Entre esperas e lembranças: tempo, fotografia e um quê de real verde-oliva

Tarcísio Greggio

Introdução

 

De acordo com os números oficiais, o Brasil caminha em direção à angustiante marca de 600.000 vidas perdidas para a Covid-19. É muita mãe, filho, pai, marido, esposa, filha, amiga, sobrinho, avô, avó, tio, amigo e tantos outros amores da vida de alguém.

 

O que me levou a recuperar o ensaio abaixo, primeira versão do texto de abertura da exposição virtual “E agora? O Brasil e a pandemia de Covid-19 em 24 fotografias de Ale Ruaro”, inaugurada em agosto de 2020 no Memorial da República Presidente Itamar Franco, da UFJF, do qual fui diretor até meados de 2021. A mostra reuniu uma fração inusitada da obra de Ale Ruaro, responsável por um dos trabalhos mais genuínos e eloquentes que eu já tive o prazer de conhecer.

 

Uma fração porque Ale Ruaro é responsável por uma obra extensa e difusa, que já foi exibida em várias cidades, no Brasil e no exterior, e em 2020 chegou ao Memorial da República Presidente Itamar Franco. E uma fração inusitada, sem dúvida, uma vez que o fotógrafo gaúcho é conhecido por "Naked Friends", "São Paulo - SM" e tantos outros trabalhos nos quais, como quem vasculha com os olhos os escombros da sexualidade, entrega fotografias que dão a impressão de que vão romper as fibras do papel. 

 

E é desse lugar que, atendendo a um chamado do futuro, Ale Ruaro pôs sua lente para trabalhar a serviço de seu tempo. O resultado é uma de série de 24 fotografias que retratam alguns trabalhadores essenciais, como ficaram conhecidos os jornalistas, caminhoneiros, profissionais da saúde e demais brasileiros para quem a pandemia de Covid-19 não deu a opção de ficar em casa.

 

Escolhi 3 entre as 24 fotografias da mostra para ilustrar essa versão do texto apresentada à stylete lacaniano, bastante ampliada (e revista) em relação à que foi incorporada à exposição. Trata-se, em seu núcleo, de um convite para refletir sobre o tempo, a partir de um fato que qualquer leitor poderá confirmar ao bater os olhos em um álbum de família: talvez um pouco como a fala que anina nossas análises, toda fotografia é atual.

Ale Ruaro: Trabalhadores essenciais, 2020

Entre esperas e lembranças

 

Quantas histórias, articulando-se silenciosamente à tantas outras, podem ser encontradas em uma fotografia? É uma pergunta interessante e, dependendo da imagem em questão, pode realmente nos convidar ao trabalho, despertando aquele romancista que todo mundo precisou ser um dia – e que talvez ande adormecido pela brutalidade dos nossos dias.

 

Mas a verdade é que há algo que se passa entre o que vemos e o que olhamos que não se encontra em histórias contadas, tampouco nos dados biográficos do sujeito por trás do ato que enforma o vazio a que a arte dá lugar. Isso que resiste à plena ciência da representação é uma das formas de entender o que Roland Barthes chamou de punctum da fotografia. E o exemplo que aparece nas páginas de "A Câmara Clara" é tão lapidar que dispensa mais delongas teóricas. 

Alexander Gardner: Retrato de Lewis Payne, 1865.

 

O sujeito da foto é Lewis Payne, preso pela tentativa de assassinato de W. H. Seward, secretário de Estado norte-americano entre 1861 e 1869. Seward era um dos alvos da conspiração que levou à morte de Abraham Lincoln, abatido por um disparo na cabeça enquanto assistia a uma peça de teatro, em 15 de abril de 1865. 

 

Guerra de Secessão, escravidão, nacionalismo: tudo isso está aí, disponível à leitura. Mas a história ao redor da imagem não esgota suas consequências. Mais do que documentar o sujeito condenado, a fotografia de Alexander Gardner registra Payne em sua cela, à espera da execução. É isso que Barthes chamou de punctum da fotografia, algo que tem relação menos com a forma (e a informação) do que com a intensidade e com a própria experiência do Tempo: “ele está morto e vai morrer” [1].

