicanalistas que se aventuram no mundo da escrita avançam nas produções teóricas da psicanálise para sinalizar a singularidade do desejo, as camadas encobertas do saber e a incompletude da verdade, já que a partir de seus estudos sabemos que não há desejo de todos, transparência do saber e verdade completa, toda. Nos constituímos enquanto sujeitos por um desejo que, a priori, vem do Outro. Necessariamente. Amamos o amor do outro, sonhamos seus sonhos, giramos em torno do que supomos ser seu mundo, artifícios magníficos da fantasia. Um pequeno ser e seu Outro – este Outro, que como aprendemos com Lacan, faz referência a um lugar que no inconsciente oferta morada aos ditos importantes de uma vida. E assim, seguem as demandas que vão se desdobrando no transitar das existências.​

Ao nos depararmos com a ameaça da castração, nos dividimos. A língua que outrora encontrava no Outro tradução à sua revelia, passa a querer dizer. Disso que se diz, muito não se entende, e assim se montam e se amontoam os humanos, nas várias possibilidades de se estruturarem ao se defrontarem consigo mesmos e o mundo. E a linguagem então, se presenti-ficou. Seus efeitos passaram a denunciar os impasses das relações, as falhas na comunicação foram apresentando as perdas que em nosso caminho vão se refletindo nas cadeias significantes, contornando tantas mortes que pela palavra nos ascendem à vida, a qualquer faísca de vida. Palavras que fazem borda no vazio, que ofertam vazão ao nosso desejo, nossa singularidade. E do vão – que de nada tem em vão – nós vamos. Tropeçamos, caímos, levantamo-nos, amamos, sofremos, criamos... escrevemos. Seguimos às voltas, movidos pelo movimento insaciável da pulsão, que ora nos conduz à vida, ora nos conduz à morte, mas que não cessa. Do real à realidade, do insabido ao que alcançamos saber: a verdade não-toda, mas com direito de se dizer própria. Pois, (...) “é com aparecimento da linguagem que emerge a dimensão da verdade.” (LACAN, 1957).​

Já estamos advertidos por Lacan de que a linguagem tem seus limites, ela não alcança o real, seu trabalho é bordejá-lo. Da língua à letra, da letra à palavra, da palavra ao humano, do humano à falta. Essa é a nossa ferida, que como nos lembra Denise Mourano (2010), não nos curamos nunca: a ferida de sermos humanos. No entanto, através do abraço carinhoso e caloroso da psicanálise com as artes, passamos a compreender que uma dor pode criar coisas belas. Tom Jobim e Vinícius de Moraes nos atestaram isso, afagando nossas feridas com o que as suas próprias foram capazes de inventar. Pois, tomando de empréstimo suas palavras, presentes na música Eu não existo sem você (1958): “(...) um poeta só é bem grande se sofrer.” O mais tenro amor que um dia já se demandou e que no desencontro se frustrou, torna-se livro, música, poema ... arte. Não somos capazes de alcançar o que os escritores e/ou artistas quiseram, por suas próprias verdades, escrever ou produzir, porém, disto certamente alcançamos algo que faz eco no que não sabemos, mas que de nós faz parte. Como afirma Alain Didier-Weill (2014): “o impacto desse ponto de báscula sobre o Ouvinte está em realizar a inverossímil conjunção entre o que ele pode ouvir e o que pode dizer: ponto de conjunção de onde a palavra do mundo que lhe fala se torna ao mesmo tempo sua palavra de Sujeito.”

​As verdades meio ditas, que na hiância de cada um, se confluem e dão sentido. Fazem sentir. Tão misteriosas, encobertas com seus véus e suas máscaras. Tão femininas. Se nos apoiarmos no que Lacan nos diz sobre a mulher, que se conta uma a uma, nos aproximamos também sobre o que ele nos fala quanto à verdade. Compreendendo-a como aquela que “situa-se ali onde o sujeito nada pode captar se não a própria subjetividade que constitui um Outro como absoluto.” (LACAN, 1955). Ambas, mulher e verdade, de todo não podem ser ditas. Os seres falantes que experimentam as inquietações de um querer saber que esbarra na impossibilidade de uma definição – já que a infinidade de significantes pode dizer-lhes em suas singularidades, mas não são capazes de responder-lhes sobre seu ser mulher no mundo – conjugam com as infinitas faces do que em psicanálise pensamos por verdade. Aquela, oriunda de um saber insabido, não confessado às luzes da consciência. Uma outra cena, onde as cartas são produzidas, encontrando sempre seus destinos. (LACAN, 1955).​

