
Obra: Mauro Barbosa Corrêa
Contar é muito, muito dificultoso.
Não pelos anos que se já passaram.
Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas
– de fazer balancê, de se remexerem dos lugares.
O que eu falei foi exato? Foi. Mas teria sido?
Agora, acho que não.
São tantas horas de pessoas,
tantas coisas em tantos tempos,
tudo muito recruzado
(Guimarães Rosa)
Editorial
Os versos de Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas, remetem ao tema do potente Encontro Nacional da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil, realizado em novembro de 2023, qual seja, A Psicanálise entre verdade e saber. E porque trazer literatura para falar de Psicanálise? Freud (2010 [1916]) tratou fragmentos poéticos do teatro de Shakespeare em seu Alguns tipos de caráter encontrados na prática psicanalítica. Fragmentos de narrativas de acontecimentos da vida e da literatura nos auxiliam a pensar questões que atravessam os misteriosos caminhos tanto do sintoma quanto dos relatos que alguém faz de si mesmo. Lacan (1998 [1958]), em Juventude de Gide ou a letra e o desejo, por sua vez, aborda a relação entre a verdade e a poesia nos ensinando que a verdade é revelada como uma narrativa ficcional, e, como uma poesia, sua estrutura é não-toda.
Com esta inspiração apresentamos este número especial da Revista Stylete Lacaniano, trazendo para o público os prelúdios apresentados por Analistas Membros de Escola da nossa comunidade, fruto do encontro que se realizou em uma região extraordinária e belíssima do Brasil, Belém, com suas mangueiras, rios, igarapés, arte e rica comida.
A apresentação do Encontro nos foi presenteada por Tatiana Assadi em A psicanálise entre saber e verdade, na qual fala da relatividade da “verdade” no âmbito da sociedade frente ao fenômeno das fake news. Verdade e mentira, ela nos adverte, não são a mesma coisa para o senso comum, a ciência e a Psicanálise.
Que é a verdade?, de Elynes Barros, chama a atenção de que a busca da “verdade sobre si” é o motor que leva os sujeitos a procurarem uma análise. Lacan, no entanto, ensina que o conhecimento de si parece estar relacionado ao saber médico. Na Psicanálise a articulação entre verdade e saber se apresentam como enigma que se estrutura como discursos que comportam a impossibilidade de tudo dizer. Em Um saber só navegável em barcas furadas, Osvaldo Costa Martins destaca que, com Lacan, aprendemos que há um real na formação do analista e, portanto, esta é inacabada por haver algo que não cessa de se escrever. Beatriz Oliveira, em A máquina ou a vida, partindo da pergunta de uma criança sobre como dizer a verdade, conclui que se a escolha do sujeito falante é pela vida continuaremos a querer saber sobre a verdade. Dessa forma, a psicanálise é uma via de resistência. Eu, a verdade, eu falo!, trabalho de Ida Freitas, fala da verdade e mentira como dimensões do enunciado e da enunciação que apresentam os equívocos, os erros, a própria mentira como caminhos por meio dos quais o analista está em posição de elaboração de sua interpretação. Dominique Fingerman destaca que é do psicanalista que depende a “posição do inconsciente”, ou seja, é ele quem coloca em jogo o saber na experiência analítica, reflexão presente em O saber do psicanalista. Andréa Brunetto, tendo como base a leitura de “Os cantos de Maldoror” destaca a interpretação de Lacan sobre o gozo da transgressão. Associando ao fascínio pelo conhecimento dos escombros do Titanic no fundo do oceano, a autora fala do fantasma e da fantasia nas articulações entre saber e verdade do sujeito. Por fim, o trabalho de Alcione Hummel, intitulado A história de uma metade de sujeito, retoma Lacan dizendo que na psicanálise a verdade não se pretende absoluta e que o saber não livra o sujeito do sofrimento, mas está do lado do analista que, com seu manejo, seguirá na direção do tratamento permitindo com que somente o próprio sujeito possa dizer algo sobre o seu sintoma.
Nesta edição, a Galeria traz o artista paraense Mauro Barbosa Corrêa, natural do Igarapé Miri, que cultiva a arte amazônica inspirado no cotidiano das pessoas e nas paisagens ribeirinhas e que nos presenteou com sua obra original, delicada e contestadora. Mauro Barbosa Corrêa, um arte educador, produziu essas obras especialmente para a revista. Suas paisagens, os personagens, humanos ou bichos passeiam tranquilos sobre a superfície das telas, mas são profundos em seus saberes e verdades.
Kátia Sento Sé Mello
Psicanalista membro do FCL Rio de Janeiro
Apresentação do XXIII Encontro Nacional da EPFCL Brasil - 2023 - A psicanálise entre saber e verdade
Tatiana Assadi
Psicanalista membro do FCL São Paulo e AME EPFCL
(Coordenadora da Comissão Científica do XXIII Encontro Nacional da EPFCL Brasil / 2023)
Viva Belém,
Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial
Beleza eterna da paisagem
Bembelelém…”
(Manuel Bandeira, Belém do Pará)
Ao escutar sobre o lugar que abrigará o XXIII Encontro da EPFCL-Brasil lembrei-me, imediatamente, dessa estrofe do poema de Manuel Bandeira. O tilintar sonoro “Bembelelém” invita, então, para estarmos juntos neste cenário abraçado por Igarapés e Igapós na Amazônica Floresta guiados pela Régia Vi(a)tória do nosso tema litorâneo: A psicanálise entre saber e verdade.
Vivemos em um tempo em que “a verdade” se torna relativa, uma vez que o negacionismo faz barulho e as fake News proliferam. Como se ao descobrir que a verdade é sempre mentirosa, o discurso corrente tivesse feito disso uma conjuntura para tirar vantagem. Frente a esse oportunismo, a ciência, por sua vez, responde com a produção de um saber sobre o real, enquanto, da causa, ela nada quer saber. A verdade no discurso analítico, apesar de ainda se desvelar em sua dimensão não-toda, aloja um saber diferente. Nem relativismo, nem pretensão de recobrir com o saber, a verdade presente na psicanálise incide na própria carne (1955) e refere-se à experiência com a castração, ao impossível da relação sexual e ao ponto de emergência do sintoma.
