A vida, insistência

Pricila Pesqueira de Souza

Atravessando uma rua rumo à análise, caminho que faço há anos, percebo, só agora, muitas pessoas vendendo coisas no sinal. Em cada semáforo, um sujeito calejado pelo sol, às vezes com um olhar de súplica, lutando para sobreviver. Com Guimarães Rosa, sabemos que “somente com alegria a gente realiza bem – mesmo até as tristes ações.”[i]. Essas pessoas sabem disso e sabem também que “com cansaço é que se tapa o desanimo”[ii]. Ânimo para sobreviver, que é diferente de viver. Bem sabemos.

 

Perceber isso agora, para além das minhas questões subjetivas, revela o insuportável desse ano e infelizmente dos próximos: a pobreza aumentando e obrigando as pessoas a exporem o corpo, com a cara e a coragem já que “carece  de ter coragem...”[iii], na esperança de que alguém queira uma água fresca ou qualquer outra coisa que o faça ganhar uns trocados para matar a sede e a fome, a sua e dos seus.

 

É sobre a pobreza que quero escrever. Dessa pobreza de bens materiais, mas não só essa, também aquela de cada um de nós, e ainda da pobreza maior “... porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa que ouro – existe a quem falte o delicado essencial. ”[iv]. Para isso, me servirei de “Grande Sertão: Veredas”, “Vidas Secas” e “A hora da estrela”. Também será uma homenagem aos nordestinos, nas figuras de Guirigó, Fabiano e Macabéa. Sigamos.

 

Em “Grandes Sertões: Veredas”, a pobreza é só mais um tema, junto com tantos outros. Riobaldo, o jagunço narrador, nos conta sobre o menino Guirigó, que ele encontrou em suas andanças e quis levar consigo em sua última empreitada: “Tão magro, trestriste, tão decriado, aquele menino já devia ter prática de todos os sofrimentos. Olhos deles eram externados, o preto no meio dum enorme branco de mandioca descascada. O couro escuro dele era que tremia, constante, e tremia pelo miúdo, como que receando em si o que não podia ser bom. E quando espiava para a gente, era de beiços, mostrando a língua à grossa, colada no assoalho da boca, mas como se fosse uma língua demasiada demais, que ali dentro não pudesse caber; em bezerro pesteado, às vezes, se vê assim. Menino muito especial. Jagunço distraído, vendo um desses, do jeito, à primeira, era capaz da bondade de desfechar nele um tiro certo, pensando que padecia agonia, e que carecesse de ajuda, por livração.”[v]

 

Após essa descrição da pobreza de Guirigó, o autor fala da riqueza desse menino, que era a própria vida, e, por causa dela, o recurso de se negar, isso ele podia! “O pretinho espichado no chão sacudia a cabeça, que não que não, que parecia ter gosto de poder negar assim -  ‘Mas o de comer todo se acabou...’Havia de negar tudo, renegava: até que tivesse tido mãe, nascido dela, até que a doença brava estivesse matando o povo do Sucruiú, os parentes todos dele. A gente queria que aquele traste de menino sentisse em si, e se entristecesse, por tantas suas desditas chorasse uma lágrima, a lagrimazinha só, por um momento que fosse. Ah, ele fizesse logo isso, a gente ficava desconsolado e legítimo no triste, a gente ficava tranquilizados. Qual, o menino preto negava. O que ele afirmava, no descaramento firme do seu gesto, era que nem era ninguém, nem que aceitava regra nenhuma devida do mundo, nem estava ali, defronte dos cascos dos cavalos da gente. Ah, queria salvar seu corpo, queria escape. Se abraçava com qualquer poeira.”[vi]

 

Em “Vidas Secas”, Graciliano Ramos fala da pobreza, da miséria, da secura do solo e das pessoas, que dificultam, e às vezes impedem a vida. Ele fala da travessia de uma família no sertão em busca da sobrevivência. Fabiano sentia-se um sujeito de “imaginação fraca”[vii], “dava-se bem com a ignorância”[viii]. “E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.”[ix]Mas tinha “muque e substância”[x]. Seguia  desejoso de salvar a vida e a família. Seguia fazendo o que ele sabia fazer: ser um sujeito forte frente à dureza da seca, do sertão e das pessoas.

