editorial 

 Chamas! 

 

Francina Evaristo de Sousa*

"Sacrifícios humanos sangravam,
Gritos de horror iriam fender a noite,
E onde as chamas se estreitam na direção do mar
Um canal iria saudar a luz."


Fausto, de Goethe.

O Brasil queima, e não é de hoje. Tal qual prenúncio de tempos porvir, ontem o Museu Nacional do Brasil, localizado na Quinta da Boa Vista - Rio de Janeiro, ardeu em chamas, precisamente no dia dois de setembro de 2018. Mais de 20 milhões de peças e documentos, mais de 90 pesquisas científicas em andamento, destruídos pelo fogo. Perda incalculável, para o Brasil e para a humanidade. Esta ferida permanece aberta, sintoma de um Brasil que, desde seu nascimento oficial em 1500, é palco de conflitos. Aliás, o Brasil nasce do descobrimento ou da invasão?

 

O desprezo pela História, tão em voga no presente, cobra seu preço. O psicanalista sabe muito bem, aquilo que pela consciência foi rechaçado e não pode ser recordado, retorna nas formações do inconsciente. E se repete. Isto vale para a história mal elaborada do Brasil, que sofre na carne o retorno de um passado de colonização, escravização e concentração de riquezas e poder. Uma expressão disto na atualidade, para ficar apenas em um exemplo: uma reforma trabalhista que, espelhada na onda global do neoliberalismo, assume características afinadas com marcas infantis que persistem em tramar o destino de um povo, há um chicote que insiste frenético!

 

Se ontem era o Museu em chamas, hoje a Floresta Amazônica, a maior floresta tropical do planeta Terra (que é redondo), aquela que abriga o maior bioma existente, hoje a Amazônia queima. Amazônia que é imagem e um dos nomes do Brasil aos olhos do mundo.

 

A imagem, em sua consistência imaginária, é corpo, mas o corpo é também tecido significante que se inscreve no campo do Outro. Portanto está para além da res extensa, da carne biológica, é corpo simbólico. A Amazônia é também corpo, corpo que agoniza e com o qual o Brasil que hoje somos goza. “Um corpo, isso se goza” (LACAN, 1985, p.35). O real queima nossa cara!

 

Qual é o dizer que pulsiona o discurso social que forja o Brasil e que nos coloca hoje, junto de outras formações sintomáticas, em meio às chamas? E isto, quer queira o sujeito/assujeitado do laço social saber ou não (a ignorância é uma das paixões do humano, mas não o exime de sua responsabilidade por seu destino).

 

O dia 10 de agosto de 2019 entrará para a história do Brasil como “dia do fogo”.  A notícia é de que pelo menos setenta pessoas, das cidades paraenses de Altamira e Novo Progresso, combinaram através de grupos de whattsapp, de desmatar uma área ao redor da Rodovia BR-163. Ação orquestrada em consonância com o discurso de quem hoje governa o país. Os dados, de domínio público, são alarmantes.  Sem fronteiras morais, aumenta-se a fronteira agrícola.

   

As consequências podem ser catastróficas não apenas para o Brasil e os países que abrigam a floresta, mas para todo o mundo. Um Museu e uma floresta em chamas são sintomas de um Brasil que sangra. “Pai, não vês que estou queimando?”

 

 

Dourados – MS, 01 de setembro de 2019.

 

 

Referência: 

LACAN, J. O seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.   

 

 

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Nesta edição, em “Espelho, espelho meu...”, Claudia Leone, discorre sobre a busca do corpo perfeito como solução imaginária para o mal-estar, e revela o mais-além desta busca, que se mostra nos excessos, comandados pelo imperativo “goze a qualquer custo”!

 

Elisabeth da Rocha Miranda percorre a biografia de Josephine King, artista plástica britânica, e nos oferece uma lição sobre a melancolia, que implica o “padecer da dor de existir em estado puro”, pois fora do simbólico. E nos mostra um pouco do que está para além da melancólica suicida que é Josephine;

 

Heloísa Ramirez nos apresenta a história de Maria, uma entre outras. Com o conto “Refluxo” a autora dá notícias de um corpo que, golpeado por um significante, é invadido pela emergência de um fantasma, eco de um tempo ruim que se realiza presentificado na carne; 

 

Enquanto isso, Marisa de Costa escreve sobre o amor. Se, como canta o Rappa, “paz sem voz não é paz, é medo”, Marisa ensina com Freud e Lacan, Nando Reis e Gal Costa que “Paz sem amor é morte”, ainda que o amor tire a paz dos amantes;

 

Vanisa Santos, com “RAP, Ritmo & Poesia de Mão-Mãe”, escreve sobre jovens poetas, tais como XXX Tentaction, Emicida e tantos outros anônimos, que, com seu corpo e uso da palavra encontram formas de denunciar o mal-estar na civilização;

Andréa Brunetto, acompanhada por Rilke e Lacan, caminha sobre o terreno de Eros e vai de Orfeu ao objeto a, objeto perdido em outra parte, “como o que está por trás do muro-amor.”, no texto “Orfeu e a verdade do amor”.

 

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Na galeria de arte contamos com a mineira Niura Bellavinha, pintora. Frequentou o curso livre de artes da Escola Guignard a partir dos 13 anos de idade, aos 15 anos anos ingressa no curso de graduação da mesma Escola Guignard, onde se gradua e especializa em pintura e litografia.  Recebe o grande prêmio do Salão Nacional de Artes IBAC/MAP/FUNARTE em 1990. E começa a expor suas obras no início da década de 1990.

 

A construção sensível e a cor como elemento constitutivo da pintura é o cerne de seu trabalho. Realiza suas telas sobrepondo pinceladas largas verticais e horizontais para depois aplicar jatos de água e ar comprimido de alta pressão sobre a massa de tinta, criando assim alguns espaços translúcidos ou revelando o branco da tela. Suas produções não se restringem à tela: é cineasta, diretora de arte, figurinista, cenógrafa, gravadora, professora de artes, escultora e também concebe intervenções urbanas. “E tudo isto é pintura”, ainda que expandida, como a artista define. Realizou, em 2014, o filme NháNhá, média metragem que, nas palavras da artista, é um “poema-trágico”, obra que remete aos impactos da mineração em Minas Gerais. No livro “Niura Bellavinha”, com texto do crítico e curador de arte Paulo Herkenhoff, da editora Cobogó, tem-se um amplo panorama da produção desta artista.

  Boa leitura! 

*Psicanalista, membro da IF-EPFCL e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum Mato Grosso do Sul.

styelete lacaniano. ano 4. número 13