O tempo no laço social: da aceleração ao discurso do analista 

Osvaldo Costa Martins

Muito se tem questionado sobre determinada condição contemporânea em que a celebração da liberdade dos indivíduos escamoteia uma forte dominação pela via do tempo. As sociedades modernas estão subjugadas, sob a regência da aceleração social, a um rigoroso regime temporal que não é articulado em termos éticos [1]. Nas últimas décadas, porém, escancarou-se uma contradição: cronos é simultaneamente um oponente cruel contra o qual se luta e também algo extremamente valioso de que se sente “fome”. Um leito de Procusto está à espera de todos quando a questão é o tempo: os imperativos de produzir e consumir, cada vez em maior número, têm que se conformar a um tempo que é sempre o mesmo. Um dia segue sendo um intervalo com as mesmas vinte e quatro horas, mas as demandas cotidianas aumentaram em proporções inéditas. A temporalidade 24/7 e o modo de regulação dos ritmos sociais que ela impõe atestam isso atestam esse fato.

 

Com o transbordamento das barreiras do discurso do mestre que promove o discurso do capitalista, o tempo saiu de uma condição de oferta e disponibilidade para uma de comando e imposição. A tendência mutante do discurso do capitalista confere contornos dramáticos à máxima sertaneja segundo a qual do boi só se perde o berro. Agora, sob novo imperativo, do boi não se perde nem o berro. Tal circunstância não alcança só os semoventes, por óbvio. Do trabalhador e, em geral, do ser falante, nada se pode perder, e o tempo torna-se um elemento estratégico no ritmo insaciável e acelerado do capitalismo que, na modernidade tardia, não admite restos.

 

O avanço da economia capitalista e a capilaridade de sua ideologia têm por consequência a transformação de tudo o que existe em potenciais mercadorias e, também, a monetarização do tempo.  Essa tendência fez com que o mundo ganhasse uma volatilidade inédita. Tudo deve entrar no fluxo de trocas de consumo e circulação financeira. É essa mudança que Lacan anuncia nos anos 1970 ao propor o discurso do capitalista como uma perspectiva do discurso do mestre. Naquele, a insaciabilidade é uma marca dominante. O tempo, que era um equivalente do dinheiro, passa a ser ele mesmo uma mercadoria [2]. Assim, o capitalismo, com seus mecanismos de competição, vai promovendo sua autoaceleração.

 

Não podemos nos enganar, porém, de que seja isso o único fundamento da pressa e da fome de tempo que grassa entre nós. A submissão às imposições da cultura está longe de significar passividade. As injunções operadas pela aceleração social só logram seus êxitos porque servem ao ser falante como metáfora de sua condição irremediavelmente faltosa e dividida. Dá-se nome e máscara a algo que, sendo estrutural, é tomado como contingente. O tempo aqui é tomado como demanda do Outro. Ocupar essa posição de submissão e alienação, no entanto, tem suas consequências.

 

A hegemonia do discurso do capitalista solapou o tempo livre e apartou os indivíduos de aíon e cairós. Esses que abrem a possibilidade de o sujeito se reinventar na sua relação com a verdade e a causa de seu desejo. Sonhar, devanear ou elaborar questões que balizem a vida são movimentos que requerem uma outra temporalidade. Esta inclui a dimensão cronológica, mas vai além, ela requer também aíon e cairós de modo que o sujeito possa avocar sua condição desejante. É exatamente isso que os imperativos de massificação e aceleração tendem a abolir. Eles se regem pelo gozo que, em termos temporais, é presidido pela imediatez.

 

Diante desse cenário, Lacan retira a seta da impossibilidade para escrever o discurso do capitalista. Sem esta, cria-se a ilusão mortífera de que se pode ter acesso imediato ao objeto. Servindo-se de tal premissa, o discurso do capitalista tenta trapacear com o objeto para sempre perdido e fulgurá-lo nas ofertas de consumo e promessas de felicidades que tamponam a divisão subjetiva. Ante a tendência à abolição da barreira de gozo, as vias do desejo se obstruem. Por óbvio, toda uma questão com a temporalidade está concernida nessa circunstância.  Nesse caso, pode-se falar em gozo do tempo: do tempo acelerado.

