Espelho, espelho meu... 

Claudia Leone 

O encontro de três amigas num restaurante mexicano, saboreando um delicioso rodízio de vários apimentados pratos e bebericando uma sangria pode parecer irrelevante à primeira vista, porém a temática girou em torno de dietas e emagrecimento. As formas mais variadas de alcançar “o corpo perfeito” são ofertadas e com o advento da internet e redes sociais a facilidade é notória e a propaganda é feroz, um discurso sedutor e convincente que não captura apenas as mulheres, mas também os homens.

O papo é superficial, fútil, coisas de mulher, e tudo mais que escutamos por aí, se não revelasse o contexto atual que vive nossa sociedade e que não passou despercebido pela escuta atenta que a psicanálise promove. Uma delas relatava uma consulta médica, de um profissional famoso, que faz uma promessa convicta de resultados incríveis. Ele pede para a paciente dizer qual seria seu objetivo a ser alcançado: bailariana do Faustão, Panicat ou mulher do Belo (referência ao corpo musculoso de Gracyane Barbosa).

Eu, incrédula com a “proposta indecente do médico”, fui apresentada ao incrível mundo virtual, onde existe um lugar sem limites para todas as formas de consumo. Tudo é permitido, é claro, e não é nenhuma novidade, pois é cotidiano surgirem novos escândalos envolvendo excessos cometidos por profissionais ou por pessoas que fazem de tudo para alcançarem esse “ideal”.

O Brasil é o 2° país que mais realiza cirurgias plásticas, perdendo apenas para os Estados Unidos* e também há um expressivo aumento do uso de anabolizantes entre os jovens, “constituindo um problema de saúde pública” [1].

Freud destaca no texto de 1930 [2], “O mal estar na civilização”, três fontes de sofrimento para o homem: o próprio corpo, o mundo externo e as relações com outros seres humanos.

O corpo é fonte de sofrimento, “que fadado ao declínio e à dissolução, não pode sequer dispensar a dor e o medo, como sinais de advertência”. Nesse texto fundamental da psicanálise, o autor discorre que podemos evitar o sofrimento, colocando “o gozo à frente da cautela”, mas não sem consequências. Sabiamente ele faz a observação de que “o programa de ser feliz, que nos é imposto pelo princípio do prazer, é irrealizável”, ou seja, “em nenhum desses caminhos podemos alcançar tudo que desejamos”.

Não poder alcançar tudo que desejemos não é a melhor maneira de contextualizar nossos dias, onde estamos presenciando o pacto entre ciência e capitalismo com imperiosa ordem do “goze a qualquer custo”! Nesse contexto a questão do corpo é impositiva, ou seja, preserve o corpo saudável, jovem, atlético e etc.

Na sociedade atual, de consumo e do espetáculo, os objetos que se apresentam como “necessidade” se multiplicam, e o corpo não foge à regra fetichista da mercadoria a ser vendida pela indústria cultural e da saúde. O corpo perfeito está ligado ao corpo saudável, que é o veículo para se alcançar status, felicidade, reconhecimento e amor. Uma cultura um tanto paradoxal, uma vez que a busca pelo corpo “ideal-saudável” é pautada nos excessos, no uso abusivo de substâncias e no exagero das intervenções cirúrgicas, na qual nosso país alcança índices quase de primeiro mundo, comparando sua segunda posição diante dos EUA.

O filósofo Guy Debord publica em 1967 [3] “A sociedade do espetáculo”, o livro é uma crítica à sociedade e ao consumo promovido pelo ideal capitalista, onde o espetáculo é uma relação social entre pessoas disseminado pelas imagens e promovido pelos meios de comunicação em massa. O espetáculo “é o coração da irrealidade da sociedade real”, uma alienação riscada na aparência e na passividade humana.

A alienação do espectador em proveito o objeto contemplado (que é resultado da sua própria atividade inconsciente) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos ele compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo (p.26).

O termo alienação perpassa a psiquiatria, a filosofia e também a psicanálise com Jacques Lacan. O autor propõe que a constituição do sujeito humano acontece por identificação, processo na qual o sujeito se aliena em épocas precoces, numa dependência necessária para sua constituição subjetiva.

Os significantes que vêm do Outro antes mesmo do nascimento (nome, sexo, profissão e etc) são ao mesmo tempo constitutivos e alienantes, uma vez que têm a “força de determinação e se impõem como se fossem uma obrigação que o sujeito deveria acatar para se definir”, como cita Quinet [4] em “Os outros em Lacan”.

Mas por se tratar de alienação, esses significantes não conseguem dar homogeneidade totalizante ao sujeito, pois ele não é o que o Outro aponta e no trabalho de análise essas etiquetas vão descolando, despencando, impulsionando uma abertura, um furo que pode ser preenchido por novos significantes. Uma mudança subjetiva que objetiva (pro)mover “identidades da ordem do semblante” [4].

Uma análise conduzida por uma analista não visa a responder a demanda do analisante, justamente ao contrário, frustrando a essa demanda, ele é “compensado pela retomada do fio do desejo, do ganho terapêutico, da conquista do saber e da redução do sintoma” [5].

REFERÊNCIAS

[1] https://domtotal.com/noticia/1279339/2018/07/a-ditadura-da-beleza-no-brasil-e-um-fenomeno-que-penaliza/;

[2] FREUD, S. (1930). “O mal estar na civilização”. Obras completas volume 18. São Paulo. Companhia das Letras. 2010. (pág 31);

[3] DEBORD, Guy. “A sociedade do espetáculo”. eBooksBrasil. 2003. (pág. 15);

[4] QUINET, Antonio. “Os outros em Lacan”. Rio de Janeiro. Zahar. 2012 (págs. 23/24);

[5] QUINET, Antonio. “A descoberta do inconsciente: do desejo ao sintoma”. Rio de Janeiro. Zahar. 2000 (pág. 105).

 

Dados da autora: Psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum Joinville.

 

styelete lacaniano. ano 4. número 14.