 

“Ao me dar o passado absoluto da pose” - esse artifício por meio do qual fabricamos nosso corpo em outro toda vez que uma objetiva nos ameaça -, “a fotografia me diz a morte no futuro" [2]. O que me punge, me conturba, diz Barthes, é a certeza de "um futuro anterior cuja aposta é a morte", mais do que evidente no retrato de Payne. No entanto, qualquer fotografia, "ainda que aparentemente a mais ligada ao mundo excitado dos vivos, vem interpelar cada um de nós, um por um, fora de toda a generalidade" [3], com o peso do fato de que nossos dias estão contados.

 

Em sua "interrogação apaixonada" a respeito da eternidade divina, Santo Agostinho chega a dizer que o tempo não tem outra dimensão além do presente, e que as experiências do passado e do futuro são meras desinências do instante: a espera (ou o presente do futuro, segundo o Bispo de Hipona) e a lembrança (o presente do passado). Essa equivalência, diz Jacques-Alain Miller, nos introduz de "supetão no paradoxo do agora" [4], rasgando a linearidade sob a qual abrigamos nossa esperança de que o tempo não passará. 

 

Mas ele passa. E não há linguagem - sino, ponteiro, calendário ou apito de fábrica - capaz de deter o curso de seus efeitos. "Mais ou menos apagado sob a abundância e a disparidade das fotos da atualidade" - e Barthes escrevia em 1979! -, o punctum costuma ser evidente em nossos álbuns de família, com suas imagens carregadas de um afeto sempre presente, que embaralham esperas e lembranças em mil e uma badaladas descontínuas. Além disso, o punctum também "pode ser lido abertamente na fotografia histórica" [5], como no trabalho de Gardner que nos trouxe até aqui - ou na série de retratos produzidos por Ale Ruaro.

Ale Ruaro: Trabalhadores essenciais, 2020

Um quê de real verde-oliva

 

O que você fez durante a Pandemia de Covid-19, essa catástrofe já apontada por muitos como o evento decisivo de nossa época?  

 

Aqui eu peço licença ao leitor para que ele realmente cogite uma resposta. Afinal, a resposta a essa pergunta vai variar bastante conforme as desigualdades que dão o tom da história de nosso país, cujo presente mais parece uma trincheira cavada entre suas lembranças e esperas.

 

Quanto ao fotógrafo, ele foi ao trabalho. Entre os dias 20 de junho e 28 de julho de 2020, Ale Ruaro registrou aquelas imagens tão vigorosas e singulares – típicas de quem há mais de 20 anos se dedica a escrever com luz aquilo que só a fotografia é capaz de transmitir.

 

Hoje, pouco mais de um ano depois da abertura da exposição, o futuro não cessa de trazer sua encomenda: quase 600.000 vidas cujas mortes já estavam lá, naquilo que nos olha de volta quando vemos os trabalhadores essenciais retratados por Ale Ruaro.

 

E agora?

Ale Ruaro: Trabalhadores essenciais, 2020

 

Fotógrafo desde 1996, Ale Ruaro tem se dedicado nos últimos 3 anos aos retratos quase que exclusivamente. Sempre em preto e branco, suas imagens são construídas, sobretudo, em parceria com os fotografados, criando uma harmonia entre o rosto registrado e a luz que o lambe. As fotografias de Ale têm na iluminação contrastada e densa uma das suas características mais marcantes, fazendo os rostos ganharem contornos à la pintores holandeses, como Vermeer e Rembrandt. Ale fotografa pessoas do seu tempo com o olhar suave, amoroso e solidário de um artista do século XVII. [Biografia de Ale Ruaro por Paulo Marcos de Mendonça Lima].

www.aleruaro.com.br

Instagram: @aleruaro

REFERÊNCIAS:

 

[1] R. Barthes (1984), A Câmara Clara: Nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 143

[2] R. Barthes (1984), A Câmara Clara: Nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 142

[3] R. Barthes (1984), A Câmara Clara: Nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 144

[4] J.-A. Miller (2000), A erótica do tempo. Rio de Janeiro: Escola Brasileira de Psicanálise, p. 65; p. 62

[5] R. Barthes (1984), A Câmara Clara: Nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 142

 

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Dados do autor: Membro da EPFCL-Brasil, Fórum Juiz de Fora.

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styelete lacaniano. ano 6. número 20.