O arredamento estabelecido entre saber e verdade aponta para a emergência do gozo nas bordas e lituras da relação com o Real. Embora hoje, de antemão, tenhamos acesso ao irredutível para o qual esse percurso dos passos psicanalíticos aponta, é oportuno retomarmos, nesse momento de nossa experiência, a especificidade que esses termos comportam, tanto em Freud como em Lacan. Em Freud, o desejo decidido e a escuta clínica levam a supor um saber inconsciente no sintoma e uma constante busca pela verdade do sujeito, verdade essa que esbarra, ao final de uma análise, no seixo do complexo de castração. Quanto à Lacan, a topada com essa pedra se tornará o pivô em torno do qual se desdobrará a dialética entre saber e verdade, tão somente no ponto em que o encontro com a falta no Outro esboçará o limite em que o falasser é convocado a fazer algo com isso.
Isso posto, teceremos neste Encontro da nossa Federação, um percurso pelo Ensino de Freud e Lacan que vai de um saber que segue o rio dos amores com a verdade, passando pelo paralelo entre saber e verdade, indo até a sua disjunção que, em Lacan, traduz o sinal em que o saber não sabido, insabido do inconsciente, revela a estrutura não-toda da verdade e convoca a enunciação de um dizer. Diante dos desafios que a clínica nos coloca hoje, a resposta ética do analista implica em acentuar aquilo que tange à intensão, levando em consideração esse lugar entre saber e verdade que é, justamente, onde se desenrola a interpretação analítica, permitindo por sua operação que um sujeito possa se deslocar, indo desde sua busca pelo sentido (Eu, a verdade, falo-1968-69) até seu esvaziamento, numa abertura ao equívoco (A verdade faz furo ao saber – 1971). E é, sobretudo, a interpretação do analista que permitirá restituir o valor da verdade enquanto separada do sentido e, no entanto, não universalizada.
Que possamos cuidar, desta maneira, de nossa constante e contínua Formação, nos preparando para este instante-lugar com portas abertas para os debates em que as linhas tracejadas toquem a intencionalidade da psicanálise dirigindo sua extensão!
Prelúdio I
Que é a verdade?
Elynes Barros
Psicanalista Membro do FCL Fortaleza
e AME EPFCL
A pergunta de Pôncio Pilatos ecoa sem resposta1…
E ela ainda, encore, en-corps, insiste hoje; é comum que os sujeitos, ao procurarem uma análise, venham em busca da ‘verdade sobre si’, ou como dizem alguns, ‘quero me autoconhecer’. Porém, Lacan adverte que esse autoconhecimento é a higiene2 e que talvez esse conhecimento estaria mais propício ao saber médico, que lida com as doenças. Há, portanto, uma relação entre verdade e saber, mas como elas se articulariam? O que seria então a verdade como saber?
Lacan responde a essa pergunta dizendo que é um enigma, um enigma que ele poderia ter enunciado de várias formas, como por exemplo: “duas patas, três patas, quatro patas, o esquema de Lacan”; ou: “é um homem, um homem quando criança de peito. Aí começou com quatro patas.”3 A enunciação do enigma remete ao que ele elaborou como discursos. A estrutura dos quatro discursos comporta uma impossibilidade, o impossível de dizer tudo, de dizer “A verdade”. A função do enigma é ser um semi-dizer e é a mesma da verdade, que nunca pode ser dita a não ser pela metade, e Lacan salienta que nenhuma abordagem da verdade pode ser feita e ter qualquer evolução se não levar em consideração isso, de que para além de sua metade, não há nada que se possa dizer.
O que descobrimos na experiência de qualquer psicanálise é algo da ordem de um saber e não do conhecimento e o conhecimento adquirido pelo estudo da psicanálise não alcança esse saber, por se tratar de um saber muito particular: trata-se da ligação, numa relação de razão, isto é, ligação entre duas grandezas, entre o significante S1 e o significante S2. Interrogar essa ligação, o que liga S1 ao S2, está no cerne da experiência analítica; contudo há que se deixar claro que esse saber de forma alguma poderia se constituir como uma totalidade, isso é uma ilusão. O S2 se específica exatamente por não saber tudo.4 Mas o S2 não está sozinho; Lacan diz que a barriga do grande outro está repleta de S2!
E é essa barriga repleta que dá as bases para essa fantasia de um saber tudo. É isso que está em jogo no discurso do mestre, esse querer saber tudo, que nada mais é do que o amor a “A verdade”. O que o analista institui é a histerização do discurso, que é a “introdução estrutural, mediante condições artificiais do discurso da histérica”5. No discurso do analista, o S2 está do seu lado, sob a barra, o que nos leva a interrogar: O que quer dizer que esse S2, no discurso do analista, venha no lugar da verdade? É justamente saber que, se essa verdade só pode ser meio dita, a estrutura da interpretação também comporta “um saber como verdade”, isto é, um enigma.
É assim que a interpretação também traz a marca da castração. Se a análise não é ‘autoconhecimento’, do que se trata numa análise? Numa análise trata-se de, no giro dos discursos, operar, então, uma redução significante. Lembro de uma vez ter dito na minha própria análise “Tenho a impressão de que chego aqui arrastando um saco de pedras e volto com duas, três no bolso”. Essa redução significante possibilita cifrar o gozo, o que não é nada fácil, pois envolve uma perda, perda de gozo, e nem sempre se está disposto a perder – ‘na verdade’, é esse todo drama do neurótico, não querer perder nada, nem a bolsa, nem a vida.
A redução significante opera também na liquidação do sujeito suposto saber6, quando o analisante se dá conta do que seu analista foi para ele. Nomear o que ligou um ao outro, a suposição de saber que sustentou todo o percurso de uma análise, permite que o analisante dê o passo em direção à saída, a partir de uma dedução/redução lógica.
