RAP, Ritmo & Poesia de Mão-Mãe

 

Vanisa Santos

Era uma segunda feira à tarde. Estava no metrô, indo de um lugar para outro na cidade do Rio de Janeiro. De repente, um grupo de quatro adolescentes surge cantando o seguinte refrão: “Eu podia estar matando, roubando, fazendo mal aos irmãos, mas estou aqui cantando, fazendo poesia, trocando uma ideia, tentando tocar seu coração”. Eram jovens poetas destemidos fazendo performances nos trens do metrô. Coincidentemente, naquele mesmo dia (18/06/2018) o rapper americano Jahseh Dwayne Onfroy, conhecido como XXX Tentacion é assassinado em uma concessionária na cidade da Flórida (USA), após ser baleado enquanto comprava uma moto. Duas situações marcantes. A coincidência fica por conta de que, em ambos os casos, jovens poetas provenientes de comunidades carentes faziam uso do próprio corpo e da palavra para denunciar o mal-estar no mundo em que vivemos.  Um, no entanto, não sobreviveu.

Estamos em 2019. Faz pouco mais de um ano que XXX Tentacion virou história. Trama triste que se repete tanto no nível da mitologia particular desses sujeitos como no laço social.

Em 1895, no “Projeto para uma psicologia Científica”[1], Freud fala do complexo de Nebenmensch ressaltando a importância dos primeiros cuidados do semelhante para com o bebê humano para que sobreviva à sua insuficiência instintual. Chama de ação específica os primeiros cuidados do semelhante que, ao tomar o bebê em seus braços, ao alimentá-lo e ao protegê-lo de quaisquer adversidades, coloca-o na série de seus objetos de desejo e amor. É, portanto, o semelhante, enquanto Outro cuidador, que engendra vida nesse pequeno ser que advirá como sujeito marcado pela linguagem. 

Em 1919, tocado pelos horrores vivenciados na I Grande Guerra Mundial (1914-1919)[2], Freud escreve seu precioso ensaio intitulado “O Estranho” (das Unheimlich) em que aborda o sentimento de angústia extrema diante do outro que surge como um Estranho Familiar em cuja face se revela o horror de sua própria morte, um dos nomes da castração.

Em 1932, respondendo à carta de Einstein sobre “Por que a guerra?” (1933 [1932])[3], Freud fala sobre nossa tendência à barbárie reafirmando a tese de que somos regidos pela pulsão de morte. Embora as leis tenham surgido como tentativa de impor limite ao outro gozador, algo aí sempre fracassa. Diante da tendência pulsional de destruição e de domínio do outro, precisamos recalcar o desejo inconsciente de tomar o outro como objeto para podermos viver em uma sociedade mais justa e igualitária, ainda que o saldo dessa operação seja o mal-estar na civilização.

Jahseh Dwayne Onfroy (1998-2018), (XXX Tentaction) foi alvejado por tiros em uma concessionária em Miami enquanto comprava uma nova moto. O jovem de 20 anos teve uma vida marcada pela pobreza e por muita agressão tendo sofrido abusos de todo tipo dentro e fora do círculo familiar. A pulsão de morte em Tentaction retornaria precocemente sob seu oposto na mais violenta forma de sadismo o que o levou a praticar atos ilícitos e várias tentativas de assassinato. Aos seis anos, esfaqueou um homem para salvar sua mãe de um estupro. Respondia a vários processos por tentativa de assassinato, dentre os quais o que envolvia a tentativa de estrangulamento da namorada grávida de seu filho. Seu envolvimento com a música começou quando sua avó o obrigou a participar de um coral na igreja, mas logo foi expulso por atacar um dos integrantes. Uma de suas músicas mais tocadas no momento intitula-se “Sad”[4] (2018), mas foi o hit “Look at me” (2017)[5] que o tornou um astro mundialmente reconhecido e premiado. “Look at me” é uma música cujas palavras são picotadas, mal pronunciadas, gírias e rimas entre gemidos e uma batida musical que ora aludem ao som inarticulável do gozo sexual ora ao gemido do bebê faminto em busca do olhar e do amor do outro. Um olhar que, por nunca ter chegado, transformou-se em protesto e apelo, “Look at me!”, olhe pra mim! Me proteja! Me alimente! Me ame! Me ampare!

