To be or not to be in love sem adolescer? 

Antonio Quinet

O solilóquio to be or not to be, do adolescente Hamlet, apresenta o sujeito dividido entre, por um lado a ordem supergóica de matar seu tio, rei e marido da mãe e, por outro lado, o horror ao ato – eis o paradigma da divisão subjetiva que adolescentemente nos habita. Como toda obra prima, Hamlet é sujeita a múltiplas interpretações. Por um lado, temos o imperativo do fantasma do pai como uma ordem do supereu, advinda do pai real, pai de gozo, morto na flor de seus pecados e cujas atrocidades cometidas em vida fariam "saltar os olhos de suas das órbitas”. Hamlet poderia desconsiderar a ordem do fantasma, perceber que foi uma visão alucinatória de seu desejo, deixar sua mãe viver a vida dela, namorar Ofélia e, quando tivesse a idade de ser rei da Dinamarca, destronar o tio Claudio e se declarar rei. Certamente, nesse caso não haveria tragédia, nem estaríamos falando dele até hoje e tampouco celebrando mais de 400 anos de Shakespeare. Mas não. O adolescente Hamlet, em pleno conflito de se desligar do Outro parental, ataca violentamente sua namorada Ofélia e em seguida a mãe, chamando-as cada uma, a seu modo, de vagabunda, prostituta e promíscua. Rompe com Ofélia e se entrega à tortura da divisão subjetiva do ser ou não ser, estar ou não estar, se separar ou se alienar, viver ou morrer, lutar ou se acomodar.

 

Hamlet dubitativo se pergunta:

“to be or not

to be or not

to be or not to be

not to be

to be

or

not to be

not to be

not to be

to be

to be

to be or not to be

that is the question!

 

será mais nobre sofrer na alma

pedradas e flechadas do destino atroz?

ou pegar as armas e combater o

mar de problemas dando-lhe um fim?”

 

O conflito de Hamlet é: aceitar o destino e deixar-se levar pelos desígnios que o Outro lhe destinou ou lutar contra isso e agir? Formulando de outra forma: alienar-se pela aceitação do status quo ou separar-se por meio do ato? Há uma terceira saída:

“Morrer, dormir – nada mais

E com o sono dizer que se termina com a angústia e com os milhares

Choques naturais que a carne herdou

Eis um final que se deve ardentemente buscar”.

 

Eis a saída pela fuga: jogar-se na cama de depressão e dormir ou pôr um fim à própria vida. Mas, se ele não se matar por resolver ceder à covardia do desejo, e deitar-se na cama e dormir, poder vir um sonho de angústia, um pesadelo, e trazer o real do conflito.

“Dormir, talvez sonhar.

Pois naquele sono da morte os sonhos que poderão vir, quando tivermos largado este invólucro mortal, devem nos fazer hesitar. Essa reflexão dá vida longa às desgraças da vida”.

 

Ao dormir, ele pode ter pesadelos que o fazem despertar para o real. Pois o sonho é a Outra cena privilegiada da tycké – o encontro com o real.

“A reflexão nos faz todos covardes. A cor natural das decisões adoece com a palidez do pensamento e empreendimentos oportunos de grande impacto se extraviam e perdem o nome de ação”.

 

Quarta saída: a neurose. Ficar pensando, refletindo, ruminando ao invés de partir para o ato. Hamlet não é apenas paradigma da adolescência, é paradigma do sujeito dividido, o sujeito da palavra.

 

Hamlet é um sujeito devastado. Devastado, nos indica Freud, pelo desejo incestuoso e por ele mesmo impedido de matar o tio que ocupou o lugar do pai na cama junto à mãe. Sim, o tio, e não ele. Eis a interpretação freudiana de impedimento à ação para manter em vida aquele com o qual pela via do desejo Hamlet se identifica.

 

Nessa tragédia, o sujeito é devastado pela alienação no Outro materno, e rompe com sua namorada Ofélia. Esta, por sua vez, também adolescente, indo contra os desígnios do pai, havia se entregado sexualmente ao namorado. E, quando vai terminar o namoro com Hamlet a mando do pai, é xingada de puta pelo mesmo homem que a desvirginou. Ofélia não enlouquece por Hamlet ter terminado com ela, mas pelo ataque superegóico do fantasma do próprio pai que, diferente de Hamlet, não aparece, mas é tão real quanto. Ela se mata por ter perdido a castidade – o bem mais precioso...do pai. Ambos se suicidam: Hamlet se fez matar por Laerte, irmão de Ofélia, em seu túmulo de morte, e Ofélia, em sua cena de loucura, desvela que foi desvirginada por Hamlet para logo ir se deitar no leito do rio da morte, onde jaz Polônio, seu pai. Esses adolescentes devastados não se desligaram da autoridade do desejo do Outro parental a não ser pela morte. Foram devastados pelo amor... incestuoso.

 

O que se verifica na adolescência é o despertar do amor, que comporta o desligamento do Outro parental e a recomposição do Outro... do amor erótico. Mas, como nos diz Sonia Alberti em seu livro Esse sujeito adolescente, “a adolescência como despertar da primavera, implica muito mais o confronto com o real do sexo que questiona toda a existência do sujeito do que a capacidade de amar”.