O que se pode extrair de saber numa análise é que “o amor a verdade é o amor (…) ao que a verdade esconde, e que se chama castração”7. O não-querer-saber-nada-disso, ou a paixão pela ignorância, assim como “A verdade”, sustentam a impotência. E como sair disso, desse disco – dis-que (disque)8? A saída da impotência para a impossibilidade passa (pas – pas-de-sens – puis sans9) por abrir mão “d’A verdade”: passe.
1. Referência ao julgamento de Jesus. João, capítulo 18, versículo 38.
2. Lacan, J. O Seminário, livro 19, …ou pior. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 2012, p. 215 e 216.
3. Lacan, J. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise, 1969-1970 – Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1992. p. 34
4. Idem
5. Idem, p. 31
6. Lacan, J. Seminário 11, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Jorge Zahar Ed. 1998, p. 253.
7. Lacan, J. Idem, p.49
8. Lacan, J. A Terceira. In: Textos complementares ao Seminário 22- RSI. São Paulo, Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo, 2022, p. 38.
9. Lacan, J. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise, 1969-1970 – Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1992. p. 53 e 54
Prelúdio II
Um saber só navegável em barcas furadas
Oswaldo Costas Martins
Psicanalista Membro do FCL Fortaleza
e AME EPFCL
É o saber que circunscreve o real, tanto possível como impossível. Essa é minha fórmula conhecida.
(Lacan, Radiofionia)
Todo saber é um fragmento.
(Freud)
Nos debates cruciais sobre a formação do analista e sobre a Escola, repletos de diferenças e desentendimentos ao longo dos tempos, há um ponto que não pode ser contestado: a necessidade da análise pessoal. Existem muitas razões para tamanho destaque e, considerando que nunca é demais reiterar sua importância, indico neste prelúdio algumas articulações possíveis entre formação do analista, Escola e o tema do Encontro de Belém, em 2023. Dizer que um analista se produz primordialmente no divã é afirmar que sua função depende diretamente do trabalho que terá sido feito com o inconsciente no decorrer de sua análise.
Em 1939, Freud enfatizou que “aquilo que o paciente vivenciou (erlebt[1] hat, em alemão) sob forma de transferência, ele não volta a esquecer; isso tem para ele uma força de convicção maior do que tudo o que teria sido adquirido por outros meios” (p. 99). Não estaria concernido aí algo sobre a transmissão também? Se analisarmos sob a perspectiva lacaniana, podemos acrescentar que, em última instância, o que se transmite em uma análise é a falta, algo do objeto causa do desejo. Nessa dobradiça, análise pessoal e Escola se articulam, pois não poderíamos encontrar uma transmissão dessa natureza senão no divã e no dispositivo do passe.
A relevância e congruência das teorizações lacanianas tornam-se evidentes aqui, ao se considerar a formação do analista e a Escola intrinsecamente ligadas à ética e à política que balizam uma análise. De fato, podemos encontrar um fundamento compartilhado pela Escola, a psicanálise em extensão e pela formação do analista, que é a psicanálise em intensão. Esta, por sua vez, não pode dispensar a referência à castração.
Nesse contexto, o tema proposto pelo Encontro Nacional de 2023 ganha um lugar especial uma vez que o debate que o animará nos conduzirá inevitavelmente à verdade como aquilo que faz furo no saber e impossibilita que ele seja completo. Aliás, Freud já afirmara que Hans “experimentou muito cedo que todo saber é um fragmento e que cada etapa deixa cair um resto não solucionado”.
Com Lacan, diremos que a verdade não pode ser toda dita e tudo a que se acessa são fragmentos, semidizeres. O saber é então tomado como buril do real em cuja natureza fragmentária a verdade se inscreve como falha, castração, impossível. Tal perspectiva sobre o saber ecoa na afirmação de Lacan de que há um real na formação do analista. Nesse sentido ela será sempre inacabada já que há uma constância de algo que nunca cessa de não se escrever.
Quanto à Escola, talvez ela possa ser chamada, em Belém, de estuário dos restos que se decantam das experiências singulares das análises, esses rios navegáveis apenas em barcas furadas, onde se perde a ilusão de um dia encontrar o todo oceânico.
FREUD, S. Análisis de la fobia de un nino de cinco anos. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1992, Vol. X, p. 83.
FREUD, S. Compêndio de Psicanálise e outros escritos inacabados. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.
1. Sugiro a leitura do texto de Fulvio Marone, A experiência do passe, em Wunsch 12, especialmente no que diz respeito aos significados e uso das palavras Erfahrung e Erlebnis em Freud
Prelúdio III
A máquina ou a vida
Márcia Penteado Beatriz Oliveira
Psicanalista Membro do FCL São Paulo
e AME EPFCL
Que digam que um computador pense, tudo bem, mas que ele saiba, quem vai dizer isso?
(Lacan, 1972, p.192)
A questão de onde parto para este prelúdio, remete a uma fala que escutei de uma criança que um dia me pergunta: “como posso saber quem fala a verdade? Meu pai ou minha mãe?” Assim formula essa criança seu impasse maior, que o traz à análise e o faz sofrer. Desencontro entre Um e Dois, entre o sujeito e o Outro. Outra maneira de dizer: como resolver o fato de que não há relação? Eis a questão: de que verdade um sujeito fala em psicanálise? O que se pode saber disso?
Na primeira lição de seu Seminário XX, justamente onde Lacan tratará de um modo de gozo não todo inscrito na função fálica, em que se formula a disparidade entre os modos de gozo, ele apresenta a seguinte fala: “eu não quero saber de nada disso”, referindo-se à posição analisante que o sustentava em seus seminários. Ora, o que não se quer saber? Que no campo do gozo, nem tudo passa pelo significante? Que não há complemento para o amor? Que a única verdade posta para todo ser falante é o furo que a linguagem impõe? Não por acaso, ao tratar do “Saber do psicanalista”, Lacan já nos apresenta a tese posta no título de nosso próximo Encontro Nacional: “articulei que essa fronteira sensível entre a verdade e o saber, é precisamente aí que o discurso analítico se sustenta”. (Lacan, 1971, p.15)
De saída, isso já nos convoca, enquanto psicanalistas, a nos situarmos na contramão dos discursos que buscam uniformizar os modos de gozo, que situam o saber acéfalo no lugar de agente colocando o outro como objeto (Discurso Universitário) ou ainda, do Discurso Capitalista que forclui o laço social na medida em que o sujeito, enquanto consumidor, encontra nos gadgets ofertados pelo mercado a saturação para sua infelicidade e mal-estar.
