O Incorporal Estoico: um tratamento ao corpo lacaniano

Viviana Senra Venosa

A pergunta que orienta este trabalho é: afinal, de que corpo se trata na psicanálise lacaniana?

 

Em “As Pulsões e seus Destinos”, Freud define a pulsão como um “conceito-limite entre o somático e o psíquico, como o representante psíquico dos estímulos oriundos do interior do corpo e que atingem a alma, como uma medida do trabalho imposto à psique por sua ligação com o corpo.” [1] Esta conceituação do termo pulsão ficou canonizada e é bastante recorrente na literatura psicanalítica. Pretendo apontar neste trabalho que há uma leitura de Lacan sobre o corpo na psicanálise, que permite romper com uma possível ingenuidade nesta concepção de pulsão freudiana.

 

Em primeiro lugar, é preciso dizer que uma leitura rápida desse trecho do texto de Freud sobre as pulsões parte de uma divisão, não de sujeito, mas cartesiana. Isto é, o soma como res-extensas, e a psiquê como res-cogitans. A fonte pulsional estaria compreendida no corpo somático, cujo representante psíquico impulsiona. E isto pode derivar em suposições de que haveria um corpo-organismo, dado anteriormente, que seria “colonizado” por representantes psíquicos posteriormente, de maneira desenvolvimentista.

 

Em muitos momentos de seu ensino ao falar sobre o corpo, Lacan dá a pista sobre os incorporais no estoicismo antigo, mas não desenvolve. Vejamos agora do que se trata o estoicismo antigo e os incorporais:

 

Quem estudou o tema foi Émile Bréhier, que, em 1908, publica sua tese de doutorado para a Faculté des Lettres de Paris – Sorbonne, tendo sido lido por muitos intelectuais do século passado, tais como Gilles Deleuze, Michel Foucault, Jacques Derrida, Maurice Blanchot entre outros. E, muito provavelmente, também por Lacan.

 

Segundo Bréhier, se tem algo que os estoicos fizeram – principalmente com sua teoria dos incorporais – foi romper com o senso comum de seus contemporâneos, ou seja, os pressupostos aristotélico-platônicos de sua época.

 

Para os Estoicos, tudo que existe é corpo. De modo que corpo é tudo aquilo que age e padece. Corpo e causalidade, portanto, estão imbricados e não há nenhuma causalidade que seja ideal (no sentido platônico). E é com isto que os estoicos veem a realidade: no fato de que a causa é imanente ao ser que existe, e não um modelo ideal a ser emulado. A causa, enquanto Ideia (em Platão) ou Motor Imóvel (em Aristóteles), é estável e permanente. Para os estoicos, a causa é ativa e imanente ao ser. O ser é considerado não como parte de uma unidade superior, mas “como sendo a unidade e o centro de todas as partes que constituem sua substância e de todos os acontecimentos que constituem sua vida” [2]. Se, no entanto, a causa imanente age no corpo, a causa também é corpo. Isso nos permite entender que, na materialidade corporal estoica, não é apenas de objetos tridimensionais que se trata. Corpos existem no mundo, agindo ou padecendo uns dos outros.

 

Os efeitos dessas causas, contudo, são incorporais. Para exemplificar: um braço que tenha sido cortado por uma lâmina é um corpo-braço, que sofreu uma ação-causa de um corpo-lâmina, mas em nada mudou as propriedades do corpo braço – apenas lhe conferiu o efeito-atributo: braço-cortado. Na relação entre os dois corpos: lâmina e braço, a causa do corpo-lâmina é ser cortante; a causa do corpo-braço é ser cortável. Quando o primeiro age sobre o segundo, entre ambos, na superfície destes seres, há o atributo de efeito.

 

Para dar conta do corpo da causa, e sua imanência, os estoicos criaram a categoria desses não-seres, ou quase-nada-de-existência, que são os incorporais.

