Paula Rego: a arte, o horror/belo e a política do corpo

Yara Ligia Andrade Lemos

Por que Paula Rego?

Em 05 de maio de 2019, visitei a Casa das Histórias Paula Rego, inaugurada em 2009, em Cascais, em homenagem à obra pictórica da artista, com exposições de seus trabalhos e das histórias de sua vida. Entre surpresa e encantada com tão bela montagem, foi iniciada uma pesquisa em seu acervo sob o ponto de vista psicanalítico.

Na época, a curadoria optou pela temática “No tempo em que os animais falavam” (coletânea de obras dos anos 80, que foram reunidas), por dar ênfase aos quadros em que os animais são tomados como personagens humanizados. Em toda a sua trajetória, o inverso também se faz representar: mulheres animalizadas, com a ferocidade de quem quer morder. “Ela tem a força para saltar e morder, porque ela está presa” – explica Paula Rego sobre a imagem da “mulher cão” ao jornalista Paulo Magalhães, da TVI[1]. Não havia ali uma fronteira entre o humano e o animal e o animal e o humano – recurso estético para mostrar um mundo desumanizado. Neste ponto, vale ressaltar que essa “não fronteira” provoca a conexão horror/belo, obrigando a sociedade a refletir acerca das imagens do corpo e da política do corpo.

A propósito, em 1986, inicia a sua série de quadros a que dá o título de Menina com cão. O cão aparece à mercê dos cuidados de uma menina, ao mesmo tempo que é de estimação (como uma boneca); parece um bebê ou mesmo um homem, assumindo papel humano ou divino.

Já no meio da década de 90, ela desenvolve as séries Mulher cão (1994) e O aborto (1997), tendo, em ambas, a modelo Lila Nunes, com quem trabalha até hoje.

Com a série Mulher cão, Rego apropria-se da história de uma mulher que vivia sozinha com seus animais numa casa enorme, perdida no meio das dunas. Ao ouvir a voz de uma criança que lhe dizia que matasse todos os animais, ela enlouquece e os devora a todos. Ao estar desenhando, essa história lhe vem à mente e pinta a figura que resultou na “mulher cão”, usada em um novo ciclo de mulheres solitárias, de feroz aparência, cuja natureza visceral e sexual se impõe. Em contrapartida, a série Mulheres avestruzes[2] revelam aspirações espirituais que se afastam da “mulher cão”, conforme explica Cantinho (2003)[3].

Paula, de início, tornou-se uma artista consagrada em Portugal, seu país de origem, e na Inglaterra, país do coração, para vir a ser internacionalmente conhecida, com vários prêmios de destaque e títulos desde 1966, quando expõe individualmente na galeria de Arte Moderna da Escola de Belas-Artes de Lisboa. Interessante dizer que, para os ingleses, ela é cidadã inglesa, por morar em Londres e por ter toda sua formação artística feita ali. Os críticos discordam, justificando que sua obra é matizada por temas portugueses. Paula justifica não morar em Portugal por ser “perto demais dos meus medos”.

A fim de contextualizar sua trajetória, faz-se necessário um breve retrocesso cronológico.

Em 1956, retorna ao seu país grávida do namorado Victor Willing, após ter feito vários abortos clandestinos que colocavam sua vida em perigo. Em 1959, casa-se com Victor – um estudante destacado dos demais pela beleza da sua arte e técnica – e com ele constitui uma prole de 3 filhos. Ele foi o grande incentivador de Paula, ouvindo-a em suas angústias e orientando-a na construção de sua obra.

Com dificuldades financeiras devido à falência da fábrica que Victor dirigia, a família mudou-se para Londres. Entre 1963 e 1975, Paula, então, passa a ir e vir entre esta cidade e Lisboa, onde ganhara uma bolsa de estudos pela Fundação Calouste Gulbenkiam, para pesquisar contos tradicionais populares portugueses.

Toda sua obra tem como tema histórias originárias desses contos e lendas, onde os personagens “são figuras perversas, cruéis, porque a vida é cruel”, afirma Paula Rego em entrevista. São histórias violentas, reconstruindo memórias de infância que a aterrorizavam, cuja temática varia entre encantamento, amor, sedução e terror, segundo pôde-se colher em diferentes momentos desta pesquisa.

 

Paula é considerada uma contadora de histórias. Após longas pesquisa, em 1965, compõem as pinturas “Salazar a vomitar a pátria” e “Os cães de Barcelona”, onde se pode identificar o desejo de usar personagens para fazer justiça social, num engajamento político.

 

Em 1983, torna-se professora convidada de pintura na Slade School of Art, onde fez a sua formação inicial. De um modo geral, sua pintura é considerada como a que desperta incômodo, inquietação. As figuras são consideradas grosseiras, até mesmo grotescas, e “é no campo de uma indecibilidade entre o humano e o animal que elas emergem, configurando-se como seres habitados por uma espantosa força sexual” (Cantinho, 2003)[4] – indecibilidade essa que traduz uma incapacidade de definição.

