Refluxo

Heloísa Ramirez

Era mais uma Maria, cansada, maltratada e suja.

Aos olhos em redor parecia confusa, não dizia coisa com coisa.

Maria não se lembrava de como fora parar ali. Em verdade não atinava onde estava. Alguém lhe ofereceu a garrafa d’água, outro estendeu a mão para ajudá-la a se erguer.

De repente uma sirene.

Polícia.          

Perguntas sem respostas.

 

- Nome?

- Maria.

- Sobrenome?

- Onde mora?

- Documento?

- O que aconteceu?

Ouviu alguém dizendo que topou com ela caída no parque.

- Tinha alguma coisa ao lado dela?

- Não que eu tenha visto.

- Moça, está machucada?

- Aqui, doem minhas costas, os pés, a cabeça.

 A policial percebeu sangue numa mexa de cabelos loiros, bem cuidados, embora, desgrenhados. Maria não era qualquer Maria, suas unhas estavam esmaltadas, algumas quebradas como se tivessem entrado em luta, mas bem feitas, a pele era macia, tratada.

- Precisamos de um nome e um telefone para avisar a família.

- Família? Sentiu-se pior.

- Os para-médicos a levaram.

Engoliu em seco a saliva que não tinha. Sim, era um hospital. Um tubo plástico se ligava por uma agulha à sua veia. A cabeça pesada, boca amarga, precisava de água. Queria ver, mas os olhos não podiam olhar porque se queriam fechados. 

- Maria sou eu, abra os olhos.

Esforçou-se para descerrar as pálpebras e fixar o rosto à sua frente.

-João?

- Graças a Deus! Não se agite, logo estará melhor.

Fechou os olhos novamente. As imagens surgiram em flash back e se lembrou quanto foi difícil entrar em casa naquele dia, estava nauseada. Anoitecia, mas ainda era dia pelo horário de verão, estacionou ao lado da árvore da felicidade, recém plantada, e riu pela ironia, depois chorou copiosamente. Há poucas horas estava tão feliz como nunca antes. Tudo aquilo parecia uma maldição. Esmurrou o peito, arranhou a carne, mordeu-se até não aguentar, saiu do carro para respirar, correu para rua, precisava caminhar.  

- Por quê? Meu Deus, por que comigo?

João era o amor de sua vida, estavam juntos desde a faculdade. No último Natal eles juraram amor eterno e, ao mesmo tempo decidiram-se por um filho. O consultório de João dera uma guinada depois da especialização em implantes dentários, ela, por sua vez, psicóloga, chefiava o RH de uma empresa multinacional. Os dois juntos mantinham uma situação financeira confortável e a decisão por uma família se impôs. A partir de lá não pensaram em outra coisa que não fosse a maternidade, o quartinho do bebê, nomes para meninos e meninas, até mesmo a escola fora antecipada. Escolheram a médica que faria o pré-natal com muito cuidado, super recomendada por amigos queridos. A consulta, os exames de praxe, tudo seguia o curso natural. A surpresa foi o telefonema da Dra. Sônia convocando-a para uma conversa urgente sobre alguns resultados. 

Um pouco apreensiva pelo tom de voz da médica, Maria saiu mais cedo do trabalho, preferiu não avisar João.

Dra. Sônia a recebeu com um ar circunspecto e disse-lhe que não tinha boas notícias. O coração de Maria começou a acelerar.

- Você terá que deixar de lado a idéia da gravidez por algum tempo, o seu exame de sangue deu soro positivo para HIV/AIDS.

Ela gelou, foi um soco direto no estômago, curvou-se de dor.

- Como assim soro positivo? Estou com AIDS? Vou morrer? O que você quer dizer? Eu não sinto nada, estou bem.

A médica tentou acalmá-la e pediu que refizesse os exames, mas avisou que o laboratório era confiável.

A aflição tomou conta de Maria e o choro sufocou-lhe a voz, ela sequer entendia o que estava sentindo.

Dra. Sônia explicou que deixar de lado a gravidez não significava que seu sonho de gerar um filho acabara. Em primeiro ela faria um tratamento, isso era urgente, em seguida que confiasse na medicina, hoje se pode quase tudo. Recomendou-lhe um infectologista e pediu para conversar com João o mais breve.

Maria estava completamente aturdida. Saiu furiosa do consultório, pensou que a vida estava sendo injusta com ela, rasgou os papéis e as orientações que médica prescreveu e jogou tudo numa lixeira de rua, nada mais importava.

