Paz sem amor é morte

Marisa de Costa

“Paz e amor” é uma expressão que surge nos anos 60, lema principal dos hippies, mas ainda bastante presente na atualidade, sobretudo nos dias sombrios que o Brasil e o mundo têm vivido politicamente. Sabemos que é o amor nossa arma para lidar com tamanho ódio imaginário e louco que vemos por toda parte. A despeito ainda dessa expressão entendemos que paz precisa de amor. Fica incompleto se dissermos apenas “paz”. Ela sozinha é morte, como podemos entender com Freud quando teoriza sobre o princípio da constância, que é essa tendência conflituosa em retomar à estados inanimados, à morte, Tânatos[1]. Por outro lado, o amor parece tirar nossa paz, como diz a canção de Nando Reis: “eu estava em paz quando você chegou”.

Desde o início da história da psicanálise observamos o quanto Freud, em ato, sustenta e defende sua teoria da sexualidade independente dos custos e perdas que isso acarretou, qual seja, o rompimento com Breuer, Charcot, Jung, os quais, seja por divergências morais ou teóricas, acreditavam que o sexo deveria ficar secreto nas alcovas. Tanto que Freud responde em carta à proposta de Jung para suprimir o termo sexualidade dizendo que não podemos “poupar a outrem o gosto ácido do instante em que eles mordem a maçã”[2]. Melhor assim. Se não houvesse tais rompimentos, não haveria psicanálise. Até porque ser psicanalista pressupõe ter sido analisado. E a psicanálise é contrária e avessa a uma série de discursos. Afinal, o efeito de uma análise não é o de tudo suportar, diferentemente, uma análise nos ensina inclusive o que não pode ser tolerado[3].

A implicação entre sexualidade e amor entendidos em uma concepção ampla, faz parte do alerta freudiano para a possibilidade de equívoco dos psicanalistas ao esquecer que “usamos a palavra ‘sexualidade’ no mesmo sentido compreensivo que aquele em que a língua alemã usa a palavra lieben (‘amar’).”[4] Com Lacan sabemos que “falar de amor, com efeito, não se faz outra coisa no discurso analítico”[5]. Mas poderíamos inclusive pensar que não só na análise, mas também na vida de forma geral, o amor está em tudo – em nossa posição política, em nossa escolha profissional. O que nos faz sair de casa diuturnamente é o amor, Eros, pulsão de vida. Com Freud, vida é amor. “São a fome e o amor que movem o mundo”, diz Freud citando o poeta e filósofo Schiller, destacando a importância do amor e também seu aspecto mendicante e pedinte, uma vez que uma demanda é sempre de amor.

O amor aparece na filosofia, na literatura e na psicanálise como impossível e antinômico de felicidade – amor platônico, amor cortês, desencontros amorosos, os dramas do amor. Desde o primeiro amor temos as primeiras decepções dele decorrentes. Mas é preciso lembrar que com a psicanálise “o primeiro amor é sempre o segundo”[6].

Por outro lado, quando Freud escreve sobre o tornar-se feliz, nos lembra que “assim como o negociante cauteloso evita empregar todo seu capital num só negócio, assim também, talvez, a sabedoria popular nos aconselhe a não buscar a totalidade de nossa satisfação numa só aspiração”[7]. É melhor investirmos nossa libido em vários locais. E isso também é o efeito de uma análise, pois “desidentificar o sujeito é também liberá-lo das restrições que a repetição impunha a suas escolhas de objeto e abrir para ele uma maior variedade de encontros”[8]. E onde colocaremos nossos afetos e nosso amor não são escolhas conscientes, é da ordem do inesperado como lindamente escreve Duras: “Um homem próximo da morte pergunta a uma mulher: como o sentimento de amar pode surgir? E ela responde: de uma falha repentina na lógica do Universo, por exemplo, de um erro, nunca de um querer”. Deste feito, entendemos que eleger um amor é da ordem do inconsciente, fora do sentido, que desestabiliza o sujeito.

“Não há relação sexual”, afirma Lacan para marcar o descompasso amoroso e do desejo. Nesse mesmo sentido, Caetano diz em sua música: “onde queres dinheiro, sou paixão. Onde queres descanso, sou desejo. E onde sou só desejo, queres não (...) onde queres ternura, eu sou tesão (...) Eu te quero (e não queres) como sou. Não te quero (e não queres) como és”. Se o amor escancara nossa posição de castrados, quando isso ocorre apesar da relação sexual inexistente trata-se de um milagre[9], um privilégio.

Portanto, dizer que o amor faz suplência à não relação sexual, aponta para uma dimensão de necessidade de amor, em detrimento de um distanciamento absoluto dos homens. A clínica evidencia que, embora a satisfação no amor não exista, nem por isso, a humanidade não continue a tentar, uma vez que atribuímos uma pertinência no amor ao assumir para a humanidade um estatuto de via para a felicidade. É relevante que os homens, frente ao real da não existência da relação sexual, poderiam se excluir. Diferentemente, as análises caminham para um laço, que Lacan chamou de “um novo amor”[10] feliz que viria como efeito de final de análise. Uma análise permite “o que há de mais real no amor: a felicidade do sujeito”[11]. Pois se o percurso de uma análise passa pelo reconhecimento de que “o próprio amor é repetitivo”[12] quando o sujeito consegue dizer não à demanda do Outro, é possível dar um passo em direção ao seu desejo, como marca Lacan com a homofonia existente na língua francesa entre não e passo[13]. Pois se a entrada em análise é marcada pelo discurso da histérica em apontar as faltas no Outro, num amor que não vai bem por inúmeros motivos, o final de análise chegaria após dar alguns giros no discurso, enumeráveis voltas no Real, um sujeito que ame outro sujeito com suas diferenças e singularidades. 

Por fim, termino com o refrão da música de Gal Costa para dizer que paz com amor é sorte. Talvez a sorte, então, seja concluir uma análise: “Meu amor! Você me dá sorte, meu amor! Você me dá sorte, meu amor! Você me dá sorte na vida!”

 

[1] FREUD, Sigmund. “Além do Princípio do Prazer”. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1920/1996.

[2] ROUDINESCO, Elisabeth. A História da Psicanálise na França: A batalha dos Cem Anos. Vol. 1: 1885-1939. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989, p. 127.

[3] FREUD, Sigmund. O valor da vida. In: https://www.contioutra.com/o-valor-da-vida-uma-entrevista-rara-de-freud/

[4] FREUD, Sigmund. “Psicanálise Silvestre”. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XI. Rio de Janeiro: Imago, 1910b/1996, p. 234.

[5] LACAN, Jacques. O seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1972-1973/2008, p. 89)

[6] SOLER, Colette. A psicanálise na civilização. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1998, p. 367.

[7] FREUD, Sigmund. “Mal-Estar na Civilização”. In: Edição Standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1930/1996, p. 91.

[8] Ibid 7, p. 368.

[9] LACAN, Jacques. O seminário, livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2a ed. 1960-1961/2010, p. 72.

[10] Ibid 4, p. 22.

[11] Ibid 7

[12] Ibid 7, p. 367

[13] LACAN, Jacques. “Radiofonia” In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1970/2003.

Dados da autora: Psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum Mato Grosso do Sul.

stylete lacaniano. ano 4. número 14.