Ora, como sustentar um discurso avesso à promessa de bem-estar e felicidade que essa cultura capitalista tão astuciosamente implantou? Aí podemos situar a radicalidade de Freud ao propor a “talking cure” como única via de tratamento para o mal-estar humano. Sustentado pelo amor de transferência, o sujeito recupera na função da fala, aquilo que permite saber sobre a ficção da verdade que o sustenta. Assim podemos entender porque Lacan tratará o saber como “meio de gozo”: “A fundação de um saber é que o gozo de seu exercício é o mesmo de sua fundação” (Lacan, 1972/2010, p.192).
Ou seja, somente pela experiência da fala, que se adquire um saber sobre esse lugar da verdade. Ora, acho esse ponto fundamental para entendermos isso que Lacan anuncia nesta mesma lição do seminário: “Que digam que um computador pense, tudo bem, mas que ele saiba, quem vai dizer isso?” (Idem) Ainda que se suponha que uma máquina produza conhecimento, ela nada pode saber dessa própria experiência, desse próprio exercício de produção. Aliás, um ótimo ponto de partida para se colocar em questão os efeitos das Inteligências Artificiais, a “bola da vez” a ser consumida como solução para o impossível da linguagem dizer tudo. Dessa forma, o que poderia fazer resistência à forclusão do laço? Estaremos sendo otimistas demais em apostar que a psicanálise, por sustentar que a única forma de saber se dá pela via desse laço transferencial e de fala, poderia ser uma saída?
Quero crer que, seguindo Freud no “Mal-estar da cultura”, o homem continuará sofrendo de sua impotência diante do poder da natureza, da fragilidade de seu corpo e da insuficiência das normas que regulam os vínculos entre os homens (Freud, 1930, p.85). Resta como questão se os seres falantes continuarão a buscar no laço com o outro abrigo para este mal-estar, como dizia Freud, ao invés de gozarem com suas máquinas. Entre a máquina ou a vida, talvez possamos apostar que a escolha forçada do sujeito continuará sendo pela vida. Se essa for a escolha, os seres falantes continuarão a querer saber sobre a verdade e assim, a psicanálise continuará sendo uma via de resistência.
Freud, S. – (1930) El malestar em la cultura. In: Obras completas. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1988, vol 21.
Lacan, J. (1971-1972) O Saber do Psicanalista. Publicação para circulação interna – Centro de Estudos Freudianos do Recife.
Prelúdio IV
Eu, a verdade, eu falo!
Ida Freitas
Psicanalista Membro do FCL Salvador
e AME da EPFCL
[….] não porque a fala não seja o veículo natural do erro, o veículo da eleição da mentira e o veículo normal do mal-entendido, mas porque ela se desdobra na dimensão da verdade e assim a suscita, ainda que para horror do sujeito. Este é o truísmo por excelência […]
(LACAN, 2003 [1958], p.181)
O XXIII Encontro Nacional da EPFCL – Brasil desponta como um evento que promete, de saída, convidativas novidades para sua realização. Primeiramente, pela região escolhida, a capital do Estado do Pará, a preciosa Belém, cercada por seus imensos e abundantes rios e pela riqueza da Floresta Amazônica, tão ameaçada pela ganância e ignorância que em muito contrasta com a verdade e o saber dos povos indígenas que nela habitam, na defesa de seus territórios, mas também pelo tema proposto – “A psicanálise entre saber e verdade”. Apesar de tocar o coração da prática analítica e, portanto, sempre nos detemos sobre ela, nunca antes essa temática foi abordada em nossos encontros com tamanha relevância, mais uma vez nos reconduzindo à teoria da práxis a partir desses marcadores.
São inúmeras as tonalidades e caminhos possíveis a se trilhar da verdade e do saber no ensino de Freud e Lacan, elegi abordar no presente prelúdio a relação entre verdade e mentira. Em “A psicanálise verdadeira, e a falsa”, (2003 [1958], p.173), Lacan distingue a verdadeira psicanálise da falsa, situando a ideia de uma psicanálise autêntica e uma psicanálise conforme a verdade evidenciada por sua experiência. Indica, assim, aquilo que jamais devemos negligenciar, ou seja, que a psicanálise verdadeira tem seu fundamento na relação do homem com a fala, e é a partir desse eixo que se deve julgar e avaliar seus efeitos, porém não só os terapêuticos, mas aqueles que se apresentam “como revelação de uma ordem efetiva em fatos até então inexplicáveis, na verdade, aparecimento de fatos novos” (2003 [1958], p.173).
O que seria da prática psicanalítica se não tivesse o alcance de produzir fatos novos? Ainda que seja um novo saber sobre a verdade recalcada e novas formas de lidar, se virar com o sintoma? O que por experiência, bem sabemos, que chegar aí não é pouca coisa. A partir de sua leitura de Santo Agostinho, Lacan (1983 [1953-54], p. 298) localiza a dimensão da verdade como consequência de se colocar a palavra como causa.
À ideia agostiniana de que a palavra pode ser enganadora, Lacan acrescenta que, se a escutamos, esta se afirma como verdadeira. Afirmação que ressalta a importância do ouvir, em especial, a partir da equivocação que comparece nos lapsos, nos sonhos, atos falhos, palavras que tropeçam e, por isso mesmo, podem confessar e revelar a verdade oculta, esquecida, não sabida. Ainda no diálogo com Santo Agostinho, Lacan traz a dimensão do erro enquanto o que “só é definível em termos de verdade” (1983 [1953-54], p. 300) e sua demonstração implicará a contradição, uma vez que é pelo discurso que esta estabelece a separação entre verdade e erro.
