Da solitude ao solidário: uma estratégia de sublimação 

Nádia Martins

                       

Infelizmente vivemos tempos difíceis por enfrentarmos um inimigo invisível que chegou com o CORONAVÍRUS (Covid-19) e vem destruindo grande parte da população mundial. Num primeiro momento, fomos surpreendidos, ficando atônitos e paralisados, mas, logo depois, uma parcela da população se uniu em torno do que dizem os infectologistas e a OMS (Organização Mundial de Saúde), nos recolhemos em quarentena, lamentando que nem todos cumpriram as orientações.

 

Sabemos que o Covid-19 não trouxe apenas mortes, mas também desemprego, recessão, desamparo e fome. Sendo assim, é uma posição de ordem ética que coaduna com as iniciativas já tomadas por vários colegas da área de saúde em suas diferentes especificidades que nos leva a acreditar que, juntos, vamos ultrapassar esse momento e resistir a essa pandemia. Nesses tempos difíceis de catástrofes e pandemia mundial, lançamos mão dos recursos que nos permitem dar continuidade ao que desejamos e, mesmo sem entusiasmo, mantermos o nosso leitmotiv para a vida profissional e pessoal.

 

Diante de tudo isso, pude me refugiar com minha família em Petrópolis, cidade na serra do Rio de Janeiro, onde temos uma casa, deixando meu consultório e residência em Ipanema para trás. Convidei meus pacientes para os atendimentos on-line que iríamos iniciar. Uns aceitaram, outros postergaram a decisão de continuar. Com essa mudança de lugar, após a castração que também pode ser libertadora, mudei também de posição e houve uma modificação subjetiva na minha maneira de estar no mundo.

 

Nessa nova fase, encontrei o júbilo que me libertou em parte da angústia de que padecia e abriu meus horizontes para buscar soluções que atenuassem o sofrimento dos outros. A solitude é um estado de isolamento e reclusão decorrente de uma escolha pessoal. A solitude está associada à sentimentos positivos, a alegria de estar só, em contato consigo mesmo, uma oportunidade de reflexão sobre a vida!  Iniciei com minhas colegas psicanalistas uma leitura específica [1] sobre atendimentos on-line e, entusiasmada com o texto, propus que transformássemos este estudo em uma rede de pesquisa visando um aprofundamento sobre o tema. Estamos elaborando nossos estudos sobre as questões que nos deparando na clínica a cada dia que passa nessa pandemia: as questões impostas pelos atendimentos on-line.

 

A clínica, agora reduzida à presença-virtual do paciente e do analista, tornou-se o ponto privilegiado em nossos estudos nessa busca por um saber mais adequado e possível para esse momento da subjetividade de nossa época. Debrucei-me sobre todas as oportunidades de participação nos seminários oferecidos pelo Campo Lacaniano para ouvir e trocar experiências com meus colegas lacanianos e manter acesa a luz do desejo de saber nessa formação lacaniana que é permanente. Paralelo a tudo isso e tentando me salvar dessa forma através da cultura, das letras e dos estudos, não pude deixar de perceber toda a situação de desamparo semelhante ao desamparo primordial freudiano que estavam imersos quase todas as pessoas ao nosso redor com seus desempregos e lutas pela sobrevivência nessa pandemia.  

 

Diante da fome, das mortes e do desespero e na impotência de fazer alguma coisa solitariamente, investi na mobilização dos meus vizinhos e procurei on-line um a um para falar do desejo de mudar alguma coisa nessa nossa maneira de viver e de nos voltarmos para o outro mais carente e necessitado. Através da escrita de cartas e circulares além de comunicações on-line, obtive vários adeptos para participar comigo de compras de cestas básicas, pois verifiquei que mesmo comprando o máximo que pudesse por mês, não ajudaria a quase ninguém. Iniciei virtualmente um projeto on-line convidando e mobilizando todos meus vizinhos a participarem conosco.

 

A primeira arrecadação de doações que fizemos num Sábado de Aleluia, em 11/04/2020, foi surpreendentemente maravilhosa. As doações foram entregues aos representantes da comunidade carente próxima na véspera da Páscoa. Para sustentar esse desejo precisamos contar com a união dos moradores, respeitando sempre a singularidade de cada um. Em maio, fizemos a segunda arrecadação no sábado que antecede o domingo do dia das mães e conseguimos ajudar o dobro de famílias, cinquenta famílias. Estamos nos preparando para a terceira doação de cestas básicas para famílias carentes que está agendada para o dia 13/06.

 

Criamos, uma plataforma virtual com uma equipe de voluntários na própria vizinhança, juntamente com representantes da comunidade carente que elegemos para doar, e fizemos uma pesquisa informal sobre os casos mais graves de carências, sofrimentos e ansiedades, estresse, depressão, solidão, e perdas que com medo de serem engolidos pela pandemia e pela dor de existir que se intensificou nesse momento de crise apresentaram-se desorientados nessa quarentena. No ato das reuniões on-line como refúgio da omissão e da indiferença aos menos favorecidos e base de operação contra o mal-estar na civilização e desigualdade social brasileira que acaba atingindo a todos nós, estamos tomando medidas necessárias de solidariedade humana.

