Orfeu e a verdade do amor

Andréa Brunetto

Orfeu, poeta, músico e cantor célebre, herói grego tão antigo que participou da expedição dos Argonautas, encantava a todos com o som de sua cítara e a suavidade de sua voz. Até os homens mais coléricos sentiam-se tomados de ternura ao escutar seu canto. As árvores inclinavam suas copas para ouvi-lo. Rainer Maria Rilke, em seu “Os Sonetos a Orfeu”, escreve: “Cantar, como o ensinas, não é tormento,\nem desejo de uma conquista final.\ Cantar é ser”. Orfeu é a harmonia, com sua lira e sua cítara, e com sua voz, coloca alívio nas aflições, torna o mundo menos discorde. Em outro poema, Rilke  escreve: “Só quem ousou tocar a lira\ mesmo na escuridão \sente o quanto inspira\ infinda devoção.” [1]

Orfeu apaixonou-se perdidamente pela ninfa Eurídice. Considerava-a como a metade de sua alma. Casou-se com ela, porém não tiveram muito tempo juntos. Eurídice, ao fugir de um homem que tentara estuprá-la, foi picada por uma serpente e morreu. Orfeu não aceitou a morte da esposa e decidiu descer ao Hades - o mundo subterrâneo, o Inferno - e resgatá-la, trazê-la de volta ao mundo dos vivos. E o fez. Atravessou o Estige, o rio infernal, pagou o barqueiro Caronte com uma moeda para atravessá-lo e negociou com os deuses. Convenceu-os. Consentiram em devolver-lhe a mulher só com uma condição: que a conduzisse para cima, para o mundo dos vivos, sem olhar para trás. Só poderia olhar para ela ao chegar dentre os vivos. Não esperou, estava quase lá, mas olhou para trás, procurando com o olhar, a esposa, sua metade de alma. E, como resultado de sua desobediência, ela desfez-se, esfarelou-se e ele a perdeu para sempre. Eurídice duas vezes perdida. Vocês já pensaram o porquê os deuses lhe devolveram a esposa? Não precisavam, mas mesmo assim o fizeram. Por que? Por esse desejo tão decidido de um homem de que sua mulher é aquela e mais nenhuma outra no mundo? Teria sido premiado pela sua fidelidade ao amor? Mas então por que essa condição de não olhar para trás? Logo a ele, Orfeu! Os deuses sabiam que iria fracassar, por isso lhe deram essa prova? 

Perdendo Eurídice, a harmonia se partiu. Harmonia, em grego, é precisamente junção de partes. Orfeu perdeu sua outra parte e ficou inconsolável, passou a repelir todas as mulheres da Trácia que o procuravam. Não quis nenhuma, mas inspirou tamanha paixão – provavelmente ódio, por desprezá-las – que elas o esquartejaram, jogaram seus restos e a cabeça no rio Hebro. “Ao rolar a cabeça rio abaixo, seus lábios chamavam por Eurídice e o nome da amada era repetido pelo eco nas duas margens do rio.” [2]

Junito Brandão, em seu segundo volume da “Mitologia Grega” faz duas interpretações do mito que são pertinentes, relato-as aqui, mas não serão desenvolvidas por mim nesse trabalho. A primeira é que a sua cabeça arrancada está destacada porque é um símbolo da força vital, do pensamento. A cabeça é uma eficácia mágica e, lembra ainda, a sede da Psiquê. E a segunda interpretação é que o olhar para trás de Orfeu, que ocasiona a perda derradeira de Eurídice, tal como no exemplo de Ulisses, na Odisséia, de Édipo, em Colono, ou mesmo no exemplo bíblico da mulher de Lot que olhando para trás, ‘voltou ao passado’ e sofreu, com isso, as consequências de sua desobediência a Javé [3], é um retornar ao passado, um olhar que é reminiscência, valorização da memória. É um ousar olhar o invisível. E por tal foi punido.

Essa interpretação de Orfeu como o que olha para trás e contempla seu amor, não o esquece em nenhum momento, já trabalhei em outro lugar: “Um homem que mantêm a memória do amor”. [4] Tinha afirmado que nesse mito a morte e o apagamento do amor eram o mesmo. Orfeu não esquecia a outra metade de sua alma perdida, e a desmemoriada era ela. Eurídice, à medida que deslizava cada vez mais fundo no abismo, esquecia de Orfeu. “ Ao penetrar o reino do nada, rapidamente se esquece da luz. A escuridão mancha seus olhos, seu coração. Quando Hermes fala de Orfeu, essa Eurídice responde, terrível: Quem?” [5]

Então, não quero me deter nessa cabeça que rola para o fundo do rio, ainda chamando o nome de sua amada, nem no olhar para trás como templo da memória. O que quero é repetir a pergunta feita por tantos filósofos, estudiosos dos mitos, poetas e romancistas [6]: por que olhou para trás e a perdeu? Vou mudar a pergunta: por que, olhando para trás, transformou-a em objeto perdido e não pode ser feliz, vivendo com ela? Por que repetiu a perda?