Ao falar sobre o abandono do filho aos estudos, uma mulher deixa escapar o lapso: “ele está tocando numa bunda de música”. A simples troca de uma letra, u por a, é capaz de trazer à luz para o sujeito, a verdade inconsciente, seu julgamento íntimo em relação ao filho, sua sexualidade e a depreciação de suas escolhas, abrindo as portas para a elaboração de saber.
Não é incomum psicanalistas que atendem crianças receberem pais preocupados com a índole de um filho mentiroso, que esconde suas notas, que acusa o colega por seus atos ou, ainda, que inventa aventuras impossíveis como verdades. A preocupação dos pais se fundamenta na moral social, no temor de que seu rebento se torne “mau caráter”. Como diz o verso da letra da música “Tempo rei” de Gil (1984), “mães zelosas, pais corujas, vejam como as águas de repente ficam sujas”.
Sem retirar a legítima preocupação e importância com a educação de seus filhos, a psicanálise vai em outra direção, se orienta não pelo moralismo da verdade, mas pela ética do bem dizer, que acolhe a mentira, o ato, a ficção, na transferência, como formas de, através das elucubrações e elaboração de saber, fazer falar a verdade, sobre o desejo, o gozo, o sintoma. Também encontramos no cotidiano de nossa clínica, na fala dos analisantes, o compromisso com a verdade, a intenção dizê-la toda “tenho que falar a verdade, não vim aqui para lhe enganar, nem me enganar, seria perda de tempo e dinheiro”.
Através desse dito, porém, um saber se apresenta com relação à verdade, a impossibilidade de dizê-la toda, o que leva o analisante, a se flagrar em suas tapeações e interrogar verdades que jamais havia contestado que acabam por cair por terra. Com relação à verdade e seus destinos em uma análise, o psicanalista em sua prática, está em desacordo com a moral social, com os bons costumes, e até com a filosofia que, segundo Platão (2017, p. 485 b) cultiva a preocupação com a verdade, tendo, portanto, aversão à mentira.
Lacan situa o lugar da mentira em sua dimensão de verdade: verdade e mentira como dimensões do enunciado e da enunciação, como podemos localizar através do clássico exemplo freudiano da história de enganação judia do trem, no qual um dos personagens diz a verdade para que o outro pense que está mentindo. “É primeiro como se instituindo numa e mesmo por, certa mentira, que vemos instaurar-se a dimensão da verdade, pois a mentira, como tal, se põe, ela própria, nessa dimensão da verdade” (Lacan, 2008 [1964], p.132).
E é nesse caminho de erro, equívoco, contradição, mentira, tapeação no qual o sujeito se aventura em sua trilha analítica, que o analista está em posição de formular sua interpretação: “Você diz a verdade”. Ao dar voz à verdade, Lacan (1998[1956]. p.410) afirma que ela fala por si mesma, “Eu, a verdade, eu falo”, e que esta irá encontrar uma forma para se dizer, ainda que, seja enquanto “eu, a verdade, eu minto”, mentira sobre o gozo, visto que só é possível meio-dizer a verdade enquanto que sua parte não – dita, causa sua miragem.
Aproximando poesia (Dichtung) e verdade (Wahrheit), Lacan (1998 [1958]. p. 752) nos relembra que “toda verdade se revela numa estrutura de ficção”, uma outra forma para a expressão “verdade mentirosa”. A operação poética, com sua estrutura de ficção, que se faz através do saber fazer com a letra, que por sua vez tem contiguidade com as leis do inconsciente, é a via pela qual a meia verdade se revela.
Como diz o poeta “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente se recorda, e como recorda para contá-la” (Garcia Marques, 2003). A partir do “dizer que não” à insistência do sentido, que “suspende o que o dito tem de verdadeiro” (Lacan 2003 [1972], p.452), podemos inferir que o fim da operação analítica promove dentre outras, a perda das “falsas esperanças da miragem da verdade” (Soler, 2012) e mostra o intraduzível do dizer, que ex-siste aos ditos de verdade, visto que não pertence a diz-mensão [ditmension] da verdade (Lacan 2003 [1972], p.451)
GARCÍA MARQUES, Gabriel. Viver para contar [1928].Tradução de Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Record, 2003
GIL, Gilberto. Tempo Rei. Intérprete: Gilberto Gil. In: ______. Raça humana. Rio de Janeiro: Warner Música Brasil, 1984. 1 LP (41,17 min.). 33 rpm, estéreo. 12 pol. Lado A, faixa 4 (5,09 min.). Regravado em CD em 2003.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 1: os escritos técnicos de Freud [1953-1954]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1983.
LACAN. Jacques. A coisa freudiana ou Sentido do retorno a Freud em psicanálise [1956]. In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p.402-437.
LACAN, Jacques. Juventude de Gide ou a letra e o desejo [1958]. In: ______. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p.749-775.
LACAN, Jacques. A psicanálise verdadeira e a falsa [1958]. In: ______. Outros escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. p. 173-182.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise [1964]. 2.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 17: o avesso da psicanálise [1969-1970]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1992.
LACAN, Jacques. O aturdito [1972]. In: ______. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. p. 448-497.