Quais os mistérios podemos descobrir sobre uma mulher? O que há nas produções dos artistas que nos causam tantos afetos, de modos e tamanhos tão diferentes? Freud, em meados de 1932, estava às voltas com essas questões. Ele sabia que nestas posições de sujeitos, havia um saber encoberto e revelado nos atos e nas palavras. Lacan validou a curiosa aposta de Freud, discorreu sobre as ficções da vida humana e sobre quanto saber há em um artista, um escritor e sua obra.

Tratando assim, dessa criação/escrita que não se fecha, não se reduz a um significante. Trans-borda e encontra nos outros com quem se depara, um sentido único de ser. Está aí, a posição feminina que não se reduz a uma significância fálica com a função de recobrir a falta, mas, explora o vazio que marca o Outro como faltante. As mulheres e os artistas – mais especificamente aqui os escritores –, em suas posições não-toda, se servem constantemente dos adornos, elas no corpo e eles (escritores/artistas) nos textos. Ferreira Gullar, com sua escrita tão adornada, nos presenteia com o feminino transbordando em suas palavras publicadas no livro Na vertigem do dia, em seu poema Traduzir-se (1980):

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

(...)

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Sem que intencionalmente se proponha a alcançar os ouvidos e o coração de um leitor, a escrita chega, circula, dá seus tons. Se lança a ser para alguém, na beleza de uma alteridade feminina, enlouquecida de amor. Pois, como nos diz Elisabeth da Rocha Miranda (2017): “Quando se trata de amor, as mulheres são transgressoras e vivem o descompasso entre a cultura e o laço social.” Elas e as artes, nos mostram com tamanho encantamento e intensidade o quanto vivemos entre as margens e as profundezas. No entre, ou, nas entrelinhas.

Referências
LACAN, Jacques. “O seminário sobre” A carta roubada”” (1955). In: LACAN, Jacques. Escritos. v. 1. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 17-22.
LACAN, Jacques. “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” (1957). In: LACAN, Jacques. Escritos. v. 1. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p 529.
MIRANDA, Elisabeth da Rocha. Desarrazoadas: devastação e êxtase. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2017. p. 15.
MAURANO, Denise. Para que serve a psicanálise? 3.ed.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2010. p. 12.
DIDIER-WEILL, Alain. A nota azul: de quatro tempos subjetivantes na música. In: DIDIER-WEILL, Alain. Nota azul: Freud, Lacan e a arte. 2. ed. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2014. p. 15.

O amor nas psicoses, ou sobre o que é o amor

Letícia Gondim

Psicanalista, membro do Fórum Brasília

Freud (1895/2006, p.257), no rascunho H, afirma sobre a psicose: “essas pessoas amam seus delírios como amam a si mesmas.”  E Lacan (1956, p.297) aponta: “Ali onde a fala está ausente, ali se situa o Eros do psicotizado, é ali que ele encontra seu supremo amor.” Allouch (2010), contrapondo-se a essas afirmações, assegura que, na psicose, não se trata de uma neurose narcísica, que impediria a transferência; trata-se, sim, de saber como pode amar um psicótico. E sobre o amor, Lacan se refere à palavra plena. Dito isso, esse amor tem lugar e não estaria onde se ausenta a fala.

Em À Guisa de Introdução ao Narcisismo, Freud (1914/2004) sinaliza que, na neurose, o indivíduo não suspende seu vínculo erótico com as pessoas, mas substitui, por meio da fantasia, os objetos reais a fim de mantê-los na lembrança.  Na psicose, no entanto, o indivíduo retira o investimento dos objetos sem a substituição pela fantasia, retornando a libido ao Eu. O complexo de castração provocaria o conflito entre as moções libidinais e as concepções culturais e éticas do indivíduo, levando ao recalque, no caso da neurose. Freud utiliza o termo Eu ideal para falar do amor de si, assim como utiliza Ideal de Eu para se referir ao resultado do recalque. Por meio do Ideal de Eu é possível transferir a satisfação libidinal aos objetos e, quando não ocorre esse ideal, o indivíduo fica refém do mecanismo de funcionar como seu próprio ideal.