 

Estes efeitos incorporais se dividem em quatro tipos: o lekton (exprimível), o lugar, o tempo e o espaço. Os atributos incorporais, por não serem propriedades dos seres, são sempre expressos por um verbo. Por exemplo: quando dizemos “A planta verdeja”, ela não “é” verde. Ela verdeja, como atributo de efeito incorporal (lekton/exprimível). Lembremos que na sintaxe: sujeito-planta + verbo-cópula-ser (é) + predicado-propriedade-verde = está feita a relação sexual. Já o uso do verbo para os efeitos incorporais traz mais um caráter de contingência e de devir. Outro exemplo: “Um grego e um bárbaro escutam a mesma palavra: ambos possuem a representação da coisa designada pela palavra; entretanto o grego compreenderá, enquanto o bárbaro não. Que outra realidade existiria, portanto, além do som de um lado e do objeto de outro? Nenhuma. Mas o objeto, para o grego (...) [seria] um atributo que não existe para o bárbaro, o de ser significado pela palavra” [3]

 

Assim, o incorporal lekton, o exprimível, não está nem no som, nem no objeto: está no atributo.

 

Ora, o que proponho aqui é que Lacan subverte os incorporais dos estoicos, ou seja: depois de Lacan, os incorporais dos estoicos, ou melhor, o lekton (o exprimível) é que é o corpo. Dito de outro modo: o significante é o moterialisme da psicanálise.

 

No nosso campo, ao levar a cabo essa ideia, penso que Lacan dá um passo a mais em relação ao corpo representado de Freud, onde há um acento forte no pressuposto de que a representação se apoia no organismo biológico.

 

Podemos ler em Radiofonia: “Volto primeiro ao corpo do simbólico, que convém entender como nenhuma metáfora. Prova disso é que nada senão ele isola o corpo, a ser tomado no sentido ingênuo, isto é, aquele sobre o qual o ser que nele se apoia não sabe que é a linguagem que lhe confere, a tal ponto que ele não existiria, se não pudesse falar.

 

O primeiro corpo faz o segundo, por se incorporar nele. Daí o incorpóreo que fica marcando o primeiro, desde o momento seguinte à sua incorporação. Façamos justiça aos estoicos, por terem sabido, com este termo – o incorporal -, assinalar de que modo o simbólico tem a ver com o corpo” [4].

 

Portanto, o primeiro corpo – simbólico – faz com que o segundo corpo – intuitivo, corpo no sentido ingênuo – se incorpore. De tal modo que, se não falássemos, sequer possuiríamos corpo. Teríamos apenas um organismo unificado. É o simbólico, a dizer: o significante, que corta e recorta o corpo imaginário, que lhe confere efeito-significante. E aqui podemos dizer que esse efeito é o incorporal, que Lacan diz ter a ver com o corpo. Cito Lacan: “esta espécie de lugar que os estoicos chamavam de incorporal. Teria a dizer disso, que é, a saber, precisamente, o corpo” [5].

 

Há um consentimento de corpo, dado ao corpo do senso comum, por meio do parlêtre. E é por isso que posso afirmar aqui que, em uma análise, o efeito significante no corpo do sujeito é localizado no dizer. Isso quer dizer que o primeiro corpo do ser falante é a linguagem.

 

Ou seja, na medida em que a lógica estoica recorre ao verbo como atributo (lembremos do exemplo: “a árvore verdeja”) e que faz cair a cópula aristotélica que designa um conceito (a árvore é verde), temos como efeito um acontecimento.

 

É com este corpo que a práxis psicanalítica se dá: corpo como acontecimento de linguagem, por meio de efeito significante. Isso implica levar em conta os paradoxos, que é um dos modos de falar do impossível, do Real. Pode-se dizer que os candidatos à análise chegam em nossos consultórios aristotélicos, e que o trabalho de análise seria algo como ofertar uma outra lógica.

 

Esta ideia de corpo, portanto, que proponho aqui, não condiz com pensar que o corpo Real é idêntico ao organismo: mas que o Real do corpo é forjado desde a lógica/ lei do significante. Não se trata de algo que já estaria dado, de antemão, para ser colonizado por “significantes alados”, conforme Lacan: “O problema está na entrada do significante no Real e em ver como disso nasce o sujeito. Será que isso quer dizer que nos encontramos como que diante de uma espécie de espírito que baixa, de aparição de significantes alados? Significa que eles começariam sozinhos a cavar seus furos no Real, e que no meio apareceria um furo que seria o sujeito? Penso que, quando introduzo a divisão real-imaginário-simbólico, ninguém me atribui tal intenção. Hoje, trata-se de saber justamente o que permite que este significante se encarne.

