Do amor, como recuar? 

Claudia Wunsch

                       

Em um despretensioso mês de abril, os olhos de uma moça se embriagaram em uma simplicidade que

Trazia riquezas, uma voz que arrebatava suspiros, um coração inteiro e de pedaços, que abrilhantou os

Olhos daquela moça com alma apertada.

Não se podia! Já estava dito! Mas os olhos já não viam mais aquarela em outros caminhos.

                                                                                                 A secura onde pisava floresceu.

Em meio à multidão, sentiu o abraço mais fiel, seu corpo desmoronou em aflição, pois o mais sincero sentido partia.

Um nó no peito sem sossego de que lhe era imposta a partida a fez ir.

Com pernas bambas e coração abatido, achou que sofria uma doença cardíaca.

Nessa estrada, alguém lhe pergunta: E desde quando dói seu coração?

Desde um despretensioso mês de abril.

E quem nunca achou que poderia morrer de amor?

 

 

Haveria outra saída para uma mulher senão se angustiar em não ser o objeto amado?  O amor ocupa um lugar de “aquarela” na vida psíquica de uma mulher, traz invenções para seu ser, recheia sua libido no objeto amado. Amar, ser amada, ser desejada, SER.  Ser “vista”, “admirada”, “escolhida”.

 

No amor heterossexual, uma mulher escolhe um homem para desejar ser sua escolhida. Um homem precisa possuir algo do seu fantasma, do seu imaginário, a partir disso, uma mulher consente ser o objeto do fantasma de um homem. Ser a escolhida de um homem. E não é qualquer homem. “Um homem se faz desejável, um e não qualquer um” (GALLANO p.205). A mulher ama o que está por trás do véu fálico de um homem, a castração dele, o brilho fálico está em sua palavra. O desejo nasce do que ele diz.  

Se para o homem uma mulher tem que ter “uma beleza que vem da tristeza de se saber fazer mulher” (Vinícius de Moraes), para uma mulher um homem tem que ter “um coração inteiro e de pedaços”. Assim se pode amar. É aí que ela encontra seu ser para o Outro. No amor, nesse encontro, a função fálica opera do lado feminino. Por essa razão, quando uma mulher perde um amor, é como perder algo de si mesmo. “Não ser mais nada” (SOLER p.56). “Ser amada” equivale a “ser o falo”, na medida em que é a partir da própria falta que se pode amar. Amamos como sujeitos da falta, por isso, quando um homem ama é como mulher, como sujeito da falta.

O amor representa o valor fálico, o ter e o ser fálicos. As mulheres com a angústia de não ser o objeto de amor e os homens com a angústia de castração. “Quando falamos do ser da mulher, não nos esqueçamos de que este é um ser dividido entre o que é para o Outro e o que é como sujeito do desejo, entre seu ser complementar da castração masculina, por um lado, e seu ser como sujeito inconsciente, por outro. (SOLER p.67).

Na ausência de ser para o Outro, na ausência de amar, “seu corpo desmoronou em aflição”. As aflições das mulheres no amor, quando se ama e quando o amor não é “recíproco”. Porém, Lacan nos ensina: “O amor, certamente, faz signo, e ele é sempre recíproco”. O desejo do homem é o desejo do Outro, nos mostra o inconsciente. Demandamos amor. “O amor demanda amor”. (LACAN p.12). Não amamos sozinhos.

“O amor é o modo de o homem suportar o mundo” (GALLANO p.21). Escolher um objeto é escolher um objeto que ocupe o lugar do objeto que falta ao mundo. “O amor é causa humana por excelência” (JAIRO apud p.240). Freud apostou no amor como uma boa saída para a saúde mental. “Devemos começar a amar a fim de não adoecermos” (FREUD p.74). Amar é compor um objeto libidinal, é esvaziar o eu da libido é abrilhantar os olhos de uma menina.

E uma mulher poderia simplesmente amar? Sem nó no peito? Freud aposta que: o que uma mulher pode avançar em uma análise é em sua maneira de se relacionar com o penisneid. Experimentar-se como outra, como outra privada do significante que simboliza o sexual. “Dar provas do amor feminino, dar suas provas de mulher “é amar um homem sem saber o que fará” (GALLANO p. 219). É amar sem dores cardíacas?

REFERÊNCIAS

FREUD, S. (1914) Sobre o Narcisismo: Uma Introdução. Obras Completas de Sigmund Freud, vol.XIV.

GALLANO, C. (2011) A alteridade Feminina. Tradução Keila Silveira, Luciana Abreu Lima; revisão: Sandra Berta – Campo Grande MS: Andréa Carla Deuner Brunetto ed, 2011. (pp. 215 à 219).

_________ (2014). Caderno de Stylus. Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano (AFCL/EPFCL- Brasil) (pp.57 à 59)

LACAN, J (1901- 1981). O seminário, livro 20: mais, ainda/ Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques- Alain Miller; (revisão brasileira de M.D. Magno) – 2.ed.revista. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1985. (pp, 12 e 14).

QUINET, A. LIMA, J. JUNQUEIRA,S.SAFFI,T. (2012). O amor e o divã. Estudos Psicanalíticos. Desamor e desamparo no feminino. JUNQUEIRA,S. (pp.71 e 73)

SOLER, C. (1937) O que Lacan dizia das mulheres. Tradução Vera Ribeiro, consultoria Marco Antonio Coutinho Jorge; - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed; 2005. (pp.56 e 57).

STYLUS – revista de Psicanálise, n.31, outubro de 2015. Rio de Janeiro: Associação dos Fóruns do Campo Lacaniano. Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano –Brasil. – ASSIS, M. Fazer o amor é poesia: laço e contingência. (pp.182 e 183)

Dados da autora: Membro da EPFCL-Brasil, Fórum Mato Grosso do Sul.

styelete lacaniano. ano 5. número 15.