Lacan (1954a) aponta que Freud, se embaraçou ao abordar a oposição entre libido versus desinvestimento ao mundo exterior que, segundo Freud, é característico das formas de demência precoce. Ao trazer a questão do autoerotismo, ele também, de certa maneira, cinde a libido, afirmando que o investimento nos objetos ocorre por meio do prolongamento do corpo ao mundo, quando é mantida uma ideia de neutralização da libido. A isso, Lacan responde que a distinção libidinal estaria entre as relações reais, no sentido das realizantes e a função do desejo. Lacan (1954b), recorrendo ao esquema óptico, aborda o estádio do espelho.

Lacan (1954b) utilizou do experimento do buquê invertido para dizer que, no caso do ser humano, diferente dos animais, é preciso que haja um outro que antecipe a imagem para que se produza um ser. O ser humano só consegue ter a sua forma total fora de si mesmo. Quando ele mesmo faz essa tentativa, a imagem é fragmentada, destacando a difícil adequação do imaginário, a qual exige que haja a voz do outro, caracterizando a relação simbólica, que é o Ideal de Eu. (1954c).

Lacan (1954d) afirma:
O homem atingiu o acabamento da sua libido, antes de encontrar o objeto dela. É por aí que se introduz essa falha especial que se perpetua nele na relação a um outro infinitamente mais mortal para ele que para qualquer outro animal. (Lacan, 1954d, p.199)Sendo assim, o autor (1954d, p.199) atesta: “Estamos todos de acordo em que o amor é uma forma de suicídio.”

Lacan (1954e) considera que o ser humano se apreende enquanto corpo na troca com o outro, evidenciando que, em sua forma original, antes da linguagem, ele é inconstituído e é por meio de um reconhecimento do outro que aprenderá a se reconhecer.

Na origem o desejo está no plano da relação imaginária, não tendo outra saída a não ser a destruição do outro. Portanto, a relação de amor está referida ao quadro narcísico, mas não se realiza no plano imaginário. O amor exige um pacto, e pode se apresentar de muitas formas, ora se assumindo no interior ora no exterior da linguagem.

No seminário A transferência, livro 8, Lacan (1961) trabalha o amor por meio de O Banquete, de Platão. Na discussão sobre o que define o amor, Diotima o coloca como sendo amor ao belo, sendo o amor o amado e não o amante, e caracterizando a relação como biunívoca, pois tem por objetivo a identificação com este ser absoluto. Em contraponto a esse objeto total, Lacan traz esse outro amado como um punhado de objetos parciais que tomamos como sujeito e não como objeto. O objeto da paixão é derivado do objeto de desejo que está contido nele, agalma, a metonímia do discurso inconsciente. Dessa forma, partimos do amor à identificação. Temos aí, então, duas perspectivas do amor:  uma em direção ao bem supremo, que ele chamou de amar-em-Deus, outra que tem relação com o agalma, que ele chama de amar verdadeiramente.

Na psicose, Allouch (2010) coloca que, no delírio, existe uma relação com a fala, mas considerando o apego ao significante enquanto tal, ele só poderia amar em outro lugar. Lacan (1956) não trabalha com a perspectiva de Freud, que coloca no autoerotismo a não relação com os objetos, visto que, em sua observação clínica, o recém-nascido se relaciona com todo tipo de objeto. A questão está na distinção entre o outro imaginário, que consiste no que se estrutura como campo originário dos objetos para o recém-nascido e o Outro absoluto, que é tudo em si, mas fora de si, aquilo que compreende a relação extática, o Outro como radicalmente Outro.

Temos então um paradoxo, ao mesmo tempo em que para Lacan (1956) o psicótico só pode apreender o Outro pelo significante, o qual se demora apenas numa casca, sinalizando essa heterogeneidade radical e provocando a inevitável extinção do sujeito que só poderia amar como amor morto. A isso, Allouch (2010) responde: não seria a heterogeneidade uma aposta de que o amor está vivo? Sendo assim, ele lança as questões: haveria outro amor verdadeiro que não o do psicótico? Ele seria um representante do amor extático a ser distinguido de qualquer um?