 

A adolescência é, efetivamente, o momento de reatualização do traumatismo do sexo, que verdadeiramente é o trauma do encontro com a impossibilidade de se escrever a relação sexual. Por isso seu descompasso: é excessivo ou faltoso. O “não-há-relação-sexual”, real impossível, se realiza justamente quando há possiblidade de ato sexual. O que não aconteceria na infância. Na adolescência, vem o despertar do corpo púbere, há essa possibilidade. Mas não! Justamente aí na adolescência que aparece a ab-sense. Afirma-se, então, de forma traumática, a ausência da relação sexual de complementação dos sexos, não só entre o rapaz e a moça, mas também entre os rapazes entre si e as moças entre si. O despertar do real sexual dos belos adormecidos que são os adolescentes, provoca o confronto com a impossibilidade real do sexo e também sua suplência: o amor.

 

O amor

A adolescência é o momento do despertar do amor. Mais do que cronológico, momento estrutural, pois o despertar do amor nos transforma todos em adolescentes. E parte-se para fazer amor que, como diz Lacan, não é praticar o sexo e, sim, fazer poesia. O fazer sexo atualiza o real do impossível de um atingir plenamente o outro. O impossível de fundir-se com o outro. O impossível de uma penetração perene do Outro. O impossível de eternizar-se no âmago do outro. Daí parte-se para a poesia. O amor torna-nos a todos poetas. A ab-sence da relação sexual é ausência de intersubjetividade sexual, psíquica e corporal, e também ausência de sentido: a falta não é só de complementariedade, é também falta na linguagem de sentido a dar ao sexo.

 

Falta a palavra certa que possa falar o real. O amor como suplência da relação sexual cria o poeta – aquele que faz amor com as letras. E, assim, os apaixonados adolescentes poetizam, trocam juras de amor, torpedos, mensagens apaixonadas por e-mail, whatsapp e cartas que não enviam, músicas compostas que chegam a seu destino e outras que vão parar na lixeira. Ao escrever, o adolescente poeta tenta fazer algo do real do gozo daquele sexo que não entende, que não tem sentido. À incompreensão do real do sexo vem suprir a certeza do amor sentido – o que se sente e o que faz sentido. E brilham todas as metáforas no firmamento infinito da linguagem. “Duvide que as estrelas sejam fogo, duvide que o sol se mova, duvide que a verdade seja mentira, mas nunca duvide do meu amor”, escreve Hamlet para sua amada. Mas sempre falta à poesia ser mais poética para dizer o amor: “Ó querida Ofélia, sou péssimo em versos, incapazes de versificar meus suspiros, mas acredita que meu amor é o máximo. O máximo dos máximos, acredita. Adeus. O para sempre teu, enquanto esta máquina lhe pertencer. Hamlet”. (Ato II, cena 2).

 

O apaixonado quer que seu corpo pertença ao outro como corpo desse outro, parte integrante do outro, em suma, como objeto que falta ao Outro. Mas a certeza do amor pelo amado é acompanhada da incerteza do amor que advém do ser amado. Será que ele me ama? Por que não me ligou? Por que não me mandou mensagem? Por que me mandou uma mensagem tão fria? Daí a necessidade constante de se ouvir declaração de amor... para suprir a falta da relação sexual que se repercute no amor sob a forma de incerteza... incerteza de ser amado.

 

O amor adolescente é sempre poeta, e prefere ficar em casa a escrever para atingir com a pena sua amada ou seu amado do que ir para a rua deslizar nas pistas de gozo e nas baladas de corpos e balas. Os apaixonados Hamlet, Ofélia, Romeu e Julieta não são como Laerte, irmão de Ofélia que, segundo Polônio, seu pai, é acometido de “desejos frívolos, malucos e comuns que acompanham conhecidamente a juventude e a liberdade, como a jogar, beber, esgrimar, dizer palavrões, brigar, andar com mulheres”, enfim, todos esses “lampejos e explosões de uma mente fogosa, selvageria de um sangue inexperiente de que todos os jovens são vítimas” (Ato II, cena 1). O desvario pulsional típico da adolescência encontra um alvo quando desperta o amor. Este vem domar a selvageria do corpo fogoso para explodir na linguagem poética. Doravante, o amor é que vira selvageria. O deslizamento metonímico de parceiros, drogas e aventuras, cede o lugar ao caminho metafórico da poesia que visa cingir o objeto amado do desejo. E o amor “adolesce”, adoece da língua, e se torna criativo – inventando palavras, neologismos que formam nomear o ser amado. Os novos nomes, amores dos parceiros que são trocados debaixo dos lençóis, são secretos (para não parecerem ridículos fora da alcova). Esses nomes do amor-parceiro são invenções da lalíngua de tentar nomear o parceiro do impossível. O despertar do amor é sempre adolescente, e o despertar da poesia também. A língua do amor é poesia, ou seja, palavras que bailam ao som da música que procuram dizer o imaginário do encontro dos corpos falantes e fixar o real do gozo sexual, que é sem medidas.

Dados do autor: Psicanalista, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Fórum Rio de Janeiro.

styelete lacaniano. ano 5. número 15.