editorial 

O que vem depois do "Pandemundo"?

 

José Maurício Loures*


No ano de 2020, fomos surpreendidos pelo advento da pandemia da COVID-19. Diante de uma invasão do irrepresentável, que se manifestou a partir de uma hiperprodução de destruição, a equipe de Stylete Lacaniano trabalhou no sentido de fazer a psicanálise operar como transmissão de um saber singular, indo na contramão do universo da comunicação fácil.

Nesse sentido, suspendeu-se o andamento das edições no modelo até então adotado, para dar espaço a uma série de publicações intitulada “Pandemundo”, de Stylete Urgente, assumindo o formato de uma “vídeo-revista”. E analistas dos Fóruns do Campo Lacaniano de diversas partes do mundo foram convidados/convocados a intervirem nesse novo espaço de reflexão e veiculação do que se pôde decantar do mal-estar que a pandemia impôs em diversos âmbitos. 

O solo comum entre muitos analistas de nossa comunidade parece estar no posicionamento diante das coisas como se apresentam hoje, bem como em uma aposta na psicanálise e no seu poder de intervenção crítica, inconformismo, dúvida e potencial de promover mudanças. A psicanálise, assim, se insere como um dispositivo capaz de modificar o quadro dado, oferecendo novas lentes para olhar a vida. 

É assim que, em um mundo carregado de totalitarismos, intolerâncias e ditaduras outras – mesmo as mais invisíveis –, ainda assim, buscamos continuar pensando esse mesmo mundo, porém indo contra a corrente, acreditando no potencial de reinventá-lo. E este é um primeiro passo para transformar e doar mais dignidade ao tempo presente.

Hoje, novembro de 2021, nos perguntamos: o que vem depois do “Pandemundo”?

Nesta edição de Stylete Lacaniano...

 

Nádia Martins, em seu texto “Da solitude ao solidário: uma estratégia de sublimação”, aborda a pandemia da COVID-19 como catástrofe natural que chegou como corte num excesso de gozo da humanidade produzindo, assim, um marco na nossa história, de modo que uma nova forma de ação psíquica se faz necessária, uma mudança de discurso.

No texto “Entre esperas e lembranças: tempo, fotografia e um quê de real verde-oliva”, Tarcísio Greggio apresenta sua primeira versão do texto de abertura da exposição virtual “E agora? O Brasil e a pandemia de Covid-19 em 24 fotografias de Ale Ruaro”, inaugurada em agosto de 2020 no Memorial da República Presidente Itamar Franco, da UFJF, do qual foi diretor até meados de 2021. 

Também, Cecília Alazraqui nos brinda com seu texto intitulado “Dalí: a arte ordena o caos”, em que nos ensina, com a arte de Salvador Dalí, que é possível erotizar a pulsão de morte e [...] reescrever a própria história, como quer a psicanálise, inserindo-se no laço social através do trabalho e do amor. 

Na sequência, buscando uma aproximação entre o ato performático e o ato psicanalítico, Zélia Maria Gouvêa Carmo, em “O ato performático e a interlocução com o ato psicanalítico” reflete sobre a obra da artista brasileira Aleta Valente, e considera que a arte contemporânea é marcada por um verdadeiro retorno do sujeito, no real. 

Em “O Incorporal Estoico: um tratamento ao corpo lacaniano”, Viviana Senra Venosa questiona: de que corpo se trata na psicanálise lacaniana? Seguindo os passos de Lacan em muitos momentos de seu ensino, ao falar sobre o corpo, aborda os “incorporais” no estoicismo antigo, concluindo que o corpo do qual a psicanálise trata é, portanto, incorporal enquanto causa do desejo e seu efeito de sujeito incorporado. 

Em tempo de concluir, Thissiane Fioreto, em “Um caso sério”, nos brinda com uma reflexão poética sobre a solidão. Eu grito com ela. Ela grita comigo. E acabamos abraçadas e em silêncio.

Dedicamos à arte desta edição as obras do Museu do Pontal, considerado o maior e mais significativo museu de arte popular do país - agora com nova sede, na Barra da Tijuca. Seu acervo - resultado de 45 anos de pesquisas e viagens por todo país do designer francês Jacques Van de Beuque - é composto por cerca de 9.000 peças de 300 artistas brasileiros, produzidas a partir do século XX.
 

*Psicanalista, membro do Fórum Rio de Janeiro, da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano.

styelete lacaniano. ano 6, número 20.