 

Nesse período de quarentena senti necessidade de criar formas de escutar nossos pacientes, amigos, parentes, colegas e vizinhos, percebendo que isso também nos auxilia a lidar com a angústia, não só a nossa como a deles, diante de um real avassalador e devastador. Com várias famílias desempregadas, as ruas das cidades ermas, o comércio quase todo fechado, os serviços de atendimentos parcialmente fechados, funcionando precariamente nesse momento de confinamento no interior dos nossos lares e de distanciamento social parcial e de solidão quase absoluta, o que nós fizemos? Criamos uma estratégia na luta pela nossa sobrevivência, nos organizando em verdadeiras “bolhas familiares” na tentativa de nos proteger nessa PANDEMIA. Permanece então a pergunta que não quer calar: O que mais poderemos fazer? O que pode o psicanalista para além do atendimento on-line a seus pacientes, como pode oferecer um compartilhamento através da fala endereçada ao social e ao coletivo nesse momento? Qual o lugar da linguagem nesse campo de gozo diante do impossível de suportar?

 

Podemos através da palavra sustentar no simbólico com mensagens e cartas circulares que mobilizem as massas, as coletividades ao nosso redor para incentivar a solidariedade a fraternidade e um gesto de amor. Estaríamos sublimando – como nos diz Lacan, que coloca a sublimação no campo da pulsão – ao convidar os amigos e vizinhos, a partir de uma plataforma virtual a experimentar nesses tempos difíceis de fome, miséria, separação e morte sem direito aos ritos de despedidas... um convite ao combate à fome, que gera o desespero e esse sofrimento, com a troca de recursos básicos alimentícios? Seria isso uma forma de sublimar? Sublimar o que? E o que é sublimação?

 

Para Freud [2] sublimação é um dos destinos da pulsão. A sublimação seria uma forma de transformar uma pulsão em algo socialmente aceito. Por exemplo, quando trabalhamos, estamos transformando nossa libido ou nossa pulsão sexual ou de vida em algo “produtivo”. Lacan [3] vai falar do poder criacionista da pulsão, nos aponta:

 

 Assim, devemos levar em consideração que as pulsões, Triebe, as comoções pulsionais sexuais, são extraordinariamente plásticas. Elas podem entrar em jogo umas no lugar das outras. Uma pode pegar para si a intensidade das outras. Quando a satisfação de uma é recusada pela realidade, a satisfação de outra pode oferecer-lhe uma completa compensação. Elas se comportam umas em relação as outras como uma rede, como canais comunicantes preenchidos por um líquido.

 

Transformando o inaceitável do real em atos socialmente aceitáveis, podemos indagar logo de saída se a busca por essas vias teria efeitos de sublimação sobre o sujeito, como a metáfora que se encontre, na origem dessa obra surrealista que se chama Os vasos comunicantes. Freud coloca a sublimação definida como um destino da pulsão, mas também como elevação do objeto à “dignidade da Coisa” — definição que se tornou princeps em Lacan [4].

 

A COVID-19 como catástrofe natural chegou como corte num excesso de gozo da humanidade, teremos agora um marco na nossa história, um antes e um depois dessa transformação social, uma nova forma de ação psíquica faz-se necessária, uma mudança de  discurso, como diz Lacan no Seminário XX – o discurso capitalista entrando em declínio e um novo discurso sendo implantado na saúde pública, mesmo antes do Estado, que estará voltado para as doenças e muitas mortes causadas pelo vírus, pela fome e pela miséria. Depois dessa pandemia jamais seremos os mesmos. Quando a vacina for testada pela ciência em nosso “mercado capitalista” para serem comercializadas pelos laboratórios, esperamos que nesse PANDEMUNDO tenhamos construído um mundo melhor, mais solidário e mais digno, transformação essa que está em nossas mãos! Não podemos “lavar as mãos” como fez Pilatos diante de Cristo no Evangelho, temos que estender as mãos. Sejamos freudianos e reconheçamos que o sujeito do individual é o mesmo do social. Está em nossas “mãos lavadas” a construção de um novo futuro mais digno, mais igualitário, mais humanizado e provavelmente mais feliz! O vírus Corona nos isolou, mas há uma saída, há uma libertação – a solidariedade.

REFERÊNCIAS

[1] FINK, B. Fundamentos da técnica psicanalítica: uma abordagem lacaniana para praticantes. São Paulo: Blucher, 2007.

[2] FREUD, S. (1930[1929]). O mal-estar na civilização. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

[3] LACAN, J. (1959-60). O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991, p. 116.

[4] LACAN, J. (1959-60). O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991, p. 140.

Dados da autora: Membro da EPFCL-Brasil, Fórum Rio de Janeiro.​

01 de maio de 2020.

stylete lacaniano, ano 6, número 20.