Os quadros de Paula, quando tocam a questão da “identidade”, são construídos pela luta, ou seja, pelo conflito. Cantinho (2003)[5] destaca uma fala da artista sobre o prazer da criação aliado ao da destruição, ao explicar que tal conceito a aproxima de George Bataille: “Para a arte o desejo de destruir é maior do que o de decorar o vazio do suporte onde emerge a obra”. Por outro lado, seu filho Nick Willing (2017) acentua uma fala corrente da mãe: “Fazer arte é uma merda”.

“Uma raiva destrutiva que é fonte e magma da criação, raiva que é posta como ruptura fundante” – diz Cantinho (idem), ao explicar que não se pode desprezar o gosto e o fascínio da pintora pela violência.

Paula Rego possui uma narrativa esteticamente forte; dos seus quadros emanam uma grande força impressiva que remete para temáticas emocionalmente turbulentas, como, por exemplo, as pinturas “Aborto” ou “Possessão”. Gil[6] explica que sua estética se insere na corrente modernista chamada “Arte Bruta”, designação criada por Jean Dubuffet, conhecido pessoal de Rego, no sentido de que a arte pictórica não tem a obrigatoriedade de ser agradável e que deve igualmente poder expressar um estilo mais cru, primitivo e bruto. “Em minha opinião, Paula Rego conseguiu alcançar, com absoluta mestria, o desiderato dessa estética tão irreverente e acutilante”, declara Antônio Gil[7].

Um outro exemplo desse horror/belo, arrebatador e provocativo é também a série O aborto, onde as figuras narrativas estão sozinhas com o seu corpo, com seu destino e com expressões que se confundem entre o prazer, a dor, o medo – sentimento que, desde pequena, a consome: “Eu sou montada no medo”, proclama. Aliás, ainda sobre a infância chama atenção do filho Nick para uma doença que a acometera naquela fase e que permanece até os dias atuais: a depressão. Em 2007, trancou-se no quarto por oito meses, para “pintar a cara da depressão”.

Sobre o assunto aborto, a própria Paula o traz à tona quando afirma que nunca sentira culpa pelos que fizera, porque era muito comum na sociedade da época adotá-lo. Não havia alternativas diante da ameaça da condenação pelo estigma e da consequente exclusão familiar e social advinda, ou seja, o sentimento de culpa e o supereu tirânico vêm como marcas da depressão.

Para Freud (1930), o sentimento de culpa decorre por medo da perda do amor. O sujeito só se permite agir mal quando tem segurança que a autoridade não saberá; tem apenas medo de ser descoberto.

Essa relação da artista com causas políticas expostas em seus quadros remetem à Política do Corpo, na medida em que as imagens são usadas para controlar opiniões ou influenciar ações, como no caso da campanha que endossou pela legalização do aborto em Portugal, com referendos nos anos de 1998 e 2007, nos quais teve influência decisiva pelo sim.

A arte de Rego transcende quaisquer correntes artísticas; elas expressam critérios de beleza desconstruídos, ao mesmo tempo em que representam algum tipo de resistência, como se observa no vídeo aqui postado com o título “Paula Rego: “AbortArt”

Neste ponto, vale dizer que, como do início de minha pesquisa sobre o assunto, levanto aqui, mais uma vez, a possibilidade de sua arte ser um tratamento do gozo.

Para ela, muitas vezes já se está a desenvolver um trabalho quando encontra a história “no caminho”. Daí a casa em sua homenagem chamar-se “Casa das Histórias” – ainda bem que, por sua produção incessante, ainda haverá muitas delas a serem contadas.

REFERÊNCIAS:

 

[1] REGO. P. É assim Paula Rego. Entrevista concedida a Paulo Magalhães, da TVI. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=mH8OCT1-lIg>. Acesso em: nov/2019.

[2] Em 1975, Rego apresenta a série Avestruzes-dançarinas, formada por figuras de mulheres fortes que contrastam a leveza esperada em uma bailarina.

[3] CANTINHO, Maria João. Paula Rego. La insignia. 2003. Disponível em:  <https://www.lainsignia.org/ 2003/abril/cul_055.htm>. Acesso em: out/2019.

[4] CANTINHO, Maria João. Paula Rego. La insignia. 2003. Disponível em:  <https://www.lainsignia.org/ 2003/abril/cul_055.htm>. Acesso em: out/2019.

[5] Idem.

[6] GIL, António. Paula Rego: Arte bruta... Intellectus. 2011. Disponível em: <http://intelectus1.blogspot.com/ 2011/09/paula-rego-arte-bruta.html>.

[7] Idem.

 

Dados da autora: Psicanalista da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum Rio de Janeiro.

styelete lacaniano. ano 5. número 15.