Allouch (1997), citando Roudinesco, afirma, sobre a tese de Lacan Da psicose Paranoica em suas relações com a Personalidade, que Lacan quem fez transferência com Aimée. Ele declara: “Minha paciente, aquela que chamei de Aimée, era realmente muito tocante” (Lacan citado em Allouch, 1997, p. 449). Lacan fica numa posição de observador e ela aceita e lhe confidencia. A nomeação pública dessa paciente revelaria o seu amor por ela. Segundo Allouch (1997), ele foi tocado pela falta de amor que se encontrava nela. Além disso, foi fisgado pelo saber, saber de alguma coisa que estaria ali e que provocou em Lacan a pergunta: O que é o saber?

Referências:
Allouch J. (2010). Rumo a um amor extático. In Allouch J. O Amor Lacan (pp.83-97). Rio de Janeiro: Companhia de Freud.
Allouch J. (1997). Sobre a transferência psicótica. In Allouch J. Paranóia Marguerite, ou “Aimée” de Lacan (pp. 431-456). Rio de Janeiro: Companhia de Freud.
Freud S. (2004). À guisa de introdução ao narcisismo. In J.Strachey (Ed.), Escritos sobre a psicologia do inconsciente (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 1, pp. 95-119). Rio de Janeiro: Imago. (Obra original publicada em 1914).
Freud S. (2006). Rascunho H: paranoia. In J.Strachey (Ed.), Publicações pré–psicanalíticas e esboços inéditos: (1886-1889) (Edição Standard Brasileira das Obras

Um pouco de música
e psicanálise

Glauco Machado

Psicanalista Membro do FCL Curitiba

Quais são as músicas da minha vida? A mais marcante no jardim de infância, cantada com a professora? E aquela que lembra o meu pai? Tem outra que lembra a minha mãe e aquela outra que me fez ver que eu não era mais criança. A abertura do filme ou a que acompanhava o meu programa de TV favorito e até a do comercial (quem diria?).​

A marca de uma música – melodia ritmada, com ou sem palavras – se associa imediatamente a lembranças de um tempo em que eu era alguma outra coisa e me ajuda a cercar o que eu sentia e com quem sentia. Quando mais novo cantava – ou lalava – as músicas em português ou inglês completando os versos com sons que me pareciam coerentes para fechar uma poesia inexistente. Sons sem significado garantido. Só fruição em repetir, imitar, espelhar o cantor e ficar dono daquela música, agora minha, do meu jeito.​

Depois, capturado pelo vigor de alguns guitarristas, fui estudar violão e guitarra. Nova fronteira: tocar razoavelmente, de um modo que permitisse que o outro reconhecesse o que eu fazia. Depois tocar melhor, um pouco mais parecido com o que a gravação apresentava. E depois ainda, tocar bem, igual ou melhor do que o instrumentista que interpretou originalmente a composição. Até o ponto em que o corpo respondia, do meu jeito, ao que a música pedia. Uma nova linguagem, enfim. Aprendi o musiquês e consigo conversar com alguns outros musicófonos em uma linguagem que, se não nos permite nos expressarmos vastamente, faz com que nos reconheçamos uns aos outros em alguns contextos. Não em todos, porque o musiquês, ao mesmo tempo que muito amplo, não serve para tudo o tempo todo. Pelo menos não para mim.​

E daí veio a psicanálise. E a análise. E a constatação de que muitas vezes entre eu e o outro havia um violão que me disfarçava daquilo que o outro queria ver – e ouvir. Baita escudo! O que você gosta de ouvir? Eu toco, e nós cantamos juntos em mesmerizante júbilo especular. Competente e iludido repletor da demanda do outro. Como não componho, sou um repetidor das músicas que me tocam, que me fazem questão, que me divertem e assim os tempos compartilhados com quem se dispõe a me ouvir nos levam a manter algum nível de fugaz, mas intensa, troca identificatória e também, geralmente, salutares episódios de constatação dos fenômenos da alteridade – afinal, nem todos me entendem no meu dialeto em musiquês.​

Mas no consultório, recebo uma citação de versos de música como um trecho de sonho. Ponte para travessia ou atravessamento, moldura para um quadro-cena, fio da meada de uma rede – nova ou velha, veremos. “Sempre choro com essa música”. “Não sei porque essa música sempre entra nos meus pensamentos”. “Hoje, vindo pra cá, fiquei com essa música na cabeça”.​

Citando uma passagem importante sobre música, cito excerto de um artigo pesquisado na internet1 e que já discutimos durante este ano na iniciativa “Coletivo Música e Psicanálise”:Em jeito de desabafo, no texto que escreveu em 1914 sobre o Moisés de Miguel Ângelo, Freud disse: “Posso dizer que não sou conhecedor de arte, mas simplesmente um leigo...