 

O que lhe permite isso é, primeiro, o que temos aí para nos tornar presentes uns para os outros – nosso corpo. Só que esse corpo também não deve ser tomado, pura e simplesmente, nas categorias da estética transcendental. Esse corpo não pode ser constituído da maneira como Descartes o institui no campo da extensão. Também não nos é dado de maneira pura e simples em nosso espelho.” [6]

 

Retomando o cânone freudiano da pulsão, compreendido enquanto conceito-limite entre res-extensas e res-cogitans, Lacan claramente permite pensar diferente disto.

 

O que Descartes faz com seu método dedutivo é separar o corpo sensível, res-extensas – que não permite o acesso ao conhecimento, uma vez que engana –, da res-cogitans, do pensamento que garante o ser. A materialidade cartesiana está na extensão. O que Lacan faz é subverter este sujeito pensante cartesiano, promovendo uma nova divisão: a subjetiva, em que a materialidade está no significante. Essa divisão se faz por meio da linguagem, e assim podemos dizer que não há experiência do falasser fora do campo da linguagem. Mesmo a materialidade da experiência só é possível no campo da linguagem, enquanto função de fala. Com isso, Lacan opera uma topologia do Sujeito: este é uma superfície, por exemplo, moebiana, de modo a constituir uma banda com uma só borda. Ora, voltando para os estoicos, o atributo incorporal se dá na superfície dos seres, de modo que até mesmo a alma é corpo: “um incorporal não padece com um corpo, nem um corpo com um incorporal. Tanto a alma padece com o corpo, quando ele está doente ou machucado, quanto o corpo com a alma na vermelhidão da vergonha ou na palidez do medo” [7]

 

Isso significa dizer que, para os estoicos, tanto a alma causa, produz efeitos no corpo – aqui tomado no sentido ingênuo – quanto vice-versa, quando, por exemplo, o corpo doente causa um efeito de menos disposição de humor. Portanto, a alma não poderia, para o estoicismo antigo, ser tomada como incorporal. Os Estoicos, portanto, resolvem a dificuldade do problema mente x corpo das escolas cartesianas, simplesmente atribuindo propriedade de corpo à alma.

 

 “A fala, com efeito, é um dom de linguagem, e a linguagem não é imaterial. É um corpo sutil, mas é corpo.”. Digo, portanto, que Lacan usa a concepção estoica torcendo-a, moebianamente. O “corpo biológico” tem o mesmo estatuto da alma, e tanto um quanto outro são causados pelo efeito do corpo simbólico, ou seja, aquilo que os estoicos chamam de lekton (exprimível incorporal).

 

A matéria da qual tratamos em psicanálise: o corpo linguageiro do qual uma psicanálise trata. A materialidade da linguagem é corpo a ponto de conferir ao ser falante seu corpo (no sentido ingênuo). É precisamente o incorporal que é chamado de exprimível pelos estoicos que Lacan chama de corpo, em uma torção vertiginosa e contraintuitiva. O corpo moterial da psicanálise é o incorporal exprimível, efeito que causa o corpo, os humores, os afetos, o pensamento e o ser do ser falante. E temos notícias desse corpo, na clínica psicanalítica, de modo borromeano: pelo morto do simbólico, pelo corpo do imaginário e pelo vivo do real.

 

O corpo do qual tratamos é este efeito que é causa, que se dá no acontecimento entre, na superfície topológica do falasser. A tal ponto é a radicalidade, que não importa se o corpo, no sentido ingênuo, está vivo ou morto. “Quem não conhece o ponto crítico pelo qual datamos, no homem, o ser falante? - a sepultura, ou seja, o lugar onde se afirma de uma espécie que, ao contrário de qualquer outra, o cadáver preserva o que dava ao vivente o caráter: corpo. Permanece como corpse, não se transforma em carniça, o corpo que era habitado pela fala, que a linguagem corpsificava” [8]

 

A linguagem faz do corpo orgânico cadáver – e não carniça –, pois, ao matar a cópula direta do ser com o sentido, a determinação que existe é feita pela lei do significante, que “corpsifica” a sexualidade. O significante desorganiza o sexo, corpsignificantizando-o. Então, vamos da pulsão freudiana ao significante lacaniano e de volta à pulsão: Freud pôde propor a sexualidade humana como aberração da natureza, que erra na mosca na busca errante do alvo de satisfação, e satisfaz-se parcialmente, em um exercício polimorfo e perverso. Desse modo, um looping, como retorno a Freud, mas não desde o mesmo lugar.

