Dalí: a arte ordena o caos 

Cecília Alazraqui

Tanto a literatura psicanalítica como a prática têm nos brindado importantes considerações e amostras do impacto da arte e da escrita literária nos processos psíquicos que permitem ao sujeito se localizar. Algumas das mais valiosas apreciações foram feitas, inclusive, pelo fundador da psicanálise - Sigmund Freud [1]. Dentro desta temática abordarei a criação do método paranoico-crítico, por Salvador Dalí, o mais célebre pintor surrealista do início do século XX.

 

São as primeiras contribuições sobre a paranoia, especificamente a incursão de Lacan nessa arena, a partir do caso Aimée, que dão a Dalí os elementos para criar seu método paranoico-crítico, distanciando-se assim do automatismo mental e dos estados passivos praticados pelo surrealismo. Essa criação serviu-lhe de  referência para o resto de sua vida. É indiscutível a influência de Lacan no ineditismo de seu método, como atestam os comentários feitos pelo pintor após a leitura da tese de doutorado do psiquiatra francês [2].

 

Apesar da resistência inicial de Freud aos surrealistas, a sua percepção muda ao conhecer Dali pessoalmente, reconsiderando o fato de achá-los todos loucos. Sabe-se  o quanto as ideias freudianas impactaram o mundo, ou pelo menos o ocidente no século XIX, e embora tenham feito uso equivocado da proposta freudiana, foi graças a esses artistas e escritores que a psicanálise penetrou na França.

 

O contexto histórico em que tais movimentos artísticos se desenvolveram gravitou em torno da Primeira Guerra Mundial e foi abrumador nas suas consequências, tanto nas artes quanto nas próprias produções de Freud. O contraste entre os tempos da pré- guerra e a guerra propriamente dita nos dá uma noção do quão devastadora foi a experiência bélica. Tanto a Europa quanto os EUA estavam em sua mais plena forma, desfrutando as delícias frenéticas do consumo, na posteriormente denominada Belle Époque, que se inicia após o fim da guerra Franco-Prussiana (1870-71) e se encerra com a Primeira Guerra Mundial.

Nessa época formaram-se centros urbanos inundados de inovações tecnológicas que acabaram por modelar também o comportamento e os sentidos humanos. Criara-se a ilusão de que a felicidade não teria fim e que as invenções tecnológicas seriam suficientes para dar sentido à vida. Falamos de um momento histórico de grande efervescência cultural e artística, que se refletia nos salões da alta sociedade parisiense e vienense.

 

Contudo, por baixo desse cenário de cores vibrantes, crença na potência do capitalismo industrial e valiosas produções culturais e artísticas, corria um rio em cujo leito se gestava o próximo ato, aquele em que todas as ilusões se desfariam, o belo se esvairia e apareceria o horror em sua face mais pura. A corrida imperialista, os nacionalismos e as disputas por mercados levaram o mundo a uma grande guerra, envolvendo todos os continentes e transformando os homens em meras peças de um tabuleiro macabro.

 

As consequências do horror não passariam incólumes, nem pelo mundo das artes nem pelo mestre da psicanálise. O ambiente impregnado de angústia, que a guerra causara, produziu frutos no campo literário e artístico. Além da produção de muitos outros intelectuais, o ambiente denso da pulsão de morte afetou em cheio também o pai da psicanálise, que além de escrever “Introdução à psicanálise e às neuroses de guerra” produziu os textos: “Bate- se numa criança” e “O estranho”, todos de 1919, um ano após o término da Primeira Guerra Mundial. Em 1920 surge também um dos pilares da literatura psicanalítica freudiana, o “Além do princípio de prazer”. Os ideais estéticos foram colocados em rixa, negava-se a harmonia das formas, revelando a condição destroçada daqueles veteranos que voltavam da morte e do puro terror.

O surgimento de Dali no surrealismo, marcou uma grande ruptura na proposta, tanto dos dadaístas como dos próprios surrealistas. Um dos diferenciais do artista começou pela valorização dos pintores clássicos renascentistas e foi em direção contrária à atitude passiva da escrita automática. O Salvador das artes, como ele mesmo se proclamava, viera para “salvar a arte moderna da preguiça e do caos.”

 

Para Dalí, como a ordem sempre emergia do caos, podemos pensar que tanto caos, pessoal e mundial, pode ter sido um grande caldo de cultivo para a sua inovadora obra. Para ele, já se referindo ao método paranoico-crítico, sistematizar a confusão era uma posição ativa que se nutria da “vontade violentamente paranoica”, segundo ele mesmo escreveu na revista Le Surréalisme au Service de la Révolution (1930).

 

O que seria uma interpretação paranoico-crítica da realidade? Podemos exemplificá-la na relação de Dali com o quadro de Jean-François Millet, o Angelus. O mal-estar que a pintura lhe provocava revelara uma realidade por trás da realidade, nesse caso, descoberta após um estudo de raio x sobre a tela que mostrou uma figura geométrica, semelhante a um caixão, superposta ao saco de batatas. A explicação para o mal- estar gerado pela tela e o que nela continha “escondido” tomou corpo em 1930 na construção de sua teoria denominada método paranoico-crítico de interpretação da realidade.