Escureceu rapidamente, mas Maria seguia sem rumo. Como se infectara?

Havia dois anos que ela e João tiveram uma briga feia, ele saiu de casa deixando-a com seus sentimentos. Tempo ruim. Numa dessas noites solitárias Maria saiu com alguém que conheceu num aplicativo de namoro, precisava provar para si mesma que ainda vivia. Foi para um motel com um cara que, ao final, mostrou-se insensível e perverso. Nunca mais o viu. 

João e Maria reataram os laços e ela sentiu-se culpada por tê-lo traído. Recomeçou a análise e quando tudo parecia bem eis que o fantasma volta para assombrá-la cobrando o preço da morte súbita de um sonho, um pecado concebido que jamais será redimido. O pior é que sequer lembrava o rosto daquele que a marcou para sempre. Estava com ódio de sua carência que em nome de uma frágil liberdade sexual abriu mão do preservativo.

Fazia muito frio, era madrugada, Maria não conseguia parar. Suas pernas formigavam, sentia-se exausta, com dores nas costas. Sem sua bolsa não tinha como aplacar a fome, mas o pior era não querer enfrentar João. Continuou andando, sem forças apoiou-se numa parede e foi escorregando até sentar-se no chão. Permaneceu acostada por um tempo. Levantou-se e seguiu cambaleante, caiu. Deve ter batido a cabeça em algum lugar, sentiu a pancada e a dor. Perdeu os sentidos.

Lembrou-se vagamente de algumas sirenes e de ter sido carregada, acordou com o som da voz de João.

- Maria abra os olhos, por favor.

Ao chegar a casa João estranhou a escuridão. Abriu a porta e chamou por Maria. Ela não respondeu, procurou-a pelos cômodos, afinal, o carro estava na garagem. Ligou o telefone e deixou tocar até cair na caixa postal, mais uma vez, mais uma vez. Preocupado foi até o carro e encontrou a bolsa, o celular e as chaves no contato. Ligou para a cunhada, mas ela não tinha notícias da irmã. A colega do escritório informou que Maria saíra mais cedo e notou que ela estava preocupada. Inquieto João resolveu, foi à delegacia prestar queixa do desaparecimento. Preencheu a papelada, respondeu as mais bizarras perguntas e voltou para casa desnorteado. A polícia o aconselhou a esperar, ainda não se passaram 24 horas do sumiço, provavelmente ela estaria com uma amiga, era comum em briga de casal a esposa sair para desabafar, logo estaria de volta. Ele saiu de mau humor, esse cara não conhecia sua Maria, João pressentia que algo grave estava acontecendo.

Às seis horas da manhã ele estava surtando, não dormiu, ficou atento aos barulhos do telefone. Por fim recebeu o chamado da delegacia que o informou que uma mulher, chamada Maria, dera entrada no Hospital Municipal.

Agitado correu para lá. Entrou em pânico ao vê-la desfalecida em um leito da enfermaria. Os médicos o tranquilizaram, tudo ficaria bem.

Quando Maria abriu os olhos João acariciou sua mão, aproximou-se do seu ouvido e lhe pediu perdão.

- Você se lembra do tempo em que nos separamos?

Pelo tom da conversa Maria sentiu que João sabia dela, fechou os olhos amedrontados.

- Num sábado fui ao clube jogar tênis com o Carlos. Terminamos a partida e decidimos tomar uma sauna. Estávamos lá numa boa, quando de repente sem mais nem menos, dois caras começaram a se pegar, entende Maria? Na sauna. Fiquei completamente excitado vendo aquela cena e não precisou muito para eu estar participando daquela algazarra toda. Maria eu sou um canalha, um moleque carente que me deixei levar pela zoeira. Te juro que foi uma única vez. Quando nós voltamos, pensei em contar, mas senti vergonha pela situação vexatória, achei que você sentiria nojo de mim e eu não podia perdê-la outra vez. Tem mais Maria, cobriu o rosto com as mãos e num ímpeto violento gritou:

-Sou soro positivo para HIV/AIDS. Perdão!

Ela arregalou os olhos, precisou de apenas um segundo para entender, foi isso!

Sentiu um espasmo percorrer seu corpo e o diafragma se abrir liberando o caminho para que a bolha de ar, que a impedia de respirar, explodisse rompendo com a opressão que lhe machucava a alma.  

Aliviada, Maria puxou João para si e o afagou carinhosamente.

 

Dados da autora: Psicanalista AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum SP.

stylete lacaniano. ano 4. número 13.