 

Segundo Feynamn, físico e divulgador científico, mesmo na física, a energia só pode ser considerada se escrita, formulada, ou melhor, formalizada: “É importante perceber que, na física atual, não temos conhecimento do que é a energia. Não temos um quadro de que a energia vem em pequenas gotas de magnitude definida. Isto não é assim. Entretanto, existem fórmulas para calcular certas quantidades numéricas e aos somarmos tudo o resultado é (...) sempre o mesmo número.” [9]

 

A pulsão, entendida nos termos freudianos como “energia constante”, na formalização lacaniana, só pode ser lida se escrita. E isso se dá a partir da linguagem, pois “energia” não se dá a ler fora deste campo para o parlêtre. Equivale dizer que, no campo psicanalítico, não há organismo como anterioridade ao campo da linguagem, tampouco há uma res-extensa, enquanto origem que pulsa, a ser representada. É a fala e o campo da linguagem, contudo, que possibilitam a escrita. No Seminário livro 4, Lacan usa a alegoria da usina hidrelétrica para demonstrar que a “energia libidinal” só pode ser verificada depois de escrita, quando passa a ser calculável [10].

 

Portanto, se o simbólico é incorporal, e incorporado faz-se efeito de significante, nem os afetos são modos de fluxos energéticos pré-linguísticos, nem o corpo biológico existe como anterioridade. A libido, em termos lacanianos, pode ser lida como letra em decorrência do corpo como efeito significante, afinal: “a palavra tem uma propriedade de fato curiosa, é que ela faz a coisa” [11]. É assim que, contra intuitivamente, podemos tratar do corpo no campo lacaniano: topologicamente, como superfície que possui uma só borda. E esta é a descrição matemática da banda de Moebius que permite deslocar o corpo de organismo fonte da pressão pulsional para a superfície topológica não-orientada.

Como consequência, temos que a divisão cartesiana em coisa-pensante e coisa-extensa não cabe para o sujeito lacaniano. Este sujeito dividido evanesce “entre”, corpo-incorporal, no bífido do significante – que é, em si, irrepresentável, mas representa o sujeito para outro significante.

 

Ainda mais: no “Prefácio a uma tese”, Lacan lança a pergunta: “Onde situar esse objeto a, o grande incorporal dos estoicos?” [12]. Para responder, é preciso considerar que o incorporal dos estoicos, em Lacan, é o objeto causa do desejo. E, dessa causa, só temos notícia pelos seus efeitos. O efeito do objeto causa é, precisamente, o corpo. O corpo do qual a psicanálise trata é, portanto, incorporal enquanto causa do desejo e seu efeito de sujeito incorporado.

 

REFERÊNCIAS:

[1] FREUD, Sigmund (1915). “Os Instintos e seus destinos”. In: Sigmund Freud Obras Completas, vol. 12. São Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 57.

[2] Bréhier, Émile (1908). A teoria dos incorporais no estoicismo antigo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012, p.21.

[3] Bréhier, Émile (1908). A teoria dos incorporais no estoicismo antigo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012, p.36.

[4] LACAN, Jaques (1970). “Radiofonia”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 406.

[5] LACAN, Jaques (1966-67). A Lógica da Fantasma – Seminário Livro 14. Recife: Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2017, p. 337.

[6] LACAN, Jaques (1962-63) A Angústia – Seminário livro 10. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 100

[7] Bréhier, Émile (1908). A teoria dos incorporais no estoicismo antigo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012, p.25.

[8] LACAN, Jaques (1970). “Radiofonia”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 407.

[9] FEYNMAN, Richard Philips. “Conservação da Energia”. In: Lições de Física de Feynman. Porto Alegre: Bookman, 2008, p. 54.

[10] LACAN, Jaques (1956-57). A Relação de Objeto – Seminário Livro 4. Rio de janeiro: Zahar, 1995, p. 43.

[11] LACAN, Jaques (1977-68). Le Moment de Conclure – Séminaire 24. In: Staferla. Consulta online em: http://staferla.free.fr/, p. 03.

[12] LACAN, Jaques (1969). “Prefácio a uma tese”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 399.

Dados da autora: Membro da EPFCL-Brasil, Fórum São Paulo.

stylete lacaniano. ano 6. número 20.