Nas minhas perguntas, de certa forma, já implico a resposta. Mas começarei a respondê-la com Rilke e, depois, com Lacan. Sigo o ensino de Lacan em O Seminário 22: Real, Simbólico e Imaginário, que estou estudando no momento. “Quando pensa que a agarraste, enfim, é mais teu o que te escapa.” [7] É mais de Orfeu a perda do que Eurídice. Essa é uma definição perfeita do que é o ser falante para a psicanálise. Por que essa perda, de sua metade, de sua harmonia, de sua alma, esta condição de desterrado a repetir o nome de sua perda serve para todos e não apenas para Orfeu. É por isso que na primeira aula de seu RSI, Lacan afirma: “Se o discurso analítico funciona é porque perdemos alguma coisa em outra parte.” [8] Direi, assim: Todos Orfeus.

Orfeu acredita em Eurídice, sua parte, sua alma, seu almor [9]. Uma mulher, na vida de um homem, é algo em que ele crê. Ele crê que há uma, às vezes mais de uma, alega Lacan. “Acreditar o que quer dizer?....só pode semanticamente, dizer isto: crer em seres que podem dizer alguma coisa.” [10] E mais adiante dessa mesma aula, sustenta que acreditar no que ela diz chama-se amor. Ainda que acreditar que há apenas uma – Eurídice e ninguém mais – seja uma crença falaciosa, esse dom precioso – e também cômico, relembra Lacan – que é o amor, se sustenta pelo que há detrás do muro. E equivoca mur (parede) com amour, marcando bem o objeto a como o que está por trás do muro-amor. O objeto a, causa do desejo, não é um objeto, não é Eurídice, é uma causa que causa sempre. O que sustenta o amor, e que causa sempre, é o ser de gozo.

Para encerrar, cito mais uma passagem de RSI. Lacan alega que há um domínio da função imaginária que se mantêm, o imaginário é grudento. E o que o pintor quer com o que tece e borra em suas telas é domar o olhar – está falando em todas as suas aulas do trançado, tecido, escrito, rascunhado, para tentar escrever o que não cessa de não se escrever [11]. Domar o indomável olhar foi o que Orfeu não conseguiu, ainda que perdesse Eurídice, o indomável objeto a causa e causará sempre. Eurídice mil vezes perdida. Somos todos Orfeus.

 

[1] Rilke, Rainer Maria. Os Sonetos a Orfeu/Elegias de Duíno. Tradução Karlos Rischbieter. São Paulo/Rio de Janeiro: Editora Record, 2002, p. 31.

[2] Brandão, Junito de Souza.  Mitologia Grega. Volume II. Petrópolis: Editora Vozes Ltda, 1987, p. 143.

[3] Ibid, p. 146.

[4] Brunetto. Andréa. Sobre amores e exílios: na fronteira da psicanálise com a literatura. São Paulo: Editora, Escuta, 2013, p. 100.

[5] Rushdie, S. O chão que ela pisa. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 500.

[6]Dois dos livros mais lindos que já li tomaram o amor de Orfeu por Eurídice como tema. Um é Os sonetos a Orfeu, de Rainer Maria Rilke. Para mim, o poeta maior, que faz das palavras uma lira de harmonia como a de Orfeu. E o romance de Salman Rushdie, O chão que ela pisa, em que a personagem Ormus Cama, o cantor das harmonias, é um Orfeu moderno.

[7] Rilke, Rainer Maria. Os Sonetos a Orfeu/Elegias de Duíno. Op. cit., p. 111.

[8] Lacan, J. O Seminário, livro 22: RSI (1974-75). Inédito. Aula de 10 de dezembro de 1974.

[9] Lacan, J. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: JZEditor, 1982, p. 113.

[10 ]Lacan, J. O Seminário, livro 22: RSI (1974-75). Inédito. Aula de 21 de janeiro de 1975.

[11] Ibid., aula de 18 de fevereiro de 1975.

Dados da autora: Psicanalista AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum Mato Grosso do Sul.

 

 

styelete lacaniano. ano 4. número 14.