 

A condição temporal para que essa lógica funcione é a inflação da dimensão cronológica em detrimento das outras temporalidades, posto que aquela se pode universalizar e regular. O tempo, tornado um gadget do capitalismo moderno, sob a lei do time is money, torna-se assim um instrumento de dominação a partir de uma artimanha: a ideia de que ele falta.

 

O discurso do analista, por outro lado, assume a condição primordial de haver um objeto para sempre perdido. Tal objeto implica que o deslocamento metonímico que se fará na direção de seus substitutos tenha a mesma natureza, isto é, de ser para sempre. É esse “para sempre” que determinará o tempo do desejo como aiônico[3]. O objeto perdido é, por essa perspectiva, para sempre buscado ou para sempre substituível justamente porque nunca será plenamente substituído. O discurso do analista convoca esse movimento, isto é, o desejo, recorrendo àquilo que o causa, o objeto a.

 

Isso também significa que o discurso do analista não visa a elidir a falta: ele a afirma e a assume como condição do movimento do desejo. De saída, implica-se aí a ideia de fome ou falta de tempo sob uma outra perspectiva. Nominé [4] defende que o “real do tempo não tem nada a ver com as armadilhas do discurso, que faz você crer que falta tempo”, assim, “o discurso capitalista vende o tempo que falta, quando, na verdade, não é o tempo que falta”.

 

Tal é análogo à posição da criança que, mediante uma operação simbólica, transforma em falta a inexistência de pênis em alguns corpos e cria a ilusão de que pode perdê-lo ou conservá-lo. Essa operação produz uma lógica que serve de solução a um impasse que, de outro modo, presentificaria o real da castração. O tempo é um “puro símbolo” e guarda em si algo de Real, de castração [4]. Assim, podemos dizer que existe uma dimensão temporal que é imaginária porque espacializada, o tempo cronal; e outra que é real-simbólica, à qual imputamos aión e kayrós, porque diz respeito a um tratamento simbólico que se opera sobre o real da falta. 

 

O tempo será sempre limitado porque o corpo é finito, e as possibilidades do desejo, não. O cerne da questão em uma psicanálise é não fazer disso uma impotência. O tempo cronológico há de faltar, mas o tempo para a escrita do desejo, não. No discurso psicanalítico, o tempo supostamente faltante é vertido em causa do desejo. O tempo, tanto em sua dimensão cronológica como aiônica, é posto como agente do discurso:

 

 

O manejo do tempo em uma psicanálise articula cronos, aíon e kairós – sendo este o que marca a tempestividade do ato e das manifestações do inconsciente. O analista encarna, às vezes, um enigma para o analisante: “quanto tempo eu tenho?”. Do ponto de vista do tempo lógico, trata-se, em algumas circunstâncias, de fazer com que o tempo de compreender não se torne sintomaticamente dilatado e, em outras, que ele não seja angustiadamente achatado como acontece nos casos em que a alienação à demanda e ao discurso do Outro impõe a pressa e a aceleração.

 

Afirmamos também que uma análise pode levar a um arranjo singular entre o sujeito e seus tempos. Conduziria, assim, a uma conciliação com o impossível que, indiretamente, produz uma tempestividade. Gesta-se um saber que admite, por fim, que nunca se terá “todo o tempo do mundo”, nem para poupá-lo nem para gastá-lo, e que a vida é ela mesma um tempo restante. O tempo que resta é o único possível, aquele que terá sido, desde o início, resto da operação que inseriu o sujeito na linguagem

 

REFERÊNCIAS:

[1] ROSA, H. Alienación y aceleración. Madri: Katz, 2016.

[2] SEVERIANO, F. Subjetividades e Temporalidades.  Rio de Janeiro: Garamond,2014.

[3] Aludimos ao tempo aión conforme referido no Fragmento 52 de Heráclito

[4] NOMINÉ, B. A função do tempo no desejo e seu uso hoje. Conferência realizada em São Paulo,em agosto de 2017.

Dados do autor: Psicanalista, Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano e do Fórum do Campo Lacaniano de Fortaleza.

 

stylete lacaniano. ano 5. número 15.