Um caso sério

Thissiane Fioreto

Ela sempre me perseguiu e eu sempre corri dela. Nunca quis me render! Mas ultimamente não tenho conseguido fugir.

Nosso caso começou já faz muito tempo. Eu não sabia direito quem ela era. Só sabia que ela era inoportuna e chegava de mansinho. Suas mãos sempre foram geladas e ela insistia em me abraçar. Eu lançava mão de todos os artifícios que podia e conhecia para dela escapar, embora, às vezes, eu confesso, ela me agarrasse forte e eu me rendia. Não era sempre, mas sua presença me incomodava muito.

Antes ela preferia vir à noite. Chegava em silêncio. Entrava sem ser chamada, porém de forma discreta. Hoje ela já está bem mais abusada. Chega a qualquer hora do dia, não pede licença, mete a mão na fechadura da porta, entra e se senta confortavelmente ao meu lado. Suas mãos continuam muito geladas e ela vai logo me agarrando. Perdeu as boas maneiras!

Ela sempre teve preferências. Preferia me agarrar no silêncio, às escuras, quando ninguém estivesse vendo. Hoje ela já perdeu a timidez. Agarra-me em qualquer lugar, esteja ele cheio ou vazio, público ou privado, e vai logo me tomando com força. Eu fico sem jeito em meio à multidão e até tento disfarçar, mas não consigo. As pessoas já perceberam que temos um caso e que eu me rendi totalmente a ela.

Confesso que, por algum tempo, eu a temi. Temi muito! Não sabia do que ela era capaz. Será que me mataria? Hoje eu ainda a temo. Menos! Bem menos, é verdade! Porém, é melhor não subestimá-la. Agora eu já sei de algumas coisas de que ela é capaz e, principalmente, sei de sua teimosia. Mandá-la embora quase nunca surti efeito.

 

Sei que ela flerta com todo mundo. Que é promíscua! Mas comigo o caso já é antigo e muito sério. Ela não me abandonará, disso eu tenho certeza! Já me rendi a ela e convivemos há tanto tempo que, às vezes, quando ela não vem, sinto sua falta e já nem acho suas mãos tão geladas como antes.

Já temos intimidade. Ela sabe bem como me pegar. Eu grito com ela. Ela grita comigo. E acabamos abraçadas e em silêncio. Já aconteceu de chorarmos juntas. Mas eu já aprendi que ela pode ser violenta e já me fez chorar desesperada e dolorosamente muitas vezes. Talvez nosso relacionamento seja mais abusivo do que deveria, já que eu não consigo ter qualquer controle sobre essa atrevida. Mas ela tem seus momentos de suavidade e são justamente esses que me encantam. Há dias em que sinto um verdadeiro fascínio por ela e busco formas de encontrá-la.

Hoje ela chegou cedo. Entrou sem avisar. Sentou-se ao meu lado e não disse nada. Não fez barulho. Eu também fiquei quieta. Eu não sabia bem o que dizer. Na verdade, quase nunca sei o que eu devo dizer quando estou na presença dela. O silêncio era tamanho que podíamos ouvir o vento assobiando lá fora. Levantei-me. Peguei um café. Sentei-me no canto do sofá. Ela sentou do meu lado. Apoiou a cabeça delicadamente no meu ombro. Eu tinha certeza que ela não iria embora tão cedo.

Estendi a mão e peguei a caneta e o papel que estavam na mesa ao lado. Sem medo ou cerimônia, com uma segurança e uma intimidade que, depois de muita convivência, aprendi a ter com ela, eu disse:  

__ Chega um pouco mais para lá, Solidão! E não faça barulho! Hoje eu preciso escrever.

Dados da autora: Membro da EPFCL-Brasil, Fórum Mato Grosso do Sul.

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stylete lacaniano. ano 6. número 20.