Não obstante, as obras de arte exercem sobre mim um poderoso efeito, especialmente a literatura e a escultura, com menos frequência, a pintura. Isto já me levou longo tempo a contemplá-las, tentando apreendê-las à minha maneira, ou seja, a explicar-me a que é que se deve o seu efeito. Onde não consigo fazê-lo, como por exemplo com a música, sou quase incapaz de obter prazer. Uma inclinação mental racionalista, talvez analítica, revolta-se contra o facto de me comover com uma coisa sem saber porque sou afetado ou porque é que me afeta”.​

Pareceu-nos que, longe de não se afetar, apenas a impossibilidade ou dificuldade em dar sentido simbólico à experiência já nos apontam o quanto é intrigante isso que ocorre na experiência com a música. Inclusive, nessa experiência do Coletivo Música e Psicanálise, além dos muitos textos (e músicas) que compartilhamos, algumas passagens chamam muito a atenção, como o momento do filme “Filhos do Silêncio”2 em que o professor de surdos, enamorado de uma moça surda, é solicitado por ela a explicar o que sentia quando ouvia música. Cena marcante em que o ator – William Hurt – criativo e recursivo, expressa aquela mesma “impossibilidade freudiana” de transmitir, encenar, simbolizar o que sentia ao ouvir Bach, Mozart ou Chopin, compositores com os quais se inebriava em sua casa.​

Concluo esta reflexão compartilhando uma outra experiência: uma gravação que pode ser conferida neste link3. A música escolhida em acordo com o recém-feito amigo e colega nas trilhas da psicanálise, Giovani Malini – instrumentista virtuoso, docente de teoria, harmonia e improvisação –,  foi “Cajuína” (Caetano Veloso – 1979). Ela nos toca por sua letra um tanto hermética em uma primeira aproximação, mas vale mencionar resumidamente a história da composição, relevada a mim especialmente no livro “Verdade Tropical” (2017), que fala de como Caetano condensa a dor da perda do amigo e parceiro Torquato Neto, em 1972, por suicídio, em uma música que lhe ocorre após a visita, anos depois, ao pai de Torquato, em Teresina-PI, em que confraternizam-se, saudosos, tomando uma cajuína4 na sua casa.​

Tocar, cantar e compartilhar uma experiência de gravação, mesmo que à distância de mais de 1.300km que nos separa fisicamente, nos aproximou e pôs em jogo nossas histórias, nossas habilidades, mas também, em última instância, nossos corpos – que é por onde, ao fim, flui a insistente pulsão, entrecortada por alguns fugazes momentos de alívio.​

Torço para que gostem.​
Aos que não gostarem, torço para que nos demandem novas gravações.​ Pois é o que insiste em nós.

1. anabelamotaribeiro.pt/freud-nao-gostava-de-musica
2. play.google.com/movies/Os_Filhos_do_Silencio
3. youtu.be/R_0wp7MqdmM
4. mixologynews.com.br/cajuina-caatinga-nordeste

Lógica booleana, nó borromeano e a clínica

Sheila Skitnevsky Finger

Psicanalista, membro de Escola da EPFCL
e do Fórum São Paulo

Ao longo do cartel Lógica e Topologia1, estudamos o livro Logicomix2 e o Seminário 213 de Lacan. Um cartel semeia produtos quando ecoa e reverbera em várias elaborações, não apenas no escrito considerado como produto.

Das elaborações, uma questão: em O Aturdito4 Lacan apresenta a direção do tratamento representada na topologia de superfície: do toro neurótico, através de cortes e costuras, à construção e corte do crosscap separação da fantasia em banda de moebius ($) e rodela esférica (obj a). O que não estava ainda nesta concepção topológica que o fez seguir além, para a topologia de nós? Consenso: se a topologia de superfície aponta para a continuidade do inconsciente estruturado como linguagem, os nós incluem de forma inequívoca o vazio, o furo. São passos de Lacan tanto na clínica quanto na teoria.

