editorial 

História.

 

Francina Evaristo de Sousa*

"Aquilo foi somente um prelúdio;

onde se queimam livros, ao final queimam-se também pessoas." (Heinrich Heine, Almansor: Eine Tragödi, 1821)

 

“Todos os esforços para estetizar a política convergem para um ponto. Esse ponto é a guerra.” (Walter Benjamin, Estética da guerra, 1935/36)

A recente e abjeta encenação nazifascista protagonizada pelo, agora, ex-Secretário de Cultura, Roberto Alvin, evidenciou de forma clara e direta, se é que havia ainda dúvida, a perspectiva totalitária a partir da qual governa-se hoje o Brasil. Digno do mais veemente repúdio, sintoma do pior, tal episódio convoca-me a um breve resgate histórico.

Em janeiro de 1933 Hitler subiu ao poder. Grupos estudantis ligados ao Partido Nazista, apoiados pelo Ministério da Propaganda de Hitler, comandado por Joseph Goebbels, que foi quem o ex-Secretário pretendeu mimetizar, promoveram então uma campanha com discursos públicos, publicações e propagandas de difamação, de acusação e de perseguição a intelectuais e artistas (sobretudo escritores), com o objetivo de incitar a população a expurgar a produção intelectual e artística que divergisse da ideologia e dos valores nazistas.

O ápice desta campanha deu-se na noite de 10 maio daquele mesmo ano, noite que ficou conhecida como “A grande queima de livros”: em várias cidades da Alemanha, multidões se reuniram para queimar livros em praça pública. Karl Marx, Thomas Mann, Albert Einstein, Franz Kafka, Ernest Hemingway, Robert Musil, Marcel Proust, dentre muitos outros, e, é claro, Sigmund Freud, foram para a fogueira.

A propósito deste evento, Freud escreveu, com um tom de ironia, de Viena a Ernest Jones: “Quanto progresso! Na Idade Média, teriam me queimado; agora limitam-se a queimar meus livros”. Freud, que àquela altura já havia escrito “Psicologia das massas e análise do eu” e “O mal-estar na civilização”, talvez não tenha avaliado bem a dimensão e gravidade da situação. Ele sabia que o homem é lobo do homem, sabia da inclinação do humano e da civilização em autodestruir-se. Mas sempre apostou na palavra, no amor, nas artes, na ciência, no saber.

O escrito ultrapassa o escritor e estar em meio ao olho do furacão pode nublar a visão, até mesmo do gênio, quando a tempestade se avizinha. A fumaça daquelas fogueiras de livros era apenas o prenúncio dos gases que em breve intoxicariam a Europa e, em certa medida, outros continentes. A verdade é que muitos não puderam compreender que, naquele momento, os limites da barbárie estavam prestes a ser reatualizados.

Em 1938, a simples notícia de que Hitler estava a caminho da Áustria para anexá-la, foi suficiente para que massas compostas por austríacos atacassem brutalmente judeus, comunistas e sociais-democratas (também austríacos, é bom lembrar). O espirito nazista já os havia contaminado, a violência estava no ato.  

Graças aos esforços internacionais, sobretudo de Marie-Bonaparte, Sigmund Freud e seu núcleo familiar conseguiu escapar da morte exilando-se em Londres. No entanto, o fim de parte de sua família não foi diferente daqueles livros queimados em praça pública.

Hoje, o fenômeno das fake news faz incessante eco da famigerada frase de Goebbels: “uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade.” Na “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, Lacan prevê, atrelado ao laço social promovido pelo discurso capitalista, uma “ampliação cada vez mais dura dos processos de segregação”. Quanto às propostas de extermínio sistemático da diferença, representada na lógica nazista pelo judeu, não nos esqueçamos de que o lugar da diferença a ser submetida e em última instância desumanizada, segregada e expurgada, corresponde a um vazio passível de ser ocupado por qualquer significante: ativistas em defesa dos direitos humanos, pobres, indígenas, negros, mulheres, lgbtq+, artistas, refugiados, comunistas, umbandistas, ateus, etc, etc, etc...

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Nesta edição:

Em seu escrito, Antonio Quinet lança um olhar para o personagem Hamlet, de Shakespeare, a partir de seu aspecto adolescente. E desemboca no amor, este que faz brilhar “todas as metáforas no firmamento infinito da linguagem”. “To be or not be in love sem adolescer?”, eis o texto em questão;

 

“O tempo no laço social: da aceleração ao discurso do analista”, texto de Osvaldo Costa Martins, é uma digressão na qual o autor discorre sobre o tempo. Cronos, “oponente cruel” que nos devora, mas do qual se tem fome, “fome de tempo”, tempo que, ele próprio astutamente tornado mercadoria, parece sempre faltar.

 

Em “A vida, insistência”, texto rico em miudezas no qual, paradoxalmente (ou não) é da pobreza que se escreve, Pricila Pesqueira de Souza, servindo-se da literatura de Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Clarice Lispector reflete sobre a pobreza, e não apenas a material, afinal “existe a quem de fato falte o delicado essencial”.

 

Por que Paula Rego? Através de uma produção audiovisual e desenvolvendo esta questão, Yara Lemos transmite algo de seu encantamento e pesquisa sobre a obra da pintora portuguesa cuja arte, na hipótese da autora, teria servido à artista como “tratamento do gozo”.

 

Em “Sobre a queda do(s) objeto(s)[i] e a animação ou Sobre o “Garfinho” do filme: Toy Store 4”, Daniele Baggio parte da animação Toy Store 4 para falar de mudanças e seus impactos subjetivos. Escreve sobre a solidão de uma criança que “se vê de fora, despertencente” e que pôde encontrar em um brinquedo-lixo, ao adotá-lo, um objeto no qual investir algo de si, algo de sua libido.

 

E por fim, é sobre o amor, ou antes, sobre o feminino e o amor que se dá a styletada de Claudia Wunsch, que passa da voz poética para a prosa técnica, psicanaliticamente orientada, para dizer de algo que toca no corpo, de como o amor pode ser vivido como aflição, dor cardíaca. Mas a autora não nega o amor, segue Freud: devemos amar para não adoecer.  

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Na galeria de artes, Pedro Moraleida Bernardes, apresentado por José Alberto Nemer:

 

Nascido em Belo Horizonte em 1977 e falecido, aos 22 anos, na cidade em que viveu, o artista Pedro Moraleida Bernardes rapidamente emergiu como um dos mais talentosos artistas de sua geração. Em sua curta experiência de vida, trabalhou com vigor e urgência, acumulando uma obra surpreendente em quantidade e qualidade. Experimentou várias linguagens artísticas, como desenho, pintura, vídeo, texto, sempre marcados por forte conotação erótica, escatológica, irreverente. Perpassada por um clima catártico, a figuração de Moraleida ilustra uma inquietação visceral, que corresponde a uma transgressão plástica sem rodeios, selvagem e lírica ao mesmo tempo. Em desdobramentos narrativos, quase cinéticos, das histórias em quadrinhos, o artista acumula colagens, frases e figuras, como que ordenados por campos de cores vibrantes e sábias. Tudo resulta numa fusão delirante de construção e entropia.

*Psicanalista, membro da IF-EPFCL e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum Mato Grosso do Sul.

styelete lacaniano. ano 5, número 15.