PLATÃO. A República: Livro VI. Tradução E. Gaia. Silveira, Portugal: Bookbuilders, 2017. SOLER, Colette. A querela dos diagnósticos, São Paulo: Blucher. 2018.p.123
Prelúdio V
O saber do Psicanalista
Conferência em Saint Anne 1971-1972: notas de Leitura
Dominique Touchon Fingermann
Psicanalista Membro do FCL França
e AME da EPFCL
“Isso que a psicanálise nos ensina, como podemos ensiná-lo?”: isto poderia muito bem resumir o questionamento que acompanhou a leitura em cartel das Conferências de Lacan em Saint Anne “O saber do psicanalista”. A questão que se coloca a nós, mais uma vez, na ocasião de escrevermos este prelúdio é como sermos passadores, aqui e agora, deste “Saber do Psicanalista” (as conferências), questão que nos acompanha no momento do ato do psicanalista, enquanto ele ocorre e, também, quando o submetemos à prova da transmissão da experiência clínica. O desejo do psicanalista, o ato do psicanalista, o discurso do psicanalista, o saber do psicanalista. Qual é a intensão específica que qualifica este artigo definido “o”, que concorda tanto com “o” psicanalista, quanto com o “único” daquilo que se espera que seja posto em jogo para que haja psicanálise (desejo, ato, discurso)? “Para que haja psicanálise” quais são, então, as condições do ato analítico?
Citemos Lacan tal como ele a define: “uma psicanálise, tipo ou não, é o tratamento que se espera de um psicanalista. » O que “se” espera “do” psicanalista é da ordem de um desejo inédito, de um ato incalculável, de um discurso novo, tantos operadores que remetem todos a uma posição única. É do psicanalista que depende a “posição do inconsciente” no laço analítico, ou seja, a colocação em jogo do saber, ao qual só o percurso de uma psicanálise dá acesso e que orienta essa “experiência do saber” em que consiste tal travessia.
Esta “experiência de saber” começa com algo que escapa completamente àquele que sofre; ele nada sabe sobre isso, mas, por sorte, pode encontrar um bom ouvinte que saberá fazer questão desta ignorância e fazê-la falar. Essa experiência da fala, “a prática do blá blá” dirigida ao analista, transportará o “não quero saber nada disso” inicial no percurso inesgotável da suposição de um saber sobre esse sujeito à deriva nisso que Freud chamou de “suas representações”, e que Lacan qualificará como elucubrações. A transferência é o vetor desta “prática de sentido” que deve encontrar o seu fim. Há, portanto, um percurso, um work in progress, uma travessia, cuja aposta é o fim da análise, ou seja, uma modificação profunda da relação com o gozo e o com o saber (cuja equivalência é notada por Lacan), através da operação do analista, ou seja, a colocação em jogo do inconsciente: o estabelecimento do saber “no lugar da verdade”. A esta travessia Lacan chamou de “Passe”.
Passe de mágica, passagem sutil do saber do psicanalisante ao saber do psicanalista. O saber do psicanalisante se orienta a partir do Sujeito Suposto Saber. O ato do psicanalista, no avesso da neurose, favorecerá o topar sobre seu impasse até que, eventualmente, o analisando possa sustentar esse “saber não sabido” (insu) sem recorrer às representações, às elucubrações, às ficções, da verdade mentirosa que vetorizaram seu endereçamento ao Outro.
Este saber causa horror porque, ao contrário do suposto saber, não tem correspondente no Outro. Além disso, ao desatarraxar todas estas teorias sexuais infantis que a neurose urdiu e confinou nos limites do fantasma, ele remete aquele que fez este percurso à sua solidão, troumática1. É nessas conferências que Lacan conecta o psicanalista com o que ele chama de “os pais traumáticos”, aquele cuja alteridade o fará topar com a solidão.
No rescaldo destas Conferências em Saint Anne, Lacan, nos seus Seminários XX e XXI, esforçar-se-á por especificar melhor este novo saber que ele, enfim, chamará de “inconsciente real”, até finalmente fixá-lo como “l’insu que sait de l’une bévue”2 em 1978: a resposta de Lacan ao Unbewusst freudiano. “O saber do psicanalista”, as conferências, abre, portanto, este momento de concluir do ensino de Lacan. Estas sete conferências são particularmente originais no seu estilo e no seu endereçamento, ainda que, quanto mais o ano avançava, mais os enunciados das Conferências de Saint Anne e do Seminário“… ou pior” se misturavam, respondendo-se uns aos outros, pois na verdade, é do que se trata de adquirir em uma análise, o saber que, de fato “há do Um” e é bem isso que causa o horror.
Lacan apresenta-se a este público em Saint Anne, como se quisesse apresentar um inventário do seu ensino em 1972, no limiar da virada borromeana que aqui se anuncia. Ele faz, portanto, um balanço dos conceitos necessários à experiência e, no decorrer de suas afirmações, no espaço de um lapso ou de um neologismo, ele joga de repente o que se esforça para dizer e que não pode mais ser esquecido “para que haja psicanálise”. A maior parte dessas “invenções” de saber, até então inéditas, deixarão seu traço, traçarão sua rota como conceitos incontornáveis do ensino de Lacan e da práxis analítica: lalíngua, falasser, matema, réson3, o (a)muro, o Dizer. Ademais, o Seminário XIX fará ressaltar nas Conferências de Saint Anne os achados da formalização lacaniana em curso: o nó borromeano, as fórmulas da sexuação, o Há do Um. A Nota Italiana de junho de 1972 (o horror de saber), a escrita do Aturdito publicado em julho, também ressoam nas linhas e entrelinhas deste “Saber do Psicanalista”.
Há nestas páginas uma precipitação do que Lacan desenvolverá em seguida até o final de seu ensino, mas diríamos que, aquilo que o psicanalista deve saber, está aqui condensado e que todos esses conceitos até então inéditos, respondem, cada um à sua maneira, à questão colocada: o que é “o saber do psicanalista”? O saber do psicanalista é que “Há do Um” e seu gozo intransmissível; É, portanto, que: Não há relação sexual e como as fórmulas da sexuação subsequentes escrevem o não- tudo; É saber da lalíngua da qual emerge o poema que é o inconsciente de cada pessoa e o matema; É o saber: o nó borromeano; É saber da ex-sistência do Dizer. Todas essas formulações remetem ao mesmo ponto de partida e de partição. A intensão da psicanálise e, portanto, a sua extensão, dependem deste saber, que somente a experiência de uma analise garante e firma com condição do ato analítico.