Enquanto campo da fala e da linguagem, sabemos com Lacan que o Outro é tesouro dos significantes, mas enquanto campo do gozo, o Outro é antro da pulsão de morte, da repetição, do mutismo do real que, por nada poder representar, desintegra os significantes articulados ao simbólico e ao imaginário até chegarem aos sons inarticuláveis de lalangue, esse resíduo sonoro que resta em cada um de nós, revelando-se precariamente através de nossa enunciação. “Look at me!” soa como um apelo malsucedido ao Outro e se faz ouvir através da letra de gozo à qual o sujeito se agarra. O mal-estar se intensifica ao longo do Rap “Look at me!”, mas há um resto poético em um canto obscuro que se revela como uma demanda infinita de amor ao Outro justamente quando Tentaction parece suplicar: “Eu ão quero tua buceta, eu só quero tua boca”.

A história de XXX Tentaction não é diferente de tantas outras em que o que está em jogo é a objetificação do sujeito como um excluído do laço social, como um ser abjeto que tem sua dignidade extirpada e pouquíssimas oportunidades de suceder ao gozo que o precede. A poesia sobrevive. Entre polícia e ladrão, entre amor e ódio, entre balas perdidas, a letra é o que resta.

No Brasil, temos grandes rappers que também trabalham a temática da exclusão social, da violência, do sexo, da morte, do álcool e drogas e do extremo valor atribuído à Mãe como figura que representa a máxima proteção do sujeito contra a vivência do desamparo. É o que vemos, por exemplo na música “Mãe”[6] do rapper Leandro Roque de Oliveira (1985), nascido na periferia de São Paulo e conhecido como Emicida. Sua poesia nos ensina sobre o efeito da voz da mãe que, como um anjo protetor, acompanha o sujeito. Mãe cuja letra se mistura à caligrafia do próprio sujeito curando suas “cicatrizes, estrias, varizes do crime”. Mão-Mãe que escreve que “a vida na periferia é sem amaciante” e que pobre e preto é excluído do laço social e está fadado ao banco dos réus.

Mãe é função que opera para além do corpo físico, é Deus, das Ding, grande Outro protetor da linguagem, aquele que, pelo discurso, engendra Eros na vida do sujeito. A ação específica que salva a vida do bebê humano e o insere na ordem da linguagem é ato de amor. Figura mítica da Mão-Mãe protetora aparece com frequência em Raps deixando claro que o ponto de real perpetrado pelo Outro cuidador é o que escapa precariamente por lalangue. Esse vazio inarticulável simbolicamente é justamente o que faz o poeta insistir em tangenciar o real e recriar sua história.

É só por estar vazio que o vaso comporta poesia, silêncios e flores.

REFERÊNCIAS

[1] (1895). “Projeto para uma psicologia cientifica”. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, vol. I. Rio de Janeiro, Imago, 1996.

[2] (1919). “O estranho”. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, vol. XVII. Rio de Janeiro, imago, 1996.

[3] (1932). “Por que a guerra?”. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira, vol. XXII. Rio de Janeiro, imago, 1996.

[4] https://www.youtube.com/watch?v=XVFeZ8jj5hA consultado em 12-08-2019

[5] https://www.youtube.com/watch?v=N0q6UHMv-jA consultado em 12-08-2019

[6] https://www.youtube.com/watch?v=D_-j32_Ryc0 consultado em 12-08-2019

 

Dados da autora: Psicanalista, membro do Fórum do Campo Lacaniano Rio de Janeiro.

stylete lacaniano. ano 4. número 14.