Ao revisitar o cap 13 do seminário 21, para encontro com colegas membros do fórum SP, vislumbrei uma volta a mais: Lacan segue os passos de George Boole, da lógica proposicional à representação algébrica, e propõe um caminho para a lógica do não-todo, articulando lógica matemática e nós borromeanos.

Como acompanhamos em Logicomix, na definição aristotélica, lógica é um raciocínio novo e necessário, com conclusões irrefutáveis. A partir de 2 afirmações já conhecidas, produz-se uma conclusão nova e necessária. Ex: todos os homens são mortais; Sócrates é um homem, portanto Sócrates é mortal. Foi isso que Leibniz transformou em um sistema simbólico; e Boole levou adiante, criando uma lógica algébrica binária, 0 ou 1; V ou F.

Lógica: é um sistema, é uma ferramenta, você decide como vai usá-la5.​

Com Logicomix, a lógica de forma cômica: ao visitar Frege, Russell o encontra no jardim sem saber quem era. Diálogo:​

Com licença, esta é a casa do professor Frege? Não, este é o jardim dele. A Casa fica ali. O professor está em casa? Não, está no jardim. Eu sou o professor. E o senhor?​

Frege dialoga com Russell:​

De Aristóteles a Boole, os lógicos usam silogismos como Sócrates é um homem. Mas se queremos estudar a matemática em si, da perspectiva da lógica, precisamos de variáveis, como X é um homem.​

Lógica proposicional6: estuda operações envolvendo proposições:​

Proposição: sentença declarativa afirmativa ou negativa, com valor lógico V ou F:
• Todos os homens são mortais à sentença declarativa afirmativa. Por ser verdadeira, seu valor lógico é V.
• 7 + 5 = 10 à sentença declarativa afirmativa. Por ser falsa, seu valor lógico é F.
• x – 2 = 5 à Não é proposição, pois não se sabe o valor de x. Para torná-la proposição, há que incluir quantificadores: para todo x, pertencente a números inteiros,  x - 2 = 5. Aí temos proposição, com valor lógico F, pois só 7 é verdadeiro.

3 princípios regem Proposições:
• da Identidade: Uma proposição V é Verdadeira, e uma proposição F é Falsa
• do Terceiro Excluído: Uma proposição é V ou F não existindo 3ª possibilidade
• da Não-Contradição: Uma proposição não pode ser V e F simultaneamente

Da lógica proposicional à lógica booleana binária7:

Num labirinto8:​

Um caminho X possui valor 1 se leva à saída; OU valor 0 (zero) se não leva. Se caminho X tem valor 1 até certo ponto e depois se bifurca em Y e Z, escrevemos a possibilidade de continuação correta:
X = 1; Y v Z = 1 à Se Y = 1 ou Z = 1

Ou seja, X segue com Y ou Z, e mantém seu valor 1 se Y ou Z tiver valor 1, ou se ambos tiverem. Mas cai para 0 se tanto Y como Z tiverem valor 0​

Os números 0 e 1 perdem conotação quantitativa e adquirem valor de verdade:
1 = V; 0 = F.

Há 2 formas de representar este sistema de valor:
e, representa multiplicação;
ou, representa adição.

Por quê? Para que os valores se mantenham apenas 0 e 1:

No labirinto: Se Y = 1 e Z = 1, ao representar-se e pela multiplicação, tem-se:
1 x 1 = 1. Há + de 1 caminho para fora
Porém, se Y = 1 mas Z = 0, tem-se Z ou Y = 1; representado pela adição
1 + 0 = 1. Há pelo menos 1 caminho para fora​

Se ambos forem 0: 0 x 0 ou 0 + 0 = 0: afirmações verdadeiras.
Ao contrário, se usarmos multiplicação, o 1 caminho existente não pode ser registrado:
0 x 1 = 0: afirmação falsa.

Voltemos a Lacan9: dizer Os não-tolos vagueiam (errent) não quer dizer que os tolos não erram. Se partimos do que se propõe como uma afirmação:
Se não-tolos erram à Não-não-tolos poderiam não errar?
Se x é V à x (lê-se não-x) é o que não está contido no universo como x: é não-x
Se tolo = x; Não-tolos = não x
Então negar a negação, não-não-tolo seria = tolo?
Isso apenas supõe, e não supõe nada mais, que há um universo; que se posso avançar que o universo, todo enunciado o divide [entre x e não-x]; que se possa dizer O homem, e que, ao dizê-lo, todo o resto torna-se não-homem.