 

Sobre os urubus, mas penso aqui no soldado amarelo, Graciliano diz: “o que indignava Fabiano era o costume que  os miseráveis tinham de atirar bicadas aos olhos de criaturas que já não se podiam defender.”[xi]Às vezes é muito difícil se defender da canalhice, como a do soldado amarelo, do dono da fazenda e do governo. Mas Fabiano resistia. Certa feita, teve oportunidade de matar o soldado amarelo. “Fixou os olhos nos olhos do polícia, que se desviaram. (...) Inutilizar-se por causa de uma fraqueza fardada que vadiava na feira e insultava os pobres! Não se inutilizava, não valia a pena inutilizar-se. Guardava sua força”.[xii]

 

Guardava sua força para viver. “As palavras de sinhá Vitoria encantavam-no. Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida. (...) e andavam para o sul, metidos naquele sonho. (...) E o sertão continuaria a mandar gente pra lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinhá Vitoria e os dois meninos.”[xiii]. A jornada é sempre longa. “Caminhariam meses. Ou não caminhariam? Sinhá Vitoria achou que sim. Fabiano agradeceu a opinião dela e gabou-lhe as pernas grossas, as nádegas volumosas, os peitos cheios. (...) Era. Estava boa, estava taluda, poderia andar muito. Sinhá Vitoria riu e baixou os olhos. Não era tanto como ele dizia não. Dentro de pouco tempo estaria magra, de seios bambos. Mas recuperaria carnes. E talvez esse lugar para onde iam fosse melhor que os outros onde tinham estado (...)O mundo é grande. Realmente para eles era bem pequeno, mas afirmavam que era grande – e marchavam, meio confiados, meio inquietos.”[xiv]

 

Agora é Macabéa. A estrela. Moça que não tinha sequer “pobreza enfeitada”[xv], que “vive em um limbo impessoal, sem alcançar o pior nem o melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando (...). Na verdade -  pra que mais que isso?”[xvi]. Além do que era incompetente: “incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si em si mesma.”[xvii].  Havia nascido com “maus antecedentes” e quando passava “ninguém olhava pra ela na rua, ela era café frio”[xviii]. Macabéa: um “parafuso dispensável” em uma “sociedade técnica”[xix]. Na infância, não teve bola e nem boneca. Não se queixava de nada. “Nunca tinha tido coragem de ter esperança”.[xx]

 

“A única coisa que ela queria era viver.”[xxi] E de vez em quando, comprava uma rosa. “ela era calada (por não ter o que dizer) mas gostava de ruídos. Eram vida.”[xxii] E ainda: “Esqueci de dizer que era realmente de se espantar que para corpo quase murcho de Macabéa tão vasto fosse o seu sopro de vida quase ilimitado e tão rico como o de uma donzela grávida, engravidada por si mesma.”[xxiii]

 

A pobreza habita cada ser humano, o que fazer com ela? O que é possível fazer com a miséria, às vezes extrema, que nos atravessa? O menino Guerigó, Fabiano e Macabéa nos ensinam que viver, por si só, já é uma riqueza. Lacan, no seminário RSI, fala “é claro que fracasso, mas não é razão para não tentar. Nem que só para demonstrar o estopim do impossível, minha impotência.”[xxiv]Sigamos tentando. Mejorará.“Natureza da gente, mal completada...”[xxv]

REFERÊNCIAS:

 

[i]Guimarães Rosa, Joao. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2006.P.422.

[ii] Ibidem. P.400

[iii] Ibidem. P.106

[iv] Lispector, Clarice. A Hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. P. 12

[v] Op. Cit. Guimarães Rosa, João.P.396

[vi] Ibidem. P.397

[vii] Ramos, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Record, 2016. P. 29

[viii] Ibidem. P. 22

[ix] Ibidem. P. 18

[x] Ibidem. P. 28

[xi] Ibidem. P. 126

[xii] Ibidem. P. 107

[xiii] Ibidem. P. 128.

[xiv] Ibidem. P. 122-123

[xv] Op. Cit. Lispector, Clarice. P. 21

[xvi] Ibidem. P. 23

[xvii] Ibidem. P. 24

[xviii] Ibidem. P. 27

[xix] Ibidem. P.29

[xx] Ibidem. P. 76

[xxi] Ibidem. P. 27

[xxii] Ibidem. P. 33

[xxiii] Ibidem. P. 60

[xxiv] Lacan, J. Seminário XXII – RSI, inédito.

[xxv] Op. Cit. Guimarães Rosa, Joao.P.463

Dados da autora: Psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum Mato Grosso do Sul.

stylete lacaniano, ano 5, número 15.