1. Nt.: neologismo que, em francês remete ao furo “trou” e ao “traumático”.
2. Nt.: título do seminário de Lacan que optamos por deixar no original devido a polissemia que este comporta.
3. Nt. : neologismo que conjuga raison (razão) e rèsonne (o que ressoa)
Prelúdio VI
Os fantasmas que mentem
Andréa Brunetto
Psicanalista Membro do FCL Mato Grosso do Sul
e AME da EPFCL
Estou lendo “Os Cantos de Maldoror”1, do Conde de Lautréamont, escritor do Século XIX, que morreu tão jovem e foi tão reverenciado, posteriormente, pelos surrealistas. Em seus “Os Cantos…”, tece sua tese do homem como mau, criado por um Deus maldito. Lacan o colocou, junto com George Bataille e o Marquês de Sade como escritores que evidenciaram o gozo da transgressão.2 O narrador dessa obra escreve que viveu feliz até descobrir que o homem era mau. Se o homem é assim, a culpa é de seu criador: eis sua tese. É um livro como as Confissões de Santo Agostinho às avessas: as maldades dos homens mostram as maldades de Deus. Eis um trecho que saliento aqui: “Velho oceano, os homens, apesar da excelência de seus métodos, ainda não conseguiram, auxiliados por meios de investigação da ciência, medir a profundeza vertiginosa dos teus abismos; tens alguns que as sondas mais longas, mais pesadas, reconheceram como inacessíveis. Aos peixes… isso lhes é permitido; não aos homens.
Muitas vezes, perguntei-me que coisa seria mais fácil de reconhecer: a profundeza do oceano ou a profundeza do coração humano.”3 Responderá que é a profundeza do coração humano é a mais difícil. Entre as sordidezes, as crueldades e as ilusões humanas, ele detém-se no oceano como um símbolo do impossível ao homem, a grandeza. “Velho oceano, não haveria nada de impossível em esconderes em teu seio futuras utilidades para o homem. Já lhe deste a baleia. Não deixas que os olhos ávidos das ciências naturais adivinhem facilmente os mil segredos de sua íntima organização: és modesto. O homem se vangloria sem parar, e sempre por minúcias. Eu te saúdo, velho oceano.”4 Para ele, o oceano é um senhor incapaz de ser dominado pelo homem. “O homem diz: ‘Sou mais inteligente que o oceano’. É possível; é até mesmo bem verdadeiro, mas o oceano é mais temível para ele, do que ele para o oceano: isso é desnecessário de ser demonstrado.”5 E conclui que lá embaixo, na direção do desconhecido, deve ser tudo muito grande. Escrevo tudo isso no mês seguinte em que o submersível Titan, da OceanGate, implodiu no fundo do mar, matando seus cinco ocupantes, alguns deles milionários, em busca da trilha marítima ilusória de olhar o Titanic de frente. E implode misturando nas profundezas do oceano, as profundezas dos corações humanos; escrevo assim, parafraseando um pouco Lautréamont.
Não havia pensado antes dessa forma o tanto que o navio Titanic está como uma esfinge, no fundo do oceano, como um canto de sereia seduzindo a milhares a olharem-no de frente. Em função desse acidente, voltou à tona tudo o que envolve o Titanic, incluindo aí, o diretor do filme homônimo, um dos mais vistos em todo o mundo cinematográfico até o dia de hoje: James Cameron. Ele, o diretor do filme, desceu em um submersível até o Titanic trinta e três vezes para fazer um documentário sobre esse navio-esfinge, criado para ser o melhor, o maior, o mais luxuoso, símbolo do poderio humano, que afundou no começo de sua viagem inaugural. Cameron conta que investiu milhões do que ganhou com o filme para fazer esse documentário, para unir uma equipe de cientistas, biólogos, mergulhadores, oceanógrafos e, também, contratar um navio de pesquisa russo e dois submersíveis.
O documentário começou a ser gravado em 2001 e se chama “Os fantasmas do abismo”. O diretor aparece muitas vezes no documentário, falando sobre o Titanic, encantado com seus mistérios, com um robô andando pelos compartimentos do navio deteriorado: “aqui ainda tem um lustre preservado, eis a cabine de fulano de tal, a cabeceira da cama ainda está lá”, etc. Ele quer saber como está tudo lá embaixo, tenta encontrar detalhes – minúcias, como escreve Lautréamont – que apreendam os momentos finais daqueles que se foram. Como se o iceberg não bastasse como causa.
O iceberg foi a cruz no meio do caminho – o impossível do real. Para Lautréamont, o oceano todo o é, um real, algo grandioso a que não adianta os homens se baterem. Lacan afirma que não há nenhum traço de potência no mundo antes da aparição da linguagem. “O que há de surpreendente no que Freud esboça daquilo que é anterior a Copérnico, é que ele imagina que o homem era inteiramente feliz por estar no centro do universo e que ele se acreditava rei. É verdadeiramente uma ilusão absolutamente fabulosa.”6 E Lacan dirá que a única situação em que a verdade é toda é quando diz “Eu minto”. Nessa implosão do submersível e nesse documentário “Fantasmas do abismo” está a verdade toda: “Minto”. Um saber que não se aguentou é o saber da impotência, sustenta Lacan.
Assim, podemos entender o porquê a imprensa refletiu o interesse da população do mundo em ficar olhando as buscas por um submersível que desapareceu e, por outro lado, recalcou o navio que afundou no Mediterrâneo com milhares de imigrantes africanos: olhar a morte de frente, essa grande cabeça de Medusa, não é possível. Melhor ficar vasculhando fantasmas: eles estão na mente e mentem.
E uso aqui fantasma com dois sentidos: ghost, espectro e, também, fantôme, como Lacan diz em francês, que podemos traduzir como fantasma ou fantasia. Algo que me chamou atenção. O diretor chamou seu amigo, também ator do filme Titanic, Bill Paxton, para participar do documentário.