Lacan escreve na lousa[x]:
x.(1-x) = 0​
Onde (1-x) é a escrita algébrica de x barrado, ou não-x.​

Lê-se nesta notação: x multiplicado por (1-x) igual a zero. Para além do x e não-x, nada, zero. Só há x e não-x. Esse e representa multiplicação, como vimos; senão, daria 1: haveria algo além da afirmação de verdade. É o que Lacan vai propor adiante, quando questiona: por que não adicionar, fazer existir, algo além, o (1 + x), ou seja, o terceiro ora excluído?11

Pela intersecção12, multiplicação:13

Se creio poder suportar alguma coisa com o NÓ BORROMEANO, algo que não é14 uma definição do sujeito, enquanto tal, não tem nada de metafísica. É na medida em que ela supõe um sujeito, que a metafísica se distingue do que tento articular de uma prática. E isso, no sentido de tê-lo distinguido de alguma coisa que é de puro lugar, pura topologia, avança-se como sendo 3 outros discursos. Está aí um fato de discurso pelo qual tento dar ao Discurso Analítico seu lugar de ex-sistência15

Lacan inclui o 3º excluído:

​Por que, indaga-se Boole, antes de escrever x = x2, e o inverso, não se poderia escrever x = x3? [Ele concebe] que a operação matemática xyz iguala-se também a zero: xyz = 0.​

Note-se que para x.y.z = 0, é necessário que ao menos um destes seja zero.​

Assim, o que é que pode impedi-lo de acrescentar a seu (1-x), um (1+x), e de acrescentá-lo não como adição, [mas como] multiplicação. ... (1-x) multiplicado por (1+x), dando (1–x2)16:
x - x3 = 0, então x = x3
x. (1-x). (1+x) = 0 à x – x3 = 0 à x = x3​

Proposta de Lacan17: incluir o terceiro termo (1+x), pela inscrição que a matemática permite: - (1+x), menos um mais xLacan aponta que por trás do dito de Boole, de que não se poderia negar o negado (não-não-x), há um dizer que aponta que esse não-não, dupla negação, ex-siste. O que Lacan usa na sequencia desta lição, articulando a lógica do não-todo.​

Para concluir, estudar lógica e topologia lacaniana são preciosos caminhos para ver como incursões lógicas de Lacan geram efeitos na clínica, apontando para a relação entre lógica, topologia e direção do tratamento. A partir desses passos, colhemos frutos, na clínica e nas possibilidades de formalização desta.

1. Cartel finalizado em 2021, com Adriana Grosman, Daniele Guilhermino Salfatis (+1), Maria Célia Delgado de Carvalho e Paulo Marcos Rona
2. Doxiadis, Apostos e Papadimitriou, C. H.: Logicomix – Uma Jornada Épica em busca da verdade. Ed. Martins Fontes, SP. 2013
3. Lacan, J.: O Seminário – Livro 21: Os não-tolos vagueiam. 1972-1973. Moebius – Publicação não comercial. Salvador, Bahia, ano 2016. Cap. 13
4. Lacan, J.: O Aturdito, in Outros Escritos. 1972. Jorge Zahar editora, RJ. pp. 448-497.
5. Logicomix, p. 103
6. Enrique Rocha. Raciocínio Lógico para Concursos - Você consegue aprender. 3ªEdição. Site Infoescola: infoescola.com/logica-proposicional
7. Lê-se buleana
8. Logicomix, p. 107
9. Lacan, J. O Seminário – Livro 21. Cap. 13, aula de 14 de maio de 1974, p. 218
10. Ibidem, p. 218
11. Ibidem, p. 221
12. Não intercessão, como está na tradução, que seria ato de interceder
13. Nota da autora: Notável em matemática significa operações e elementos frequentemente calculados, de forma que seu resultado é 1) considerado notável; 2) conhecido, não precisa ser calculado a cada vez. Os produtos notáveis encurtam o desenvolvimento em álgebra.
14. Neste texto: itálicos nas citações de JL são notações do próprio texto; negritos são notações da autora.
15. Seminário 21, p. 218
16. Ibidem, p. 221
17. Ibidem, p. 221