JOSEPHINE KING, artista e melancólica

Elisabeth da Rocha Miranda                           

                       

Josephine King, 45 anos é uma artista plástica que emocionou e impactou Londres com a exposição de seus desenhos. Aqueles que foram à galeria ficaram emudecidos, sem palavras diante do que viram. Seus quadros suscitaram um silêncio que habitou a galeria denunciando a presença de um real indizível. O título dado à um documentário de 2014, dirigido por Carmen Maia[1], revela a forma como a artista sente: “Josephine King: Selfish, Bitch, Female, Artist” (Josephine King: Egoísta, Vadia, Mulher, Artista).

Inglesa, filha de um artista plástico que em sua juventude fez parte do movimento hippie, Josephine passou parte de sua infância e adolescência em Amsterdam, cidade que amava. “O que eu adoro em Amsterdam é que aqui, quando se é pintora, não se pode evitar pensar em Rembrandt, ele viveu aqui, pintou em uma dessas casas, também penso em Veemer e na luz”. Esses artistas retratam a luz de Amsterdam, como se pudessem aprisioná-la em seus quadros, comenta a artista. Em um depoimento carregado de sensibilidade artística Josephine, emocionada, diz: “Amsterdam é um bom lugar para morrer porque além das memórias foi aqui que aos 26 anos descobri que a pintura seria meu destino”. Josephine, a artista, nasceu em Amsterdam aos 26 anos.  Morrer em Amsterdam uniria nascimento e morte, fechando um ciclo pela via da arte, dando sentido à existência de alguém que em seu caminho solitário só vagou pela vida, “trancada dentro de um corpo estranho a si mesma”.

O irmão lhe dizia “Vá para o quarto dos fundos tranque-se lá e pinte” porque “já não há mais o que fazer a não ser pintar” e posteriormente a artista pode dizer “os desenhos a fizeram escapar da morte”. Josephine se diz realmente muito doente à época e relata que usava uma faca para cortar constantemente os braços. Tentou o suicídio várias vezes e em 2005 o fez de forma mais violenta e quase teve êxito. Sua amiga de infância faz um relato emocionada do estado deplorável em que a artista ficou após esse episódio.

Josephine padece da “dor de existir em estado puro”. Uma dor pura é uma dor não significantizada.  É uma dor particular, pungente é a dor de existir em um lugar fora do simbólico. É verdade que todo ser de fala padece da dor de existir, todos têm mais ou menos acesso a ela, mas há aí uma singularidade; se os neuróticos podem recobrir a dor do desamparo inerente a todo ser de fala com o trabalho de simbolização que os salva e permite esquecer o nonsense que é viver, para os psicóticos não há esse recurso ao discurso. Josephine King nos mostra essa dor em estado puro, ela experencia, vive na carne a experiência desse nonsense. Em seu depoimento ela diz: “Transtorno bipolar é minha doença, eu tenho”. Aqui não há a possibilidade do recurso à crença e nesse lugar fora do simbólico surge a certeza de que “podem passar meses e anos, mas eu vou me matar. O transtorno bipolar me quer morta”.

Se para o neurótico o recalque promove a perda da memória das cenas sexuais originárias, essa memória pode ser encontrada pela via associativa, o que supõe a presença do significante do trauma no simbólico. O recalque é uma ausência de significantes na cadeia dos enunciados do sujeito, mas é uma presença marcada no simbólico. Já a foraclusão do significante Nome-do-Pai é a ausência total de um significante que inscreva a cena de gozo, logo o gozo é experimentado sem estar fixado a um significante, é um gozo totalmente no real, não correlato ao simbólico. É um gozo da ordem do real insustentável e Josephine, na tentativa de se ver livre do que não consegue nomear tenta o suicídio várias vezes.

Em dezembro de 2005, é hospitalizada na França, “overdose, cortei os pulsos, psicótica, corda, arma, faca, pílulas, gás, álcool, telhado, saco plástico, ponte, droga, a depressão maníaco depressiva destruiu minha vida. Hoje posso falar disso intelectualizando, mas não sou capaz de dizer como foi que aconteceu, como fui tão longe! ”. O sujeito melancólico, diz Lacan, tenta reunir-se ao objeto a cujo comando lhe escapa (Lacan, 2005, p.364).

Se o melancólico se suicida com frequência é porque o que faz retorno no real do ato suicida é justamente a parte excluída no simbólico. O ato suicida se traduz como o retorno no real, da perda que não foi efetuada no simbólico e o sujeito é ele mesmo essa perda. As mutilações frequentes nas psicoses, são a realização no real da perda que não foi operada pela operação do significante. Vemos isso também com muita frequência nas crianças autistas que se automutilam.

No referido documentário o pai de Josephine lembra que ela era uma menininha muito brava e engraçada. Com três anos tinha verdadeiros acessos de fúria ao final dos quais caía dura, desmaiada por um longo período. As pessoas ficavam apavoradas pensando que ela havia morrido e após uma sonora gargalhada diz: “ela estava só desmaiada, não toquem nela”. Vemos o intenso cansaço que esses surtos provocam na criança.

Josephine escapa, como ela mesma diz, desenhando seus auto-retratos. Em uma ocasião, passa dias caída no chão da cozinha de seu apartamento e só se recupera quando consegue fazer o contorno do próprio corpo no chão. Josephine mantém um auto- retrato na entrada de seu atelier, nele está vestida com as mesmas roupas que usava na ocasião de sua entrevista. Antes de entrar no atelier Josephine olha com vagar o auto-retrato. Seu olhar o percorre da cabeça aos pés conferindo-o com cada parte de seu próprio corpo. Depois se recompõe e entra. No entanto, esses auto-retratos não dão conta de lhe dar um corpo livre do sofrimento e ela afirma: “Esse corpo será reduzido a cinzas junto com essa depressão maníaca.”

Lembramos aqui outra melancólica e igualmente talentosa, a consagrada escritora Virginia Woolf. Josephine desenha e pinta o que Virginia escreve. Se a primeira precisa de seus auto-retratos, a segunda precisa da letra, da escrita. Virgínia nos diz que “só a escrita lhe dá um corpo”. Ao começar um romance sua pena para, estanca, e é preciso lutar contra isso porque é só depois que o personagem nasce que ela cria corpo. Quando acaba o romance Virginia deprime.

Josephine não para de pintar e também precisa das palavras que escreve de modo a moldurar seus auto-retratos onde podemos ler: lítio- psicose- mulher- dor- internação entre muitos significantes que falam de sua dor de existir.

Josephine é um sujeito psicótico, mas antes de qualquer determinação estrutural de seu aparato psíquico, ela é uma artista e deste lugar, utilizando-se de seus desenhos ela nos dá um belíssimo depoimento da dor de existir que a tortura.

Josephine é suicida, melancólica, mulher, vadia, egoísta, mas, sobretudo artista das tintas, das telas, e da própria vida.

Diagramação das fotos por Felipe Grillo

REFERÊNCIAS

LACAN, J. O Seminario, livro 10: a angustia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

[1] Link para o trailer de “Josephine King: Selfish Bicht Female Artist”: http://mirafilmes.net/photos/josephine-king-selfish-bitch-female-artist consultado em 26/08/2019.

Dados da Autora: Psicanalista AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum Rio de Janeiro. 

styelete lacaniano. ano 4. número 14.