O ato performático e a interlocução com o ato psicanalítico

Zélia Maria Gouvêa Carmo

A performance foi aceita como expressão artística independente na década de 1970. A arte conceitual naquela época consistia em ideias que fossem mais importantes que o produto e numa arte que não pudesse ser comprada ou vendida, sendo a performance uma demonstração ou uma execução dessas ideias contrárias a este tipo de enclausuramento.

 

Foi em 1979 que a primeira história da performance foi publicada, revelando que havia uma longa tradição de artistas voltando-se para a performance em ato como meio de expressar as suas ideias, se tornando um papel importante na história da arte. A performance é uma maneira de dar vida a muitas ideias formais e conceituais nas quais se baseia a criação artística. Estas demonstrações, ao vivo e em cores, são uma arma contra os convencionalismos da arte.

 

O ato performático, desde os futuristas até nossos dias, vem sendo a expressão na tentativa de chegar a um grande público para chocar as plateias, levando à reavaliação da arte em relação à cultura. Esta forma de arte pode ser em grupo ou solo com múltiplos adereços a céu aberto ou em recinto fechado. O que ocorre, ao contrário da tradição teatral, o performer é o artista, raramente um personagem, como acontece com os atores, e o conteúdo raramente segue um enredo ou uma narrativa tradicional. Independentemente da época, o ato performático conferiu ao artista uma presença na sociedade. Através da história, percebemos a importância do performer na sociedade.

 

Em suma, a história da performance no século XX é a história de um meio de expressão maleável e indeterminado, praticado por artistas impacientes com as limitações das formas estabelecidas. Eles estão decididos a colocar sua arte em contato direto com o público, levando suas inquietações, sendo, desta forma, anárquica. Cada artista expressa sua própria definição de seu processo criativo e seu modo de execução. A performance é o meio mais seguro de desconcertar um público acomodado. Dá a seus participantes a liberdade de ser, ao mesmo tempo, “criadores” e “objetos de arte”.

 

Podemos dizer que as mitologias se originaram no mundo em um ato, no ato de criação, Poiesis – do caos se fez o cosmos – e do nada nasceu tudo. No princípio era o ato. Do ato performático ao psicanalítico, podemos afirmar que foi no ato de castração que o mundo se fez, sendo transgredido por Prometeu, e assim sucessivamente o desejo de saber, o poder de produzir e criar. O pai tirânico cai por terra, quando assassinado por seus filhos em “Totem e Tabu”, na horda de Freud [1]. Sua herança é a lei dos homens e a interdição do incesto. E assim foi criada a civilização. Voilá!

 

“É a fórmula do ato”, diz Lacan [2]. Trata-se da instauração do novo, de um antes e um depois. Ato analítico e performático encontram um ponto de intercessão em sua função criacionista, em sua natureza transgressora e abertura para o imprevisível. 

 

Para corroborar a aproximação entre o ato performático e o ato psicanalítico, apresento Aleta Valente, artista brasileira, vive e trabalha no Rio de Janeiro. Suas produções fotográficas, são ao mesmo tempo, requintadas e banais. Seus ATOS são improvisados e as situações instalativas preveem a participação do grupo, seu trabalho é ativado por fissuras entre o campo da arte e da tecnologia e se desdobra em zonas insólitas. A artista opera distintos processos de criação, contrapondo a desproporção do plano geográfico da cidade e alinhando realidades para além de reais e virtuais.

 

Em seu Instagram, atua desde 2015, seu nickname é “Ex Miss Febem”, esta nomeação vem da música de Fausto Fawcett e o baixista Carlos Laufer (1987). A canção relata a história de Katia Lucia. Este trabalho será conduzido através do ato performático e na interlocução com a psicanálise.

 

Aleta, reside em Bangu, desafia estereótipos e recebe enxurradas de ataques. Em 2017 por ter recebido grande número de denúncias de outros usuários, saiu do instagram. Moça bonita e “gostosa” aparece em selfies nas mais diversas poses, só que em cenários nada glamourosos, muito pelo contrário.

 

Como a Organização das Nações Unidas (ONU), que equiparou a proibição do aborto à prática de tortura contra mulheres, Aleta é pró-aborto. Na exposição coletiva no Instituto Tomie Ohtake, Aleta colocou na parede um grande cartaz, onde se lia: “Vamos falar sobre aborto”, que estava conectado a um número de telefone que o atendeu por 24h. Quando engravidou, não teve a opção de ser submetida ao aborto, o que a fez experimentar a impossibilidade de dizer não a gravidez indesejada e a fez viver a impossibilidade de viver a vida, ficou privada. Hoje em dia se tornou “doula de aborto”. O trabalho é voluntário e consiste em dar informações e apoio psicológico a meninas e mulheres que querem abortar e não tem a quantia de R$ 8 mil que é cobrada em clínicas clandestinas.

 

Em seu trabalho, Barbara (2016), ela interpreta uma presa que saiu do isolamento com o bebê no colo e o cordão umbilical ainda no útero, conforme descrito em um relatório da prisão de Bangu. Este trabalho representa a maternidade, a marginalidade e o horror a que as mulheres estão expostas a um sistema que não respeita as singularidades deste sujeito.

 

Tania Rivera [3], em seu livro O avesso do Imaginário, diz: “Emprestar seu corpo à obra, dar à obra um corpo ou ainda fazer do corpo uma obra – essas expressões não dizem tudo e mostram o jogo mesmo entre corpo e arte, entre corpo e sujeito”. O sujeito está na questão central da arte, ele interage, assim como Aleta, nos coloca diante do objeto Coisa, que sai do senso comum, se torna uma obra de arte, a performance entre sujeito e Coisa. A arte contemporânea é marcada por um verdadeiro retorno do sujeito, no real. A performance põe em questão o sujeito – e a arte, em seu reduto próprio.

 

REFERÊNCIAS:

 

[1] FREUD, S. (1913). Totem e Tabu e outros trabalhos. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, Imago, 1990, vol. XIII.

[2] LACAN, J.   (1967-68) O ato psicanalítico. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.

LACAN, J. (1967-68). O Seminário, livro 15: O ato psicanalítico. Inédito, p. 81.

QUINET, A. O inconsciente teatral, psicanálise e teatro: homologias. Rio de Janeiro: Atos e Divãs Ed., 2019.

[3] RIVERA, T.   O avesso do imaginário: arte contemporânea e psicanálise. São Paulo: Cosac Naify Ed., 2013.

Dados da autora: Membro da EPFCL-Brasil, Fórum Região Serrana/RJ.

stylete lacaniano. ano 6. número 20.