O ator, vinte anos atrás, no começo das filmagens, desceu em um dos submersíveis – é quase um chiste que essas cápsulas que foram recolher imagem de restos, no fundo do mar, chamavam-se MIR, paz em russo – que chacoalhava e virava de cabeça para baixo. Estava só ele e o técnico que o pilotava. Cameron estava em outro submersível, intitulado MIR 2, com o técnico russo que o manejava. E Paxton, assustado, diz que não quer morrer nessa aventura.
Não morrerá. Morrerá anos depois, na mesa de uma cirurgia do coração. Enquanto assistimos o documentário é, ele próprio, mais um fantasma. O Diabo é uma fantasia afirma Lacan, para esconder o senhor absoluto que é a morte. O Titanic também o é.
1. Lautréamont, Conde de. Os Cantos de Maldoror. Tradução, prefácio e notas de Claudio Willer. São Paulo: Editora Iluminuras, 2018.
2. Lacan, Jacques. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Versão brasileira de Antonio Quinet. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991, p. 246.
3. Lautréamont, Conde de. Os Cantos de Maldoror. Op. Cit., p. 87.
4. Ibid., p. 86.
5. Ibid., p. 88.
6. Lacan, Jacques. O saber do psicanalista. Seminário 1971-72. Aula de 4 de novembro de 1971.
Prelúdio VII
A história de uma metade de sujeito
Alcione Hummel
Psicanalista membro do FCL Belém
e AME da EPFCL
Entrelinha
Caço a palavra caço-me
na palavra ato-me
à palavra
E me desato suniato-me sumo
na sombra do silêncio
da palavra?1
(MaxMartins)
Entre encontros de rios, ilhas e igarapés, estamos no norte do nosso país, na Cidade de Belém que este ano se apresentou para receber nossa comunidade para o XXIII Encontro Nacional da EPFCL-Brasil, cujo tema será A psicanálise entre saber e verdade. Na prática psicanalítica, aposta-se no encontro com um sujeito, o sujeito dividido desde sua constituição entre o saber e a verdade, o sujeito da fenda, da Spaltung. Assim, a condução de uma escuta que se pretenda analítica estará, justamente, atenta ao aparecimento disso que chamamos da abertura do inconsciente, do inconsciente estruturado como linguagem. Como ousamos dizer seguindo a lógica do poeta, uma análise que acontece num caçar das palavras, num atar-se e desatar-se delas.
O que precipita a entrada em análise é o sofrimento, que, em muitos casos, culmina numa questão que é formulada e endereçada a um analista. No percurso que aí se abre é necessário que haja consentimento do sujeito ao seu inconsciente, para que seja possível operar determinadas retificações subjetivas e, quem sabe, chegar até a destituição subjetiva no final, transformando o sintoma em algo singular, e que fale em nome próprio. Mas, estejamos advertidos de que a entrada não passa de um tempo lógico, que sucumbirá para que um outro surja, aquele que dará lugar à produção de um saber, um saber que advém do singular e que traduz o inconsciente e que permite, para alguns, passar de analisante a analista, de um sujeito às voltas com suas questões para aquele que é causa de desejo.Então, seguindo essa lógica, o que podemos dizer que ocorre na relação do sujeito com sua “verdade obscura” nesse processo? Podemos dizer que ela se revela, como que num lampejo?
A perspectiva de Lacan é bem outra. O exemplo que ele nos dá é o de alguns pássaros que só são possíveis de serem pegos se colocamos sal em sua cauda. No entanto, o pássaro com que lidamos na análise é a palavra que, por sua vez, não tem pé, nem cabeça, nem cauda. Isso só confirma a dificuldade que é acessar a verdade, pois ela levanta voo: “A verdade levanta voo no momento mesmo em que vocês não queriam mais capturá-la”. (LACAN, 1969-70/1992, p. 58) Com isso, Lacan nos faz pensar que o referencial de verdade numa psicanálise não é a que se pretende absoluta, pois só uma parte dela se representa, por se tratar desse sujeito que é dividido desde seu surgimento. A verdade, portanto, refere-se sempre à História de uma metade de sujeito. (LACAN, 1969-70/1992, p. 58)
Assim, se na entrada em análise, o que se acredita é que o saber que livraria do sofrimento está somente do lado do analista, o manejo seguirá em outra direção, pois, como se refere Lacan a respeito de nós, psicanalistas: “[...] somos supostos saber não grandes coisas” (LACAN, 1969-70/1992, p. 54). Só quem poderá dizer algo sobre o sintoma é o próprio sujeito ao se haver com suas questões. Todavia, para que se dê esse processo complexo que começa com a entrada em análise e gira em direção ao desejo do analista, é preciso que o analista ocupe o lugar de semblante do objeto capaz de causar o desejo do sujeito. Ao psicanalista, não cabe encarnar o UM, o mestre, nem agir com sua pessoa, mas sustentar esse semblante de objeto que permite ao analisante trilhar seu percurso analítico e, assim, construir algo a respeito do enigma que o acompanha. Espera-se que em uma análise a demanda por um saber pleno possa ser refutada, para que um novo saber seja produzido, um saber que comporte o furo. Esse saber que usa da repetição, do gozo, para se compor, como anuncia Lacan no Seminário O avesso da psicanálise: “o saber como meio de gozo” (LACAN, 1969-70/1992, p. 53).
Nessa forma de pensar a relação entre saber e verdade numa análise, é possível concluir que é ao alcançar que “nenhuma evocação da verdade pode ser feita se não for para indicar que ela só é acessível por um semi-dizer” (LACAN, 1969-70/1992, p. 53) é que se torna possível ao sujeito consentir com o furo no saber, que é ao mesmo tempo, extração de gozo. Enfim, sabemos que Lacan tocou na questão da verdade e sua relação com o saber em diferentes momentos de sua obra, e isso é bem mais complexo do que o que se pode dizer por aqui, porém nós teremos a oportunidade de discutir, pensar e elaborar questões a esse respeito durante o nosso Encontro. Que ele seja profícuo!
Referências Bibliográficas:
LACAN, J. (1969-1970/1992) O Seminário livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
1. 60/35: poesia. Belém: ed.ufpa, 2018, p. 49.