 

Como nos ensina a psicanalista, Vanisa Moret Santos, em seu livro , Salvador Dalí - o efeito do Estranho em sua obra (SANTOS, 2015),originalmente, o quadro de Millet, pretendia plasmar uma catástrofe agrária que gerou uma escassez de batatas. A cena extremamente melancólica do casal de camponeses olhando para o saco de batatas podres faz Dalí se remeter à dor de velar um filho morto, embora isso não se mostre na realidade da tela. Millet, ameniza o efeito dramático da cena incluindo uma Igreja ao fundo. A roupagem dada pelo belo religioso e o cesto de batatas escamotearia o real da angústia diante da tragédia. Dessa forma, o belo e o horror têm a mesma origem.

 

Embora não se possa ter certeza de que Dalí sabia da história por trás do resultado final na tela de Millet, o fato é que sua inquietação o levou a investigar o quadro e a descoberta do esboço do que poderia ser um caixão, onde ele julgara estar o filho morto do casal de camponeses, o levou a apresentar seu método paranoico-crítico. A tragédia particular de Dalí, passa a ter valor de verdade e o filho morto do casal de camponeses, que não consta do quadro, equivale a imagem do irmão morto, a quem Dalí viria a substituir. Portanto, a explicação dada por Dalí para seu nascimento, seguido à morte do irmão homônimo, remete ao mesmo tempo para o sexo e para a morte, pois ele foi gerado sobre o leito de um luto que não ocorreu.

 

Por isso, para compreender Dalí deve se levar em conta o seu irmão morto, seu duplo especular, sem o qual Dalí não seria Dalí. Um de seus quadros expressa muito bem isso, o “Retrato de mi Hermano muerto”, de 1963, cujos pontilhados são pequenas cerejas que formam o rosto do irmão, sendo as cerejas escuras as que representam o Dalí morto e as vermelhas, o Dalí vivo [3].

 

A obra de Dali suscita várias reflexões a respeito da importância da arte para contornar o real. Por outro lado, ao abordar o legado de Salvador Dalí e a escrita de seu método paranoico-crítico, podemos incursionar de forma extremamente original nos mecanismos do inconsciente, por deixar à mostra, sem subterfúgios, a realidade psíquica.

 

Lacan define o conhecimento paranoico como os momentos significativos das identificações subjetivas, onde a identificação é oriunda da sua relação com o outro, como uma antecipação, além das capacidades do próprio sujeito. O que interessa para Lacan é a constituição da estrutura própria do conhecimento humano. Com base nisso ele sustentará que o objeto do conhecimento humano se constitui da mesma forma que a lógica da rivalidade da paranoia, ou seja, o estádio do espelho como momento estruturante do sujeito, realizado sobre a base da intrusão do semelhante. Daí se estabelece a lógica que guia este momento de rivalidade, ou seja, uma identificação com o semelhante que tem um caráter de exclusão especificado na frase: “ou eu ou o outro” [4].

 

Lacan acabou dando a Dalí referências teóricas para fundamentar “cientificamente” seu método paranoico-crítico. Com sua tese, facilitou ao artista uma tomada de posição. Por sua parte, Dalí ofereceu a Lacan a ideia do sujeito paranoico e do delírio como valor criativo. Fazendo valer a sua verdade, o sujeito tem um lugar na ordem social. O delírio, para Dalí, se apresenta como uma construção do mundo através de palavras e imagens. Nesse mundo, o sujeito tem seu lugar; o delírio se apresenta assim como uma tentativa de cura, de reconstrução de um laço com aquilo que o organiza.

 

Com seu trompe-l’oeil, técnica baseada na ilusão de ótica que engana o olho, Dali permite que a percepção do que seria o conhecimento paranoico se concretize na tela. Ele sistematiza, organiza, arruma o caos em que se vê submergido pela história pessoal e, como vimos, também pela história factual que o acompanha em vida: duas Guerras Mundiais e entre elas uma Grande Depressão. Ele nos ensina que é possível erotizar a pulsão de morte e que é possível reescrever a própria história, como quer a psicanálise, inserindo-se no laço social através do trabalho e do amor [5].

REFERÊNCIAS:

 

[1] FREUD, Sigmund. – “Gradiva”de Jensen e outros trabalhos (1906-1908),

_______________ (1908). O poeta e o fantasiar Arte, in: Arte, literatura e os artistas, Belo Horizonte: Autêntica, 2020.

________________(1908) Escritores criativos e devaneio, Rio de Janeiro: Imago, Ed. Standart Obras Completas, 2006.

________________ (1919). O Infamiliar Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

[2] LACAN, Jacques. Da Psicose Paranóica em Suas Relações com a Personalidade. Trad.: A. Menezes,  Marco A. C. da S. Jr. RJ, Forense Universitária, 1987.

[3] REVELANDO A DALÍ – En el 25o aniversario de la muerte del artista. Produção: Carlos del Amor y César Vallejo. RTVE, Madrid, 2014. Disponível em: http://lab.rtve.es/revelando-a-dali/

[4] LACAN, Jacques (1966). O estádio do espelho. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p. 96-103.

[5] SANTOS, Vanisa Moret. Salvador Dalí - o efeito do Estranho em sua obra, São Paulo: Giostri, 2015.

Dados da autora: Membro da EPFCL-Brasil, Fórum Região Serrana/RJ.

stylete lacaniano, ano 6, número 20.